Decapitações, raptos e massacres. O pesadelo em Moçambique sem fim à vista

“Militantes islâmicos decapitam mais de 50 pessoas em Moçambique”. Foi o pior ataque levado a cabo por um grupo islâmico em Moçambique de que há memória, avançou a BBC. A notícia, publicada no passado dia 9 de novembro, chocou o mundo e voltou a centrar as atenções na onda de violência na província de Cabo Delgado, que dura há já três anos.

Há quatro questões que tornam Moçambique num país suscetível ao conflito: a corrupção dentro do partido político no poder, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO); uma história recente de guerra civil, que durou 15 anos; uma revolta de seis anos protagonizada pelo mesmo grupo rebelde – a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO) –, que terá terminado formalmente no ano passado; e a pobreza. A juntar-se a esta mistura explosiva, os moçambicanos são agora castigados com o terror jihadista.

Tudo começou no dia 5 de outubro de 2017, quando o grupo terrorista atacou vários pontos de Mocímboa da Praia (Cabo Delgado), conseguindo dominar metade da cidade. Morreram dois agentes da autoridade e quatro atacantes. Alguns dias depois, as autoridades recuperaram o controlo da área. Desde então, a violência tem-se vindo a intensificar e a alastrar para outras zonas de Cabo Delgado – onde, ao contrário do resto do país, cerca de 58% da população é muçulmana -, havendo já cerca de 2.000 vítimas mortais e, pelo menos, 435 mil deslocados internos.

Ricardo Franco/LUSA

“Al-Shabaab”

O grupo armado que tem aterrorizado a região de Cabo Delgado é conhecido entre os habitantes por “Al Shabaab” – o que significa “A Juventude”, em árabe –, já que é formado maioritariamente por jovens. Embora tenha o mesmo nome dado aos extremistas islâmicos que controlam grande parte da Somália, não há provas de que os grupos estejam ligados, hipótese que também não é descartada.

Pensa-se que terá começado em 2015 como uma organização religiosa, na cidade portuária de Mocímboa da Praia (Cabo Delgado), formada por jovens islâmicos de base sunita conservadora. O grupo, que advoga a imposição da lei islâmica (a xaria), considera ainda que o Islão professado pela generalidade dos muçulmanos moçambicanos se desvia da ortodoxia. Os militantes juraram publicamente lealdade ao Daesh no ano passado, o que veio reforçar a ideia de que a insurreição em Cabo Delgado é parte de um movimento jihadista global

No entanto, há muitas teorias quanto à identidade e aos objetivos deste grupo que semeia o terror na região. A interpretação que foi adotada pelo Governo é a de que existe uma conspiração de forças externas e internas hostis ao desenvolvimento de Moçambique.

O jornal 8ª Colina esteve à conversa com Rufino Sitoe, professor da Universidade Joaquim Chissano, em Moçambique, e autor do livro “Terrorismo em África: A Presença da Ameaça em Moçambique”, que admite que esta teoria pode ter algum fundamento. “Há um conjunto de pontas soltas que dão a entender que não se trata apenas de terrorismo islâmico. Uma delas é a falta de reivindicação da autoria dos atos de violência. Outra é o facto de o início da violência coincidir com os programas de exploração de gás natural, quando havia as mesmas condições para esta se ter iniciado antes”.

Por enquanto, não existem dados suficientes para que possa ser dada uma resposta perentória em relação às verdadeiras intenções do grupo terrorista. Mas há algo que reúne consenso: o facto de a situação económica ser um agente facilitador do recrutamento.

Na maior parte dos casos, estes militantes são jovens pobres, sem emprego, e membros de um grupo étnico marginalizado, os kimwanis. “É oferecido dinheiro à maioria dos jovens recrutados. Outros recebem propostas de emprego em Palma – uma região onde há grandes projetos na área do gás”, lamenta Rufino. “A vulnerabilidade social que se manifesta pelos baixos níveis de instrução e pela falta de acesso a oportunidades, quando combinada com a pobreza, forma um cocktail favorável ao alcance dos objetivos dos grupos insurgentes”.

Embora grande parte do recrutamento seja voluntário, tem-se verificado a ocorrência de cada vez mais sequestros e raptos, o que faz o grupo crescer rapidamente.

 

Gás natural e a economia em Moçambique

Para além dos problemas de segurança, a nível financeiro o terrorismo também está a sair caro ao Estado Moçambicano. O Produto Interno Bruto tem vindo a baixar desde o início dos primeiros ataques, em 2017.

A situação em Cabo Delgado tem provocado uma preocupação adicional, por ameaçar o desenvolvimento de um projeto de exploração de gás natural nesta área, a ser inaugurado em 2022, e essencial para a economia de Moçambique. O país é o maior exportador de gás natural da África Austral, posição que se espera que saia reforçada com este projeto.

“A violência já está a custar muito ao Estado moçambicano, mas obviamente que também ameaça os projetos de gás, que oferecem perspetivas importantes de receita. Por outras palavras, os investimentos são melhores em clima de paz. Isto dá segurança ao investidor e ao país que recebe o investimento”, explica o professor universitário.

Figura 1. Economia em Moçambique. Fonte: FMI/Banco Mundial a 04/06/2020

Inação do Governo moçambicano

A estratégia de combate ao terrorismo pelo Governo de Moçambique tem sido marcada por uma “política de silêncio”, que não foi bem recebida entre os moçambicanos e a comunidade internacional.

A falta de comunicação e transparência do Governo geram uma enorme desconfiança por parte dos habitantes. A opinião de vários especialistas em política internacional é a de que é necessária a reaproximação dos políticos à população em geral, bem como a reconstrução da confiança para a resolução do conflito.

O impedimento de acesso às províncias atacadas pelos insurgentes por parte de órgãos de comunicação moçambicanos e o bloqueio de informação também são apontados como erros do Estado. Para Rufino, esta obstrução “é importante para proteger os jornalistas da violência”. Mas admite que “dá a entender que o Governo está a esconder algo e permite todo o tipo de especulação prejudicial à imagem do Governo”.

Quanto à ação governamental, mais do que um investimento na via militar, é preciso haver uma implementação de programas de desenvolvimento que combatam a vulnerabilidade. “A ação militar é uma componente importante deste processo, mas não é suficiente. Há claramente um aproveitamento das populações e, enquanto não se diminuir essa vulnerabilidade, os grupos terão onde recrutar mais gente”, admite o professor.

O que mudou em 2020?

2020 é considerado, por alguns especialistas, o pior ano desde o início dos ataques terroristas. Moçambique subiu oito lugares no Índice Mundial do Terrorismo de 2020, ocupando agora a 15.ª posição, e é o país de língua portuguesa mais afetado pelo terrorismo. A instabilidade criada pela pandemia de Covid-19 tem sido aproveitada pelos grupos terroristas para aumentar os ataques e conquistar novos territórios.

De acordo com dados da Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), uma ONG norte-americana dedicada a recolher e analisar dados sobre violência política em grande parte do mundo, entre 1 de janeiro e 25 de abril registaram-se 101 incidentes, três vezes mais do que no mesmo período do ano passado. O período em análise foi marcado por um aumento da letalidade e da frequência dos ataques, que passaram para uma média de 24 por mês, sendo que no ano anterior a média fora de 16 no mesmo período. De acordo com os mesmos dados, em 2018 a média situava-se entre os seis e os sete ataques.  

Os vídeos que são publicados pelo grupo terrorista dão uma pequena ideia do cenário macabro que se tem vindo a intensificar desde o início deste ano. Os relatos de decapitações, desmembramentos, raptos, violações e todo o tipo de violência são cada vez mais frequentes, e os números de deslocados e vítimas mortais não param de aumentar. De acordo com a Organização Internacional das Migrações (OIM), quase metade das pessoas deslocadas são crianças e, pelo menos, 25 estão sozinhas.

Ricardo Franco/LUSA

Por trás destes números, uma população vive com medo. “Em Cabo Delgado, de forma particular, as pessoas vivem angustiadas pelo facto de a ameaça estar à sombra. A situação dos deslocados é ainda mais agonizante. Nos campos vive-se um cenário de tristeza total, sobretudo porque não se entende quem são estas pessoas e o que querem”, refere também o docente.

A ONU, em coordenação com o governo moçambicano, pediu, no início de junho, 35 milhões de dólares (30 milhões de euros), que serão aplicados até dezembro num Plano de Resposta Rápida para Cabo Delgado.

Apesar de se prever que a ajuda internacional chegue em breve, o pesadelo dos moçambicanos parece ainda não ter fim à vista. “Pela história deste tipo de grupos no Médio Oriente e noutras regiões de África, e pela dinâmica dos esforços de combate em Cabo Delgado, não prevejo a solução deste problema para breve. Levará ainda algum tempo”, sublinha Rufino Sitoe.

 

Foto de capa: António Silva/LUSA

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