Há vida para além do litoral. Manel Cartuxo: a história de um vendedor de histórias

Manel Cartuxo à porta da mercearia © Catarina Pereira

“Quando era pequenino tinha uma bata parecida com aquela que os cachopos usavam quando iam para o Convento da Cartuxa, em Évora. As pessoas diziam sempre: «Pareces um cartuxinho!» ”, conta Manuel de Oliveira, ou melhor, Manel Cartuxo, para explicar as origens do nome pelo qual todos ali o conhecem. Há 52 que tem nas suas mãos este espaço, no entanto, não esquece o que fora anteriormente: primeiro um estabelecimento de fazenda e mercearia, depois uma mercearia, seguida de um armazém de fazenda e, mais tarde, o Banco Raposo Magalhães – “ainda me lembro de ir lanchar à adega do dono”.

Quase com 92 anos levanta-se todos os dias às seis e um quarto – “gosto de fazer tudo devagar” – para depois pegar no seu automóvel e seguir caminho até à mercearia – “Tenho um carro que todos o cobiçam, até o homem mais rico do país! É um carocha dos antigos. Um carocha com 51 anos!”

Aqui vende-se bacalhau, café e cevada, atum e sardinhas enlatadas, vinagre, vinho, grão, colorau, especiarias “daquelas que cheiram bem, não é como as do supermercado!” e tantas outras coisas. As contas são feitas à mão, não há nada como papel e caneta, – “sou bom em matemática e sou anti máquinas, isso é um atraso para as crianças”.

Os tempos são outros e os clientes quase nenhuns – “Tive muitos clientes! Agora não. Só vendo aquilo que os outros não têm”. Contudo, o café do Sr. Manel ainda não perdeu a fama – “o meu café é feito na hora, eu moo o café.” O café ou cevada seguem viagem para a Covilhã e Manteigas, mas conseguem ir ainda mais longe: Manel Cartuxo afirma ter clientes na Roménia e na América – “Ainda no outro dia esteve aqui uma senhora que veio buscar café para levar para a filha que está na América.”

Manel Cartuxo desloca-se todos os dias até à mercearia não por dinheiro – pois os clientes são poucos –, mas por gosto. O seu lugar é à porta “para ver as brasas passar” e conversar com toda a gente que naquela rua passa. “Já todos me conhecem. Ainda no outro dia esteve aí uma senhora que me disse que se pudesse passava aqui a tarde inteira a falar comigo”, contou-nos também.

Com alguma pena vai lamentando que à quinta-feira não se veja por ali ninguém – “há 50 anos era uma festa, eram os cauteleiros, as mulheres a cantar, a vender tremoços, castanhas cozidas…havia alegria, pessoas a escrever coisas maravilhosas”. Manel Cartuxo já percebeu que as coisas não funcionam como antigamente, mas ainda assim não dispensa um dia para ficar em casa, ao invés de ir até à rua Teófilo Braga.

Texto e foto: Catarina Pereira

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