“Estamos muito perto de vencer uma competição”

Luís Sénica começou a gostar de hóquei graças aos relatos que ouvia. Aos 18 anos de idade teve a sua primeira experiência como treinador, nas camadas mais jovens do Sesimbra, quando ainda era jogador, e nesse mesmo ano venceu o campeonato distrital nos dois escalões. Nessa altura estava ainda longe de imaginar que esse seria o primeiro de muitos êxitos que viria a ter na sua carreira como treinador. Ao comando da equipa do Sport Lisboa e Benfica ganhou tudo o que havia para ganhar a nível de clubes e foi com o título de campeão europeu que terminou esta passagem de quatro anos pelo clube da Luz. Agora, ao serviço da seleção nacional, tem o desejo e a ambição de ganhar um grande título, que nos últimos anos tem fugido a Portugal.

 

 

Como nasceu a paixão pelo hóquei em patins?

Fundamentalmente pelos relatos. O que conhecíamos do hóquei era aquilo que ouvíamos na rádio, nos saudosos relatos. Lembro-me de dar comigo a ouvir um Portugal-Espanha com o relato de Artur Agostinho. E, portanto, o meu imaginário começou à volta disso. Lembro-me perfeitamente da paixão que aqueles relatos me foram despertando. Considero-me um filho do relato em relação ao hóquei em patins. Quando surgiu a possibilidade de patinar em Sesimbra, fruto da construção de um pavilhão, eu não hesitei, mas na altura estava longe de perceber que ia ter uma carreira no hóquei.

 

Quando iniciou a ligação ao hóquei em patins?

Comecei a jogar com 9 anos. Neste momento vou fazer 50 anos e tenho uma carreira de vida ligada ininterruptamente ao hóquei em patins. Eu diria que não há um afastamento meu em relação ao hóquei nem de 10 segundos. O meu projeto de vida tem sido paralelo ao hóquei; inclusivamente a minha formação profissional foi muito puxada pela modalidade.

Agora na qualidade de treinador, que vantagens lhe deu o facto de ter sido jogador?

Quem conhece o contexto tem obrigatoriamente vantagens em relação a quem nunca o viveu, mas por si só o facto de ter sido jogador não me dá nenhuma garantia de que eu seja um bom treinador. São necessárias outras ferramentas. Mas a base, a essência, está no facto de ter sido jogador.

 

Que diferenças há entre o Sénica jogador e o Sénica treinador?

O Sénica jogador era mais rebelde e menos dogmático nas normas. Nós, sesimbrenses, temos essa característica muito inerente à nossa terra, quanto mais não seja por ver os pescadores a ir para o mar e voltar. Mas esse cunho é bom quando é trabalhado. Em relação à rebeldia eu diria que não há uma alteração, mas apenas uma adaptação. Continuo a querer muito vencer e a não desistir dos meus objetivos e dos meus sonhos.

 

Em relação à sua carreira como treinador, qual foi a base do sucesso no Benfica?

O grupo de trabalho, fundamentalmente. Eu entrei no Benfica num período difícil. Na altura o Benfica não ganhava títulos há muito tempo e até tinha tido grandes equipas e algumas referências mediáticas. Cheguei ao Benfica num contexto de topo, saído da seleção, e gerou-se alguma expectativa. Mas o primeiro embate de trabalho foi muito difícil. Muito cedo fiz passar a mensagem às pessoas que gerem o Benfica de que era preciso modificar algumas coisas em termos de práticas, no próprio plantel, no sentido de ir ao encontro daquilo que eram as minhas ideias de jogo, que não tinham eco naquele momento e naquele grupo. Aos poucos fui criando uma equipa à medida dos meus valores desportivos, de conduta e de luta pelos objetivos. No primeiro ano ganhei apenas a taça de Portugal e assumi publicamente que essa vitória significava a ponte para as vitórias futuras. Era disso que necessitávamos para ser campeões no futuro. E foi isso que aconteceu, sempre em contextos muito difíceis. Talvez tenha sido dos poucos, juntamente com os jogadores, a acreditar que podíamos vencer todas as provas num curto espaço de tempo. Ganhamos a taça CERS, em casa do Vila Nova, onde ninguém esperava uma vitória do Benfica – inclusivamente os papelinhos de festa lançados no fim eram todos verdes, a cor da equipa da casa. E o mesmo se passou na final europeia em casa do Porto. Mas tudo se deve aos jogadores e, claro, ao Benfica.

 

Essa vitória na final da Liga Europeia em casa do eterno rival Futebol Clube do Porto foi a mais saborosa?

Até ao dia de hoje ainda não tenho bem a noção do impacto que essa vitória possa ter tido, até por força da rivalidade. Aquilo que nos interessava era ganhar. Fosse no Porto ou em Sesimbra, nós queríamos era ganhar. Mas reconheço que por força das circunstâncias desportivas, por força do que envolve esta rivalidade, e também por termos vencido o Barcelona nas meias-finais, esta conquista foi qualquer coisa de extraordinário e difícil de repetir.

Porque decidiu sair do Benfica? Foi porque sentiu que já não havia nenhum patamar para atingir?

Quem me conhece sabe que sou sempre muito ambicioso, e para ser ambicioso é preciso ser consciente. As coisas são simples em relação à minha saída: antes do final da época eu achava que estavam criadas as condições para, acontecesse o que acontecesse, eu sair do Benfica. A Liga Europeia é a cereja no topo do bolo, e o que é importante dizer é que mantive essa ideia depois desse jogo. O Luís Sénica de segunda-feira, após essa conquista, era o mesmo Luís Sénica que na sexta-feira anterior tinha viajado para o Porto para jogar essa final. A minha intenção não foi, como muitas pessoas dizem, sair por cima. Quem me conhece sabe que, se ficasse, iria trabalhar para conquistar tudo o que tivesse para ganhar no ano seguinte.

Não saiu por isso magoado com o Benfica ou com alguns responsáveis do Benfica?

Com o Benfica, não. Em relação a algumas individualidades, atribuir-lhes esse cunho de responsabilidade seria dar-lhes demasiada importância.

 

Numa entrevista recente, o presidente da Federação Portuguesa de Hóquei, Fernando Claro, revelou ter sentido a sua falta na Federação. Acha que o Benfica vai sentir – ou já está a sentir – a sua falta?

Não, acredito que não. São contextos diferentes. O que o presidente expressou foi um sentimento que vai muito para além do contexto profissional. Na Federação tenho um papel muito mais amplo do que o de treinador. Eu acho que o Benfica está a fazer o seu trabalho e continuará a ser sempre capaz de vencer. A equipa deste ano tem obviamente um novo cunho e novas ideias. Não acredito que a minha falta se faça sentir.

Quando chegou à seleção, que equipa encontrou em termos de motivação?

Encontrei o sentimento – partilhado por todos – de que estamos muito perto de vencer uma competição. Senti isso neste último mundial, ao perceber que os espanhóis não queriam jogar connosco na final. E penso que até trabalharam bem nesse capítulo, porque não chegámos de facto a jogar com eles na final.

 

Há uma necessidade de renovação na seleção portuguesa?

Fala-se muito disso. O que eu sei é que, se calhar fruto do estado de graça que trazíamos, foi muito pacífico fazer uma mutação na equipa e introduzir seis jogadores novos, que nunca tinham estado num mundial. Há neste momento um equilíbrio geracional que foi conseguido de forma pacífica. E o futuro é brilhante: temos cada vez mais jovens a jogar, e muitas vezes como titulares, nas principais equipas do nosso campeonato. Acredito que tal se deva à conjuntura económica, que leva os clubes a olharem para a formação, mas espero que seja para continuar.

Portugal falhou a final do último mundial ao perder com a Argentina nos últimos segundos. Há fatores externos que influenciam as prestações de Portugal?

Nós, que estamos dentro do jogo – atletas, treinadores e árbitros –, acabamos sempre por sofrer influências. Isso é óbvio e está estudado. O que importa é que essas influências não sejam pré-concebidas, que sejam apenas resultado do contexto. Acredito, principalmente a nível mundial, que se tem tentado prejudicar Portugal, face a um contexto histórico em que Portugal dominava, e as pessoas hoje querem-nos fazer pagar por esse domínio. Sente-se isso. Há uma certa má vontade relativamente à seleção por parte das pessoas que estão connosco nestas competições. Compete-nos a nós ir modificando isso. Não podemos ficar muito preocupados: é trabalhar, sair na frente com dois ou três golos, e não permitir que os erros de arbitragem nos prejudiquem. Mas quando se joga com a Espanha ou a Argentina os jogos são muito equilibrados, e esses tais erros de contexto pesam na eliminatória.

 

O facto de ter conquistado tudo o que havia para ganhar a nível de clubes dá-lhe uma maior estabilidade na seleção nacional?

Não, pelo contrário. Aquilo que ganhei resume-se neste momento a umas linhas no meu currículo. Não me acomodo. Dá-me alguma estabilidade emocional, crédito e reconhecimento social, mas não me dá vitórias.

 

Podemos esperar títulos nos próximos dois anos que tem de contrato com a seleção?

É nossa convicção que os títulos estão para breve. Eu quero títulos e acredito que podemos ganhar. Vamos ter dificuldades. Por exemplo, o campeonato da Europa vai ser em Espanha, e eu reconheço a dificuldade de contexto, mas em vez de ficar muito preocupado penso: que melhor sítio para ir ganhar que a Espanha? Prefiro passar essa mensagem aos jogadores. Gostaria que ganhássemos comigo no comando, mas, se eu não conseguir, então que consiga criar condições para que a obtenção de títulos seja mais imediata. É importante pensar na continuidade do trabalho das seleções.

Falando do campeonato: são projetos como o do Valongo que fazem animar o hóquei em patins em Portugal?

São sempre importantes quando se trata de equipas que conseguem manter um nível competitivo muito alto e que se conseguem intrometer na luta pelo título. O Valongo é um grande clube de Portugal, que tem um guarda-redes da seleção nacional e tem três ou quatro jovens que passaram pelas camadas jovens de Portugal, tendo alguns sido campeões europeus. Não estamos a falar de uma equipa sem estrutura, sem competência ou sem valores.

 

 Acha que há cada vez mais clubes que podem aparecer assim, como o Valongo?

Há, por uma razão económica. Há muitos clubes da primeira divisão recheados de jovens de valor. Acredito que, face ao número de jovens que temos, o campeonato possa manter-se competitivo. Mas é claro que há aqueles clubes que vão estar sempre mais próximo de vencer. É assim em todas as modalidades e em todos os países.

O Benfica ameaçou desistir da modalidade após o jogo com o Valongo. Que comentário merece esta possibilidade de desistência do Benfica?

Reconheço toda a legitimidade aos clubes de defenderem os seus interesses. O Benfica decidiu fazer essas declarações na praça pública – quem sou eu para dizer que não o devia ter feito? Pelo cargo que exerço, não devo dar grande importância a esse caso, até porque não interfere diretamente nas minhas funções.

Mas como seria um campeonato de hóquei em patins sem o Benfica?

Esse é um cenário apenas produto da imaginação. O que eu sei é que, independentemente de competirem A, B ou C, o campeonato faz-se. Mas é óbvio que a ausência do Benfica tornaria o campeonato menos mediático, menos interessante para a comunicação social. Pessoalmente não acredito que isso venha a acontecer, até porque o Benfica tem a modalidade desde sempre e é o clube com mais anos de prática ininterrupta a nível mundial, por isso não creio que essa situação fosse fácil de aceitar por parte dos sócios do Benfica. Há um carinho muito grande dos sócios do Benfica pelo hóquei em patins, até por esse dado histórico.

 

Uma das marcas que deixou no Benfica foi o contacto próximo que mantinha com os jogadores. Como tenta fazer face a um maior afastamento com os atletas da seleção?

É um contacto menos intenso do que no clube, mas vamos falando por telemóvel, por facebook…

Já sente falta de treinar todos os dias, como fazia nos clubes?

Sim, sinto claramente falta. São muitos jogos, treinos bi-diários, muita intensidade, e isso marca. Vivemos numa rotação máxima e de repente temos uma quebra. O que compensa é a possibilidade de se estar com o pensamento no jogo, na formação de treinadores e na observação de talentos. Mas ainda tenho a capacidade de aguentar essa intensidade que se vive num clube.

 Acha que é a grande referência do hóquei em patins nacional?

De maneira nenhuma. Tenho o meu espaço, como é óbvio, mas acho que há muita gente competente no hóquei em patins nacional.

Texto: Rui Santos e André Conde

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