Futebol (?) Americano

São 10h30 nos jardins do Parque das Nações. O tempo está agradável e as pessoas aproveitam para fazer desporto. Entre grupos que fazem a sua corrida matinal ou que jogam à bola, está um pequeno grupo de sete pessoas que praticam passes com uma bola de futebol americano. Vão chegando mais pessoas, o grupo aumenta. Chega Pedro Esteves e o treino a sério começa. Pedro é o treinador da equipa embora não goste de ser tratado assim. ”Sou apenas mais um para ajudar neste projeto”, afirma. Os Parque das Nações Sharks são um clube ainda em afirmação que pretende chegar à liga no próximo ano.

Desempregado, Pedro Esteves diz que quando começou a ver futebol americano não gostava da modalidade. “Visitei os Estados Unidos e fui a um estádio de futebol americano. Detestava a modalidade, não percebia as regras e achava-a um desporto morto. Quando voltei, soube que havia um clube em Alverca, na zona onde moro (os Alverca Crusaders), e achei interessante o facto de essa modalidade existir em Portugal. Decidi juntar-me à equipa e a partir dai comecei a perceber cada vez mais as regras, a entender o jogo. Mudei a minha opinião sobre a modalidade e a minha paixão pelo futebol americano foi crescendo. Para mim é a modalidade mais completa que existe.”

O futebol americano em Portugal tem cada vez mais adeptos e praticantes. Segundo dados da Associação Promotora do Desporto de Futebol Americano, o número de praticantes já chega aos 500. O campeonato existe há 4 anos e conta neste momento com 10 equipas.

No Parque das Nações é agora hora de treinar os movimentos de ataque e de defesa, de tentar apanhar a bola na perfeição. Por cada vez que não se consegue apanhar a bola, os jogadores têm que fazer 10 flexões. Um “castigo” aceite por todos. É sempre assim; os treinos são sempre feitos com grande entusiasmo e a boa disposição impera durante essas duas horas e meia. “Isto só demonstra o espírito de equipa que o grupo tem. Somos um grupo pequeno e que ainda se está a conhecer, mas onde o respeito e a diversão conseguem viver em conjunto”, diz André Cabral, estudante universitário, que chegou ao futebol americano por intermédio de um colega que o convidou. “É diferente do futebol, pois no futebol se falhares não tens ninguém para te ajudar; no futebol americano está sempre lá alguém para te ajudar e não há vedetas. É um desporto mais de equipa do que o futebol.”

Num plano mais profissional está António Pedro Santos, que vai para a sua terceira época como jogador nos Alverca Crusaders e não tem dúvidas: “é para continuar até não conseguir”, afirma. O balanço destas três temporadas é positivo. ”Estou muito agradado com o meu desenvolvimento. Têm sido três épocas espetaculares nas quais cresci como jogador. Melhora a cada ano que passa.”

Uma modalidade em crescimento

Por aquilo que se pode ver nos treinos dos Parque das Nações Sharks, nos comentários nas redes sociais e a julgar pelo crescente número de praticantes, o futebol americano é da facto uma modalidade em expansão em Portugal. ”Continuo a ficar impressionado com o crescimento da modalidade em Portugal. Sendo uma modalidade recente, que só há cerca de quatro ou cinco anos teve o seu primeiro campeonato, com quatro equipas. Atualmente temos dez equipas. Um número impressionante, tendo em conta que nenhuma equipa tem qualquer tipo de apoio, pois é difícil arranjar apoios para outra modalidade que não o futebol. Felizmente há pessoas que gostam do futebol americano e que investem tempo e dinheiro, e sendo assim eu acredito que a modalidade vai continuar a crescer”, afirma Pedro Esteves.

 António Pedro Santos também partilha da mesma opinião. ”O futebol americano tem capacidade para continuar a crescer e a prova disso é que cada vez há mais equipas a participar na liga e cada vez aparecem mais grupos de praticantes que mais tarde se tornam numa equipa.”

Ainda assim, há ainda um longo caminho a percorrer, como afirma André Amorim, gestor da FA Portugal (Futebol Americano Portugal). “Ainda falta investir imenso em publicidade, arranjar patrocinadores, os atletas terem uma melhor preparação e começarem a aparecer os primeiros treinadores certificados.” Quanto à profissionalização dos jogadores, as condições para tal ainda não existem: ”Atualmente não existem condições para a profissionalização dos atletas. Somos amadores e até nos tornarmos Federação ainda somos Associação. Será muito complicado isso acontecer.”

Mas o otimismo impera quando se fala no futuro da modalidade e prova disso foi o último campeonato disputado, cujos vencedores foram os Lisboa Navigators. “Esta última temporada foi a mais competitiva da edição. Pela primeira vez assistimos a uma temporada em que todas as equipas perderam um jogo. Os Navigators, equipa mais forte e que ganhou as quatro edições da liga, perdeu o seu primeiro jogo oficial e com isso quebrou alguns mitos e barreiras. No geral, houve um acompanhamento dos jogos quase na sua totalidade pela FA Portugal, que tem um canal no YouTube com os melhores momentos de grande parte dos jogos da LPFA. A final foi disputada nas Olaias e teve uma adesão fantástica. Neste momento podemos dizer que a liga e o desporto estão em franco crescimento, o que contraria a tendência dos outros desportos.”

O espetáculo dentro do próprio espetáculo

Tal como nos Estados Unidos, também em Portugal a moda das cheerleaders no futebol americano já tem adeptos.

Sara Venâncio é cheerleader da equipa dos Lisboa Navigators. ”Recebi um e-mail de uma amiga a convidar-me para ir às captações de cheerleaders dos Navigators; inscrevi-me e felizmente consegui entrar. Tem corrido tudo muito bem. A equipa acolheu muito bem o nosso projeto e apoiam bastante o nosso trabalho. E, claro, foram campeões, o que também é uma vitória para nós como cheerleaders.”

Tal como a equipa, também as cheerleaders treinam para estarem prontas a dar o máximo no apoio aos jogadores. ”O nosso squad [grupo] de cheerleaders atualmente tem quatro treinos semanais, onde treinamos várias formas de apoio, sejam elas saltos, gritos, coreografias. É um treino exaustivo onde tudo tem de ser preparado ao pormenor; não pode haver falhas. Mas compensa, depois, nos jogos, pelo apoio que damos à equipa e pelo facto de eles sentirem esse apoio.”

É quase uma da tarde nos relvados do Parque das Nações e o treino já vai longo. Após  um jogo de cerca de 20 minutos entre os praticantes, sempre com boa disposição pelo meio, o treino caminha para o fim. Os jogadores descansam e bebem água debaixo das árvores, para fugir ao calor. O treinador recebe o dinheiro das quotas e, num pequeno discurso, faz o balanço do treino, lembrando ainda que falta pouco para os equipamentos chegarem. No final, os jogadores reúnem-se, colocam as mãos umas em cima das outras e gritam “um, dois, três, Sharks!”

Por André Conde

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