Ensinar e aprender em tempos de quarentena

O surto de Covid-19 levou a que as instituições académicas tivessem de encerrar as portas temporariamente. Em março deste ano, as atividades presenciais foram suspensas. As salas de aula ficaram vazias, os exames foram adiados e o ensino à distância passou a vigorar, através de plataformas virtuais. As escolas do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) não foram exceção. Alunos e professores tiveram de se adaptar a esta nova realidade, uns com mais dificuldades do que outros, sendo que cursos mais práticos apresentam uma maior dependência das instalações académicas.

Atualmente, a Escola Superior de Dança (ESD), a Escola Superior de Educação (ESELx) e a Escola Superior de Música (ESML) utilizam a plataforma Zoom para lecionar os conteúdos que dizem respeito às unidades curriculares teóricas e práticas. No caso das cadeiras práticas, alguns alunos sentem que estão a ser prejudicados. Beatriz Lourenço, de 20 anos, aluna do segundo ano do curso de Dança da ESD, tem seis cadeiras práticas, mas afirma que não está a usufruir de nenhuma: “Estou a perder ferramentas importantes neste momento”. Todas as unidades curriculares que deveria ter este semestre estão interligadas com as que vai ter no próximo. “Vai cair um bloco importante daquilo que é um todo”, diz. Como aluna de dança, a sua maior ferramenta de trabalho é o corpo e, portanto, é essencial não ficar parada, para que não se perca “a memória física”. Por isso, Beatriz decidiu continuar a exercitar-se, no seu quarto, cinco dias por semana, através de exercícios de condição física e de pequenas coreografias improvisadas – sendo que as condições de um quarto não equivalem às condições que um estúdio pode proporcionar.

Beatriz Lourenço, aluna da ESD. Imagem cedida pela própria.

José Maria Taful, de 19 anos, aluno do segundo ano do curso de Música Clássica da ESML, na variante de execução (saxofone), está a ter apenas uma das quatro cadeiras práticas deste semestre. A sua maior preocupação prende-se com o facto de não poder estudar na faculdade – isto porque as instalações da ESML incluem salas e estúdios com uma acústica de grande qualidade, condições às quais não pode ter acesso em casa.

Pelo contrário, Bárbara Costa, aluna do segundo ano do curso de Educação Básica da ESELx, continua a ter as duas cadeiras práticas que constam do plano de estudos. A aluna acredita que, quanto às ferramentas de trabalho, não existe qualquer tipo de limitação. “Em relação à cadeira de artes plásticas, por exemplo, sempre nos disseram para usarmos aquilo que temos em casa, por isso não me sinto limitada”, afirma Bárbara.

Os três alunos moram em vivendas, por isso os vizinhos não são um problema. Ainda assim, é preciso ter atenção aos horários dos ensaios, de modo a não incomodar as famílias, que trabalham a partir de casa.

A falta de interação entre alunos e docentes devido ao novo método de ensino torna-se evidente para Bárbara: “Sinto necessidade de ouvir os professores a dar matéria presencialmente. Mandar textos e powerpoints não é o suficiente”. Não poder ter acesso a vídeos exemplificativos por parte dos docentes é uma das condicionantes que também preocupam José Maria. Gravar exercícios e enviar para o professor não permite obter um feedback imediato, logo “existe um menor aproveitamento das aulas”, afirma o aluno.

José Maria Taful, aluno da ESML. Imagem cedida pelo próprio.

Beatriz e Bárbara partilham a opinião de que, no início da quarentena, os professores “exageraram” na quantidade de tarefas solicitadas. Bárbara conta que a sua turma sentiu necessidade, face à sobrecarga, de conversar com os professores para que o ponto de vista dos alunos fosse tido em conta. Agora, a situação melhorou: “Dissemos que preferíamos que os professores nos dessem trabalho para fazer no início da semana, de maneira a podermos entregar no final, e assim tem sido”, explica. Já José Maria percebe a posição dos professores. O aluno não se sente sobrecarregado, visto que o trabalho autónomo sempre foi essencial para um melhor aproveitamento do seu curso. “Há cadeiras que estão a ficar para trás, mas, se as coisas forem feitas com o esforço de cada aluno, existe a hipótese de o resultado das aulas à distância se aproximar da eficácia das aulas presenciais”, sublinha. No entanto, diz, torna-se difícil manter a motivação. Para Bárbara, a existência da rotina que a escola exige desapareceu, o que afetou os seus horários e fez com que ficasse desmotivada. “Estamos por nossa conta”, desabafa.

Numa altura em que os alunos enfrentam uma mudança nos seus hábitos, a necessidade de obter respostas das direções e dos docentes das escolas que frequentam intensifica-se. O que é que será feito relativamente às cadeiras não lecionadas? Não sendo ideal não estar a usufruir das cadeiras práticas na sua totalidade, até que ponto faz sentido e será eficaz tê-las através da plataforma Zoom? Em que condições é que se farão aulas presenciais, caso elas voltem? Estas são algumas das perguntas para as quais Beatriz não tem resposta, uma vez que as escolas, as autoridades e o ministério também não as têm. “A falta de respostas é o que me tem deixado insatisfeita. Com respostas, mesmo que incertas, estaria um pouco mais confortável em relação a toda esta situação”, sublinha a aluna. José Maria percebe que haja dúvidas para as quais os docentes não têm resposta; já Bárbara acredita que houve um esforço “notório” por parte dos professores para que os alunos não fossem prejudicados a nível das avaliações finais.

Bárbara Costa, aluna da ESELx. Imagem cedida pela própria.

As propinas são outro tópico que preocupa os alunos. De acordo com o presidente do IPL, Elmano da Fonseca Margato, se for comprovado que não houve possibilidade de lecionar alguma(s) unidade(s) curricular(es), por “motivos justificáveis e atendíveis”, as escolas devem comunicar essa impossibilidade à presidência do Instituto. Espera-se que deste modo “a presidência possa proceder ao ajuste da propina e ao seu reembolso, a pedido dos estudantes”, acrescenta. Mesmo assim, levanta-se a questão: é justo continuar a pagá-las na totalidade? Os três alunos acham que não. Segundo eles, a partir do momento em que não estão a usufruir dos materiais escolares e do curso na sua totalidade, não faz sentido estar a pagar o valor na íntegra. Neste caso, os pais de Beatriz continuam a trabalhar e a ter um rendimento fixo, tornando-se possível continuar a pagar na totalidade. Mas e quem não tem essa possibilidade? O presidente do IPL afirma que “não há lugar a alargamento de prazos” no que diz respeito ao pagamento das propinas. Por isso, “os estudantes com dificuldades económicas devem contactar os SAS” (Serviços de Ação Social), acrescenta.

Segundo um inquérito da autoria do Observatório de Políticas da Educação, Formação e Ciência feito junto dos estudantes do ensino superior sobre o impacto da pandemia no método de ensino (tendo sido obtidas 860 respostas até dia 8 de abril), 59,4% destes estudantes sentem que estão a ser prejudicados com a suspensão das aulas presenciais. Beatriz, José Maria e Bárbara fazem parte deste grupo de alunos. Ainda assim, preferem não voltar às aulas presenciais de imediato. Beatriz coloca a sua segurança e a dos seus colegas em primeiro lugar. No seu curso, torna-se complicado manter a distância e, para além disso, os estúdios têm pouca circulação de ar limpo. Já José Maria faz parte de um grupo de risco e, sendo o comboio o seu meio de transporte para a faculdade, sente que a sua segurança pode ser ameaçada. Bárbara reforça que os transportes podem ser, de facto, um “polo de infeção”. Deste modo, o “problema não é só a faculdade em si. A maneira como se chega lá também é um fator a considerar”.

Para além dos alunos, também os professores se estão a adaptar às circunstâncias impostas pela quarentena. Rodrigo Pires de Lima leciona as cadeiras de Instrumento – Saxofone, Ensemble de Saxofones e Música de Câmara na ESML. O professor acredita que as aulas de grupo online não são viáveis; “não é, de todo, possível ter 22 alunos a tocar em simultâneo a partir de casa”. Assim, optar por reformular as aulas com conteúdos mais teóricos é uma hipótese para “colmatar a impossibilidade tecnológica”.

Em relação à plataforma Zoom, adotada por muitas faculdades, Rodrigo Pires de Lima considera que esta não é uma solução prática para o tipo de estratégia que adotou. Face à impossibilidade de fornecer um feedback “instantâneo e eficiente”, o professor pede aos alunos gravações do trabalho desenvolvido durante a semana. Após analisar os exercícios, o objetivo é debater com cada aluno os pontos a melhorar.

Para este professor, as aulas presenciais são fundamentais para o bom desenvolvimento dos estudantes, proporcionando uma experiência “única e eficiente”. Poder trabalhar em grupo e “ter acesso a ferramentas musicais adequadas” são alguns dos privilégios de ter aulas práticas. Ainda assim, considera que os seus alunos “têm mostrado uma boa capacidade de trabalho e um bom desenvolvimento” durante o período de quarentena.

 

Tentámos contactar mais docentes, da ESD e da ESELx, mas não obtivemos resposta.

 

Ilustração: Joana Melo/8ª Colina

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