O que reservam os “escsianos” para o pós-covid?

A pandemia da Covid-19 apanhou todos de surpresa. Comércios fechados, ruas vazias, aulas suspensas. Viver a vida através de videochamadas é a opção mais segura no momento. Para que haja menos contágio, é preciso pôr em pausa o futuro imaginado. Mas ainda há um amanhã, e fazer planos não é contra-indicado.

Conversámos com quatro alunos da Escola Superior de Comunicação Social, do IPL, e ouvimos quais são os planos destes jovens para o pós-quarentena. O extenso período que passaram em isolamento social, limitados às suas casas, criou estudantes uma maior apreciação até pelos mais simples dos passeios. 

A respeitar as regras do estado de calamidade, por videochamada, João Falamino, Clara Ferreira, João Pedro Mendes e Joana André dizem-nos o que vão fazer quando estas orientações já não estiverem em vigor. Estes “escsianos” anseiam o voltar à normalidade nas licenciaturas e mestrados que estão a concluir, notando que sentem falta da vertente prática da escola, nos seus laboratórios e estúdios.

“Espero que se dê mais valor às pessoas que nos são mais chegadas”.

Joana André, aluna de primeiro ano da Licenciatura em Relações Públicas e Gestão Empresarial

Natural da Ilha de S. Miguel, nos Açores, Joana André escolheu passar a quarentena em Lisboa com o irmão. A decisão foi ponderada: não vê a família há pelo menos quatro meses, mas assim não corria o risco de apanhar o vírus ao viajar. “Foi a coisa inteligente a fazer. Lá as condições não são as melhores, portanto estou mais segura aqui”, afirma.

O seu primeiro ano de faculdade ficou marcado por uma curva inesperada. Em pausa ficaram as celebrações da Tuna. Os 25 anos da escstunis, para o qual tinha vindo a treinar, tiveram de ser adiados. “Estava à espera de mais experiências no segundo semestre. Com o coronavírus isso não foi possível e isso deixa uma pessoa mais desanimada”, diz. No entanto, com mais dois anos na ESCS pela frente.

Estando fechada entre quatro paredes, a mente começa a pensar no futuro e os planos somam-se. “Não vou fazer tudo e mais alguma coisa”, diz, “não vou deixar de cumprir as regras, mas realmente já tenho bastantes planos”. 

Joana mantém-se otimista quanto ao futuro depois da quarentena e espera que as coisas mudem para melhor. “Podemos aprender muito a partir desta experiência. Espero que se dê mais valor às pessoas que nos são mais chegadas”.

“Já estamos todos fartos de estar em casa. Mas a conscientização não é algo que deva sair de nós.” 

João Falamino, aluno do segundo ano da Licenciatura em Audiovisual e Multimédia.

Com a quarentena, João Falamino poupa algumas horas antes passadas no percurso da margem sul até Benfica. Para além de se dedicar às aulas, João encontrou em atividades como cozinhar e a prática de exercício físico uma forma de lidar melhor com o isolamento social.

De concertos cancelados e viagens suspensas a um emprego que apenas aguarda o retorno da normalidade para começar, a lista de planos em pausa de João é extensa. A estes projetos acrescenta algumas outras programações que encontra com seus amigos na Internet. “Agora nós estamos sempre a ter ideias. Vemos um vídeo, por exemplo, no TikTok, e dizemos ‘ok, temos que fazer isso depois da quarentena’. Acho que nos está a marcar”, conta o estudante.

Sobre o que reserva o futuro depois desta pandemia, João tem expectativas de que as lições tenham sido aprendidas pela sociedade: “Acho que vão haver progressos em coisas mínimas, e, com eles, consequentemente um avanço de mentalidades e precaução em coisas que exigem um maior grau de cuidado”.

“O panorama atual vem modificar e dificultar a entrada no mercado de trabalho”

Clara Ferreira, aluna de terceiro ano da Licenciatura em Publicidade e Marketing

Com o país a paralisar devido à Covid-19, Clara regressou às Caldas da Rainha, onde está a passar a quarentena juntamente com os pais. Admite que, sendo alguém que gosta de rotinas e de conviver com outras pessoas, foi inicialmente complicado. A situação apanhou todos desprevenidos, “não foi algo para o qual estávamos preparados”, diz. Contudo, há que seguir em frente. A chave: não perder o foco, criar rotinas e aceitar que há dias bons e dias “não tão bons”.

A quarentena não trocou só as rotinas, também veio trocar os planos. Prestes a acabar o seu último ano de faculdade, Clara já tinha um rumo delineado. Já se tinha candidatado a estágios e a trabalhos, mas, devido à pandemia, algumas empresas decidiram deixar o processo de recrutamento em stand by. Segundo Clara, trata-se de uma “situação inconsistente. Eu sinto que as próprias empresas têm essa noção e estão um pouco perdidas”. Clara não planeava fazer um mestrado, mas esta é uma decisão que tem vindo a repensar. 

Enquanto jovem a entrar no mercado de trabalho sabe que não vai ser fácil. Mas isso leva-a pensar que tem de acrescentar valor. Assim, durante a quarentena aproveitou para pesquisar cursos online, fazer Workshops e Webinars. Quanto ao futuro, tenta manter uma perspetiva otimista: “sinto que vai haver um período mau, com meses difíceis, mas acredito que vai passar”.

“Como uma há uma incerteza, a motivação ficou em suspenso”.

João Pedro Mendes, aluno de Mestrado em Jornalismo

A suspensão das aulas levou João Pedro Mendes de volta para o concelho de Santa Maria da Feira, no distrito do Porto. Para o estudante, as duas primeiras semanas de isolamento social foram as mais stressantes: “As pessoas estavam com vontade de sair e isso causou-me ansiedade. Depois passei por uma fase mais calma em que me habituei. Aprendi a lidar com o facto de ter que estar em casa.” 

O concerto da banda de rock Limp Bizkit, um retorno que por muito aguardava, terá que ficar para outra hora. Também está suspensa a ideia de fazer uma viagem para a qual foi convidado por amigos da ESCS. João não sente maior vontade agora de estar a fazer novos planos: “Se me dissessem ‘A partir do dia X, podes sair e fazer os teus planos’. Mas, como há uma incerteza, a motivação ficou em suspenso – pelo menos para mim.”

Mas, para João Pedro Mendes, este regresso à “normalidade” não significa um retorno total aos antigos hábitos da sociedade. 

Acredita que a causa ambiental possa vir a ser posta de parte para uma recuperação económica: “As empresas e a economia no geral vão ficar muito desgastadas depois de sairmos desta pandemia e do isolamento, e a principal motivação vai ser criar trabalhos e investir dinheiro em produção. Mais uma vez o planeta vai ter que se arranjar.”

Muito perto de ingressar no mercado de trabalho, João percebe a dimensão dos obstáculos que o esperam. Preocupa-se com a possibilidade de que uma crise pós-Covid signifique menos estágios: “Impedirem a entrada de novas pessoas é uma mensagem muito forte para dizer a estes estudantes o que os espera.” Esta redução por parte dos órgãos de comunicação, ao seu ver, pode motivar mais jornalismo independente.

A quarentena já acabou. Contudo, com o estado de calamidade em vigor continuam a impor-se várias restrições. O teletrabalho e as aulas online continuam a ser a norma e a perspetiva de futuro, mas gradualmente algumas atividades começam a retomar alguma normalidade. Por agora, os planos para o futuro ficam sujeitos a constrangimentos.

Foto de capa: João Pedro Morais / 8ª COLINA

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