Feira do Livro de Lisboa´21: Uma esperança para o setor livreiro

Termina mais uma edição da festa que celebra a leitura e o livro. Durante as últimas duas semanas, o Parque ganhou mais vida. O ambiente frenético que se vive no dia de fecho é bem visível pelas filas demoradas que se formam nas várias entradas para a feira. Os compassos de espera não impedem os visitantes de passear pelo recinto e de fazer as compras finais. 

Há rituais que se mantêm. A casa continua a estar cheia aos fins de semana. O evento encanta miúdos e graúdos. “Há muitas famílias que por aqui passeiam e muitos jovens, o que nos faz sempre ter esperança nas novas gerações. Não vêm apenas passear e, portanto, vêem na leitura um instrumento importante”, conta Pedro Sobral, vice-presidente da Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e diretor do Grupo Leya, em declarações exclusivas ao 8.ª Colina. Os amigos de quatro patas também são bem-vindos: existem bebedouros especiais na entrada do recinto. 

Pedro Sobral, Vice-Presidente da APEL | João Cília // 8.ª Colina.

Nesta 91.ª edição, a adesão dos leitores superou as expectativas. No final da primeira semana, 100 mil pessoas tinham visitado o evento. Os dados finais apontam para um total de 350 mil visitantes, com um limite de lotação máxima de 5.500 pessoas no recinto. Este número só pode ser comparado com o da edição anterior, uma vez que “só no ano passado se começou a contabilizar o número de entradas e de saídas por causa da questão das lotações máximas”, explica Pedro Sobral. 

A novidade foi a afluência conseguida durante os dias de semana. “Até às 17:30h-18h da tarde, normalmente a frequência era baixa. Razões óbvias, as pessoas estão a trabalhar. Mas, este ano, notamos que a partir do meiodia já tínhamos uma frequência maior”, afirma Pedro Sobral. Logo no dia de inauguração, a APEL reparou em indícios de como as expectativas para o ano de 2021 seriam concretizadas. “Normalmente, vem a entourage do Presidente da República e a da presidência da Câmara, os média e pouco mais. Mas tivemos muita gente. Editores e restauração ficaram surpreendidos com o que já estavam a faturar no primeiro dia”, adianta Pedro Sobral. 

José Menezes, diretor de comunicação da editora Leya, confessa que “o que surpreendeu mais foi a afluência nos dias de semanas”. O momento da “Hora H”, no qual há descontos significativos em artigos selecionados durante a noite, é o que mais atrai os visitantes à feira, resultando em volumes de vendas positivos.

Para o vice-presidente da APEL, há uma questão simples que contribui para estes resultados: “Quem compra livros e quem está habituado a comprar livros é uma classe média e alta que poupou dinheiro com os confinamentos. Há alguma liquidez. Ora, como as pessoas não saíram muito nem viajaram muito, houve um efeito de substituição. Acabámos por ter alguma dessa poupança invertida para livros.” O contexto pandémico não fez com que o setor livreiro, um dos mais atingidos pela crise, baixasse os braços. Apesar das condições muito específicas, Pedro Sobral não aponta nada de diferente na organização desta segunda edição em pandemia, sem ser o adiamento para o mês de setembro. “As regras que são necessárias cumprir na feira são as a que estamos habituados a cumprir na rua”, afirma. Acrescenta ainda que “a partir do momento em que se ultrapassaram os 70% de taxa de vacinação, claramente as pessoas ganharam outra confiança e tranquilidade” para irem a eventos com um grande número de visitantes. Marisa Comprido, marketing manager na Editorial Presença, faz um balanço semelhante. “As pessoas já estão mais tranquilas do que no ano passado”, admite.

Pedro Rebelo Gonçalves, responsável de comunicação da Porto Editora, deixa mesmo “uma palavra de elogio público à APEL pelo excelente trabalho na organização desta Feira do Livro, juntamente com a Câmara Municipal de Lisboa”. 

A preenchida agenda garante que os 18 dias de feira proporcionam várias experiências que aproximam o público da literatura. Foi o caso das apresentações de livros e sessões de autógrafos que deram oportunidade aos leitores de terem contacto com os seus escritores preferidos. Na lista de nomes surgem autores premiados como Afonso Cruz, Afonso Reis Cabral, João Tordo, José Eduardo Agualusa, José Luís Peixoto e Ondjaki.

João Tordo na sessão de autógrafos da Feira do Livro de Lisboa '21 | João Cília // 8.ª Colina.

Pedro Rebelo Gonçalves assume que a meta primordial da editora foi cumprida: “O nosso principal objetivo é aproveitar a feira como uma oportunidade única para ter contacto com os leitores e de proporcionarmos contacto direito dos nossos leitores com os escritores.” 

Nesta edição, foi novamente possível doar livros. Na entrada sul, esteve disponível um espaço onde todos podiam depositar os livros que já não faziam falta em casa. O setor livreiro demonstra assim uma preocupação com a sustentabilidade e com o direito à leitura. Esta é uma iniciativa do Banco de Bens Doados em conjunto com a APEL. “É fundamental que aqueles que estão fora da leitura por condições financeiras não o estejam”, reforça Pedro Sobral. Os livros doados vão ser entregues a crianças apoiadas pela instituição Entreajuda

É na Feira do Livro que o setor livreiro encontra uma das poucas oportunidades para ser celebrado. Pedro Sobral considera as iniciativas que promovem a literatura em Portugal insuficientes, argumentando que “não existem políticas públicas de promoção à leitura, nem políticas de integração entre as ações do Ministério da Cultura e do Ministério da Educação para que o ensino da língua portuguesa, através da leitura e da literatura, seja algo motivador para as novas gerações”. Para o vice-presidente da APEL, “a forma como se aborda a literatura nas escolas está desfasada dos tempos modernos” e enfatiza a importância de se perceber que “a aprendizagem da leitura não é apenas dissecar um texto no seus tempos verbais”. 

“O país precisa urgentemente de uma nova geração de leitores”. É esta a mensagem que Pedro Rebelo Gonçalves deixa, acrescentando que admira o facto de ver cada vez mais famílias na Feira do Livro, trazendo, desde cedo, para o seio familiar, o hábito de ler e de gostar de ler. 

Encontra-se pela feira quem tire um livro de uma estante para ver a capa, outros folheiam as páginas com curiosidade por saber mais e há ainda aqueles que compram e levam novas leituras para casa. E já não só os mais adultos que seguram livros debaixo do braço. Marisa Comprido, da editora Presença, deposita esperança nos mais novos, que têm marcado lugar assíduo no evento: “Os jovens estão a vir mais e a comprar mais.” O balanço realizado pela APEL revela mesmo que as faixas etárias mais jovens, principalmente entre os 14 e os 17 anos, se fizeram notar na feira.

Pedro Sobral sublinha a importância da feira para o setor livreiro. “Era fundamental que isto acontecesse. Este é um setor que está a passar por um período muito complicado. Aliás, é um setor muito fragilizado porque não existe um mercado de leitores regulares. Vive muito da oferta e da compra de impulso. As pessoas não compram para ler, compram para oferecer. O que é, obviamente, muito complicado porque não é estável para os editores.” Termina com um agradecimento àqueles que visitaram o Parque entre os dias 26 de agosto e 12 de setembro:“É uma prova de civismo muito grande por parte dos lisboetas. Creio que as pessoas também perceberam o quão importante é a leitura, o quão importante é o livro e acederam a este apelo dos editores.”

Reportagem de Constança Vilela e Margarida Alves, com edição de Joana Simões

Com colaboração de Inês Alegria e Ana Cristina Barros

Fotografias por Andreia Custódio e João Cília, com edição de Leonardo Lopes

Revisto por Andreia Custódio

Scroll to Top
0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap