Espingarda: “Tinha noção de que não nos pertencia."

   O avião da TAP levava os soldados para a Guiné em quatro horas. Manuel Leandro foi enviado em rendição pessoal aos 22 anos, em 1973. Já tinha dois anos de tropa feitos entre Amadora, Carregueira e Beja, mas nada o preparara para o que iria viver por lá.

A companhia onde foi inserido estava a encimar o tempo de serviço: restavam-lhes onze meses. “O aquartelamento era uma espécie de uma vala subterrânea. Cortavam-se palmeiras e cibos e punham-se em cima da vala, a fazer uma espécie de um telhado. Punha-se chapas dos bidons de gasóleo em cima das palmeiras e terra, um metro ou dois. Eram as circunstâncias em que vivíamos.”

Conta que, enquanto militar português, “não atacava por atacar”. A destruição das tabancas, das casas dos nativos, e das aldeias, procurava o desmantelamento das organizações e dos grupos dos Turras. Era um processo complicado: “Hoje estavam aqui, amanhã já estavam noutro lado. Andavam queimando e dizimando tudo.” Ao aquartelamento juntavam-se nativos que os ajudavam em troca de alimentação e proteção. “Os nativos chegavam a alistar-se, por vezes, combatiam e ensinavam a lidar com situações como a bicharada no mato e a vegetação.”

Fotografia de Manuel Leandro, no campo, na Guiné, em 1973

     

Eram forçados a ir para a Guiné combater. Manuel conta que muitos foram os que fugiram e desertaram. Só no seu quartel seriam três ou quatro homens. “Desapareciam e não podiam voltar. Nem podiam vir a Portugal. Depois passavam a apoiar os turras. Eram protegidos, tornavam-se comandantes da guerra na frente contrária.” Os que eram apanhados iam para a cadeia. O maior medo residia na PIDE: “A maior parte deles não sabia se não os matavam. Na PIDE havia de tudo.”

 

 “A sorte era de ocasião. Passou-se lá muita coisa. Havia ali uma pausa para rirmos, cantarmos, jogarmos à bola, bailarmos. Só que lá só tínhamos aquele problema: estávamos a comer e começavam a cair-nos granadas em cima.” Em certos dias tinham a informação que a determinada hora, teriam de estar prontos a sair para fazer “reconhecimento de terreno”. Manuel mesmo não sabendo onde ia, ou ao que ia, mas ia contente: “Pensava «olha, vamos dar um passeio». Chegávamos lá e eram tiros por todos os lados.

 

Quase todos os dias eram bombardeados. “Aquilo era uma coisa que era tremenda, era uma guerra, mas era uma guerra à séria. Cá para fora passava-se que estava tudo bem.” A RTP fazia reportagens pelos cenários de guerra e pelos diferentes territórios. Um conjunto de soldados, de várias partes do país a falar para os seus familiares, vestidos com o seu fato camuflado, com espingarda. Como uma espécie de fábrica, a mensagem repetida ficava martelada em quem estava em casa à espera.

Manuel Leandro nunca apareceu nos vídeos, mas enviava frequentemente anagramas à sua família. Costumava dizer que “tinham ido a um bailo” à mulher, que, ao receber a mensagem, achava que ele andava lá “bailando”. Mas não era isso que significava: “O Bailo era andar com a espingarda a atirar tiros aos outros. E levá-los. Se pudesse nunca tinha ido, porque aquilo não nos pertencia. Não fazia sentido nenhum andar a matar os próprios de lá. Só que a ditadura era assim.”

         O último militar da sua companhia a morrer falece no dia 24 de abril de setenta e quatro. No dia seguinte, a sua companhia voltaria para Portugal com o 25 de abril. Manuel saiu do campo, mudando-se para a cidade de Bissau. Numa MAN, um carro construído para rebentar minas, percorriam terra durante três horas: “A viagem era feita pelo meio do mato. As árvores grandes – palmeiras e alfarrobeiras – e o capim preenchiam as estradas velhas.”

As Fotografias eram, por norma, enviados em conjunto com os telegramas ou aerogramas.

O seu trabalho na cidade de Bissau era num clube de Sargentos. Tornou-se um impedido, “alguém que estava lá a cumprir o tempo de serviço, mas sem ser militar.”  No clube sentia-se quase em casa: “Era uma espécie de restaurante e bar no quartel dos sargentos, onde se servia a comida. Desempenhava a função de chefe.” Os nativos estavam responsáveis pela limpeza e cozinha. Tinha por hábito deixar que os trabalhadores, depois de preparar a refeição, fizessem marmitas: “Dizia-lhes para preparem sandes para eles também. O queijo e o sumo sobravam sempre. Levavam três ou quatro sandes, que eles, coitados, se pudessem levar uma para os filhos também levavam. Aquilo era miséria.” Tinha gosto em os amparar: “Eles não nos faziam mal, até nos ajudavam.”

​Apesar de lhe terem distribuído uma espingarda, decidiu guardá-la no armazém do estabelecimento, deixando os tempos das guerrilhas para trás. No tempo livre, “corria a cidade de Bissau”. Andava quase sempre com escoltado por moços que trabalhavam com ele. “À noite quando saía, eles iam comigo para Bissau. No outro dia de manhã estavam lá, vinham trazer-me ao quartel. Como uma espécie de guardas costas, porque queriam.”

O seu trabalho na cidade de Bissau era num clube de Sargentos. Tornou-se um impedido, “alguém que estava lá a cumprir o tempo de serviço, mas sem ser militar.”  No clube sentia-se quase em casa: “Era uma espécie de restaurante e bar no quartel dos sargentos, onde se servia a comida. Desempenhava a função de chefe.” Os nativos estavam responsáveis pela limpeza e cozinha. Tinha por hábito deixar que os trabalhadores, depois de preparar a refeição, fizessem marmitas: “Dizia-lhes para preparem sandes para eles também. O queijo e o sumo sobravam sempre. Levavam três ou quatro sandes, que eles, coitados, se pudessem levar uma para os filhos também levavam. Aquilo era miséria.” Tinha gosto em os amparar: “Eles não nos faziam mal, até nos ajudavam.”

​Apesar de lhe terem distribuído uma espingarda, decidiu guardá-la no armazém do estabelecimento, deixando os tempos das guerrilhas para trás. No tempo livre, “corria a cidade de Bissau”. Andava quase sempre com escoltado por moços que trabalhavam com ele. “À noite quando saía, eles iam comigo para Bissau. No outro dia de manhã estavam lá, vinham trazer-me ao quartel. Como uma espécie de guardas costas, porque queriam.”

Nos seus últimos tempos por lá, ainda acareou um moço da sua terra que por lá andava perdido. “Já era considerado desertor. Não conhecia lá nada e perdeu a documentação. Não queria aparecer no quartel porque sabia que seria preso.” Ao falar com o sargento, foi-lhe dito que se o quisesse acolher estaria responsável pelos problemas que pudesse arranjar. “Eu conhecia o moço já há tantos anos e nunca tinha feito mal a ninguém. Mais tarde lá procuraram a documentação e ele ficou a trabalhar como impedido também.”

 

       A independência da Guiné foi um processo que foi “andando e andando”. Em setembro, veio passar um mês de férias à terra. A essa altura, já estavam a fazer o desalojamento dos militares das colónias. Em outubro, quando voltou, pouco tempo lá esteve: “Ao fim de quarenta horas, estava em Lisboa outra vez.” Quando lá chegou foi informado que, enquanto um dos mais velhos entre os militares – com 24 anos –, seria a sua vez de voltar definitivamente para casa.

      Queria voltar de barco. Quando o pedido foi feito ao sargento foi-lhe dito que “se não morreu na guerra, não o iria deixar morrer no barco.” Queimou os aerogramas que lhe haviam enviado ao longo dos anos e entregou os seus pertences: “Quando devolvia espingarda e a farda, o sargento tinha lá duas garrafas de Whiskey para eu trazer.” Os bens que sobravam no clube foram pilhados por migrantes e nativos. As estradas eram barradas: “Não deixavam passar os portugueses. Não queriam que se viessem embora, queriam fazer mal.” Na confusão estavam os moços que haviam trabalhado com Manuel Leandro: “Quando me viram disseram «Está aqui o patrão Leandro, deixem passar». Tratava-os bem. Foi a maneira do autocarro passar, a sorte de não dar para o torto.”

 

 

Fotografia de Manuel Leandro na Guiné.

Artigo escrito por Mariana Serrano.

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