Gira o disco e (ainda) toca o mesmo

Na era digital, ouvir música através de um gira-discos ainda pode ser encarado como uma forma alternativa de ouvir música, resistente ao domínio do digital. Nos últimos anos, o interesse por discos de vinil tem vindo a crescer. São várias as notícias que nos dão conta deste fenómeno, geralmente acompanhadas por estatísticas que mostram o aumento gradual das vendas do vinil. No entanto, não se deve chamar a este fenómeno um “ressurgimento do vinil”, pois o vinil nunca deixou de existir. As pessoas não deixaram de comprar discos de vinil, mas a verdade é que o número de vendas diminuiu estrondosamente após a invenção do CD (Compact Disc), na década de 80, e sofreu um segundo golpe com a criação de plataformas streaming, como o Youtube ou o Spotify.

Um cliente na Louie Louie, loja de música em Lisboa. (João Pedro Morais/8ª Colina)

Sempre houve colecionadores de vinil e lojas a vender vinis e CD, como é o caso da Louie Louie. Esta loja de música nasceu em Braga, expandiu-se para o Porto e há cerca de 12 anos que se encontra em Lisboa. André Trindade, funcionário da Louie Louie, afirma que os clientes que frequentam a loja não têm um padrão. Há pessoas de todas as idades. Há turistas que lá vão propositadamente à procura de música portuguesa, mas também há aqueles que descobrem a loja por acaso, veem um álbum e compram-no como recordação. «Em vez de estarem a comprar uma t-shirt com a frase I love Lisbon, compram um disco, que é uma memória tão válida como outra», diz André Trindade.

A Louie Louie tenta manter uma boa relação com os artistas e, por isso, vende os álbuns que são levados à loja pelos próprios músicos. Tó Trips (músico da banda Dead Combo), Paulo Furtado (The Legendary Tigerman), os Palmers e os Sensible Sockers são alguns dos artistas e das bandas que trabalham com a loja. «Eles vêm cá e pedem para vendermos o álbum. É do nosso interesse que eles se sintam em casa». André admite que o gosto pelo vintage e pelo retro pode explicar o facto de o vinil estar na moda. «Acho que o vinil encontrou aí um nicho muito importante.»

O mercado também se soube adaptar a este fenómeno, escolhendo reeditar discos mais antigos, que na altura tiveram um elevado número de vendas e que marcaram para sempre a indústria musical. «As editoras começam a ver um interesse crescente neste mercado; então vão buscar álbuns clássicos e reeditam-nos, porque isto vende sempre. Se uma pessoa começa a comprar vinil, a fazer uma coleção, começa mais facilmente por algo que lhe é querido e está estabelecido, como Pink Floyd, Beatles ou David Bowie», refere o funcionário da Louie Louie.

Ao contrário de grande parte das pessoas, que normalmente herdaram discos de vinil dos pais ou dos avós, Domingos começou a coleção do zero, e recorda que o primeiro álbum que comprou foi precisamente o Abbey Road, dos Beatles.

Tomás Wallenstein, à esquerda, e Domingos Coimbra, à direita, membros dos Capitão Fausto. (Diogo Ventura/8ª Colina)

Domingos Coimbra, baixista da banda portuguesa Capitão Fausto, e também cliente da Louie Louie, afirma que o vinil nunca deixou de estar na moda: «Acho que houve sempre aquele encanto por ser uma forma analógica de ouvir música. Ouvir música em vinil é como um ritual. Não é como no streaming, onde, se quisermos, mudamos imediatamente de música com um clique. Ouvir música em vinil é um bocado diferente, mas acaba por ser um bom programa para juntar amigos.»

Domingos lembra que o CD, que chegou a ser vendido às dezenas de milhões, hoje em dia vende muito menos. O vinil tem crescido ano após ano, e isto revela que é uma escolha segura dentro da indústria dos discos. No entanto, este crescimento não representa mais do que uma pequena fração no universo de vendas dominado pelo streaming.

Outra das razões que levam Domingos a preferir o vinil ao CD é a sua dimensão estética: «Acho que hoje em dia as pessoas, mesmo que não tenham um gira-discos, compram discos de vinil pelo objeto. Tem acontecido muito pessoas comprarem os nossos vinis para terem o objeto em casa. Se é para comprar, e para ajudar a banda, mais vale comprar um objeto que é mais bonito, e o vinil é mais bonito do que o CD.»

Beatriz Pedrosa, 17 anos, começou a colecionar discos de vinil depois de o avô lhe ter oferecido o seu gira-discos. A partir daí começou a pedir discos como prenda no Natal e no seu aniversário. Os primeiros discos que comprou foram Mezzanine, dos Massive Attack, e Dar&Receber, de António Variações. Beatriz costuma ir a lojas de música em Lisboa, a grandes superfícies comerciais, e gosta de ir a feiras e mercados de rua, esperando, quem sabe, encontrar algumas relíquias e discos de vinil mais baratos.

 

A jovem confessa que prefere comprar discos em primeira mão porque geralmente os discos em segunda mão que encontra não estão em bom estado. Ainda assim, admite que os discos em segunda mão, como é o caso dos discos do seu avô, lhe despertam um interesse ainda maior, pois passaram por outras pessoas e têm sempre uma história por detrás deles.

Tal como Domingos Coimbra, Beatriz prefere ouvir música em vinil: «O ritual é cativante: tirar o disco da capa, colocar a agulha, virar o disco ao contrário quando as músicas do primeiro lado acabam, afastar-me um pouco e deixar o disco tocar…».

A experiência demorada, cuidada, ao ritmo do «antigamente», voltou para ficar.

 

 

Artigo escrito por: Marta de Assis

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