Gigi Caciuleanu, o corpo livre

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“Bravo! Bravo!” De pé, o aplauso da plateia estendeu-se por mais de cinco minutos, naquela sexta-feira, 22 de novembro, no Teatro Dona Maria II, em Lisboa. Os bailarinos, ainda ofegantes pela excelente e exigente performance de Ta Ra Tam Tam, de mãos dadas, ora avançavam para a boca de cena e faziam vénias, ora recuavam, sorrindo satisfeitos com o calor humano que irradiava dos espectadores.

O primeiro bailarino saiu de cena e das pernas trouxe Gigi Caciuleanu, o responsável pelo êxito daquela noite, um homem alto, bem constituído, de cabelos claros, entre o castanho e o dourado, que contrastavam com o escuro da sua roupa. Mas, para ter chegado a momentos como este, muito trabalho, muita persistência, muita resiliência foram necessários para que não se perdesse a vontade de se exprimir o gesto em plena liberdade.

Aos 4 anos de idade, e por decisão da mãe, Gigi, um “menino agitado, que não estava quieto em nenhum momento”, foi para uma escola de dança, conta o coreógrafo. Talvez a mãe escondesse um desejo remoto de ser bailarina, mas, “naquele tempo, uma menina das boas famílias romenas não seria nunca bailarina, tal a vergonha que a família sentiria”.

 

A escola de dança: perceções fortes

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No início da década de 50 do século passado, havia apenas duas escolas de dança estatais na Roménia, uma em Budapeste e outra em Cluj, no noroeste da histórica Transilvânia. Contudo, apenas a partir dos nove anos é que era possível a matrícula, e “sem a conclusão do Curso de Dança não seria possível o acesso ao professorado.”

Ou seja, a irrequietude do pequeno Gigi não estaria solucionada antes dos seus nove anos. Valeu à mãe o conhecimento de uma bailarina profissional do teatro de revista que mantinha uma pequena escola de dança, onde preparava alunos para o acesso ao ensino oficial. “Ela tinha um pequeno curso, e a minha mãe levou-me a esta senhora, que para mim, com quatro anos, era muito crescida”, recorda Gigi. Já na sala de ensaio, apanhou um valente susto e chorou porque à altura da sua cabeça e em seu redor “só via os glúteos das bailarinas, então com oito ou nove anos”, acrescenta sorrindo.

A professora pegou-lhe ao colo e Gigi viu “pela primeira vez uns enormes olhos azuis, brilhantes, na cara da professora”. Pediu-lhe casamento. O pedido “não funcionou, mas a dança, sim”, embora no início lhe tenha sido muito difícil, por ser “uma criança muito indisciplinada, por os nomes dos movimentos serem numa língua estrangeira, que uma criança não conhece.” Mas a professora percebeu que o podia deixar improvisar e propunha-lhe, por exemplo, que se “imaginasse um campo de futebol e que expressasse, através da dança, a quebra de vidros, ou de outra coisa qualquer.” Então, Gigi, por volta dos seis anos, deu-se conta de uma coisa que o iria marcar para toda a sua vida: “bailando podia ser livre!”

 

A escola oficial

E este sentimento será ampliado com Miriam Raducano, uma das suas professoras na escola de Bucareste, que, apesar de insistir na aprendizagem da dança clássica, lhe permitiu dançar de forma improvisada, nunca lhe dizendo “tu deves fazer desta ou daquela maneira.” E isto ia contra a corrente oficial do ensino da dança em vigor nas escolas do Estado romeno. Foi uma lição que aprendeu então e que perdura até ao dia de hoje.

 

As diferentes Primaveras

A primavera de 68 seria antecipada para janeiro desse ano, no país vizinho, a Checoslováquia, também sob a influência política da URSS. Dubcek atenuou o regime, aliviou a Censura e propôs reformas políticas e económicas. Moscovo não gostou e apresentou argumentos muito convincentes, apoiados nos tanques do Pacto de Varsóvia. Contudo, os ventos amenos também sopraram na direção de Bucareste e ajudaram a criar “a primavera de cada um, porque esta é mais importante do que a primavera de um país ou de uma corrente política”, reflete o coreógrafo.

Com Miriam vivia momentos únicos quando pisava o palco da Ópera de Bucareste, onde executava passos estranhos à vista dos espectadores, habituados a ver o bailado clássico, e que se interrogavam sobre o que viam, porque até então “tudo era feito segundo aquilo que era politicamente correto” e “a classificação de dança moderna estava proibida.” Por exemplo, Miriam tinha uma disciplina na escola oficial que se chamava «Arte do Ator» mas que “era dança moderna ou contemporânea”, conta-nos Gigi.

Contudo, do Bolchoi chega uma bolsa para aprofundar os estudos superiores de dança e será, mais uma vez, Miriam a desempenhar um papel preponderante devido à resistência de Gigi a abandonar a profissionalização a que se tinha dedicado no último ano, nos espetáculos da Ópera de Bucareste. De malas aviadas, parte com 22 anos para a capital soviética. Encontra dois professores fundamentais para a sua formação, com quem tudo era “exagerado, muito atlético, muito forte.” Conheceu Messener, já velho, e foi aluno de Aleksei Ermolaev, professor que o marcou pelo rigor e exigência, mas que lhe deu a perceber que a Escola de Moscovo era bastante livre, enriquecendo o seu trabalho de bailarino com movimentos a que até então não estava habituado.

 

Chile e Pina Bauch

Depois de Moscovo, Bucareste aguarda-o. De malas aviadas segue até ao Chile. Allende está no poder, as diplomacias romena e chilena fomentam a cultura. Ainda sem o saber, Gigi vai novamente ser confrontado com o conceito de Liberdade. Após um espetáculo em Santiago do Chile, numa receção oferecida pelo embaixador romeno, um diplomata japonês toca-lhe no braço e, num momento mágico em que toda a sala fica em silêncio, pergunta-lhe como podia ser tão livre a dançar vindo de uma ditadura. Gigi fica atónito; reage defendendo o seu governo, mas sente que será por pouco tempo.

A oportunidade surge na República Federal da Alemanha. Pina Bauch convida-o para ser professor e coreógrafo na sua escola, após tê-lo visto receber dois primeiros prémios consecutivos no Concurso de Dança de Colónia. A esta distância Gigi reconhece que “foi algo muito importante, porque foi ensinar e porque estava a dançar com um lobo louco, com um cão selvagem”, e isso obrigou-o a “estruturar os pensamentos que tinha sobre a dança”. Foi a sua faculdade durante um ano, no qual dançou ao lado de Pina Bauch, “uma bailarina, não de açúcar, mas de sal, força e dureza – o contrário de Miriam Raducano”, relembra o coreógrafo.

 

A Guerra Fria

A ameaça nuclear era apenas uma ponta da ampla guerra ideológica que se travava entre americanos e soviéticos. O embaixador americano em Bucareste sonda Gigi quanto a uma ida definitiva para os Estados Unidos. A proposta era tentadora: “visto permanente, uma bolsa mensal de 500 dólares e a possibilidade de trabalhar numa das várias companhias de dança americanas.” Se Gigi aceitasse era mais uma fuga que abalava o prestígio do bloco soviético. Desloca-se a Paris para levantar a documentação na embaixada americana, mas apaixona-se pela Cidade Luz e de lá já não sai. Contudo, não tem trabalho, dinheiro ou abrigo. Embora exilado, é livre.

É agosto, há milhares de turistas, os cabarets e clubes de jazz estão cheios. Vai a uma audição no Lido (“a experiência com Pina Bauch há de servir para qualquer coisa”, pensa), troca sem querer a cassete de música e “improvisa algo muito triste, sem música, apenas com movimentos”, recorda o coreógrafo. Contratam-no para fazer um improviso, duas vezes por noite, durante cinco minutos.

Do cabaret para Nancy

A forma como dançava, quer com Miriam, quer com Pina, ou agora no Lido, punha em evidência a capacidade de adaptação do bailarino. Daí que não seja estranho um convite para o lugar de diretor coreógrafo na Escola de Nancy, cidade onde irá viver “cinco temporadas, coreografando operetas ao ritmo de uma em cada quinze dias.” Este contato com o texto e a música torna-se fundamental. Faz adaptações de peças de teatro, junta sons humanos às suas coreografias, explora novos caminhos da dança.

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Caragiale e Ta Ra Ta Tam

Ortega y Gasset afirma que “o Homem é a sua circunstância”. Olhando para o trajeto de Gigi poucas dúvidas devem restar quanto a isto.

Ta Ra Ta Tam é fruto de toda a experiência de vida do coreógrafo. Os movimentos repetidos, a ironia das personagens, o vigor e a precisão dos bailarinos, a liberdade dos movimentos são notas autobiográficas que podemos encontrar nesta interessante adaptação de uma obra teatral para a dança, onde se misturam personagens conotadas com o dramaturgo e outras personagens relacionadas com o absurdo, quase despidas, e que simbolizam o contemporâneo.

 

Na encruzilhada de culturas

Com origens familiares na Grécia e na Rússia, nascido na Roménia e morando em Paris, Gigi sente-se numa encruzilhada de culturas, “com uma visão mais humilde do Mundo”, porque “é-se tudo e não se é nada.” E recorda que, na sua casa, os seus pais trabalhavam como tradutores e falavam muito em “como traduzir um poema de Eminescu em francês, ou uma obra técnica sobre agricultura do russo para o romeno”. Daí o gosto pela língua, pela palavra, pela sua declinação, tal como faz “o corpo para conjugar os movimentos”, conclui Gigi Caciuleanu.

 Por Rui Pinto de Almeida

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