(Im)Personal Trainers: o exercício físico à distância

Da noite para o dia, a realidade alterou-se. As 24 horas afiguraram-se mais longas, e o tempo, que antigamente escasseava, ficou disponível para se desafiar a capacidade de distração. Em plena pandemia de Covid-19, as pessoas procuraram um refúgio – que, em muitos casos, foi encontrado no exercício físico entre as quatro paredes de uma sala ou de um quarto. O novo desafio recaiu sobre os treinadores de desporto, que se renderam ao online.

Rute confessa que, de início, desvalorizou um pouco a situação. Apercebeu-se de que as coisas poderiam tomar outro rumo quando lhe começaram a cancelar trabalhos na área de produção de eventos e os ginásios começaram a ficar visivelmente mais vazios. A 13 de março, sexta-feira, a situação tornou-se mais real para Rute: recebeu uma mensagem que dizia que o ginásio iria encerrar temporariamente e que, por isso, não iria trabalhar mais.

Rute Galego tem 33 anos, faz trabalhos como bailarina e trabalha num ginásio em Carcavelos há cerca de um ano. O ‘bichinho do desporto’ surgiu aos 17 anos, quando começou a frequentar as aulas de grupo de um ginásio. A partir daí, começou a ponderar seriamente seguir os estudos nessa área. No entanto, quando concluiu o secundário, entrou para o curso de organização de eventos.

Apesar de ter adiado a vontade de enveredar pelo mundo do desporto,esta área estava-lhe destinada, e iniciou a sua formação em Zumba, área de fitness que exerce há cinco anos. Mas rapidamente se especializou em Técnica de Exercício Físico, uma vez que o seu objetivo era chegar aos ginásios.

Rute Galego, "personal trainer". Foto gentilmente cedida pela própria.

"Ao início, dar aulas online não era de todo o meu objetivo"

Rute admite que, no início, lhe fazia confusão não ver as pessoas. Para além desse aspeto, as aulas online não lhe permitem o auxílio na correção da técnica e da postura. Por esses motivos, confessa que não queria aceitar quando lhe pediram para fazer um treino para o Instagram: “Nunca tinha feito um direto na vida, nem por brincadeira, e não me via muito a fazê-lo”. Acabou por sair da sua zona de conforto e aceitou o desafio.

Três semanas haviam passado desde o encerramento dos ginásios e Rute apercebeu-se de que tinha de começar a fazer alguma coisa. Apesar de ter consciência de que estava a poupar em certos aspetos, como na gasolina e em jantares fora, as contas tinham de continuar a ser pagas. Lançou um horário com as três aulas que diariamente dava no ginásio. Cada aula com um valor. No entanto, reconhece que existem pessoas que não querem pagar e considera que é legítimo – “Estamos todos numa situação muito complicada”. Apesar de, neste momento, Rute considerar que a adaptação do mundo do desporto ao online não é sustentável, tem conhecimento de que há colegas seus que têm feito mais dinheiro do que o que fariam se estivessem a trabalhar normalmente.

Inicialmente, Rute pensava que, com tantos colegas a darem aulas online de forma gratuita, ninguém iria aderir às suas aulas. No entanto, o feedback tem sido bastante positivo: “Houve realmente uma adesão incrível por parte das pessoas. Cada um tem o seu público e o seu objetivo. E isto depende da forma como tu funcionas”. Cada personal trainer acaba por criar uma relação muito própria com os seus clientes, e a especialização de Rute acaba por dar a segurança que frequentemente o seu público procura. Da mesma forma, a dinâmica das aulas e a diferenciação de exercícios cativam os desportistas.

Rute sente que esta nova realidade foi e é muito boa para o exercício físico: “As pessoas deram-lhe valor. No meio do stress, ao fazerem desporto, ao dançarem e ao ouvirem música, desligam-se um bocadinho. As pessoas vieram à procura disso, pelo menos naquela hora em que estão a treinar.

 

No futuro, Rute pretende conciliar as duas realidades: o trabalho no ginásio e o trabalho por via online. O objetivo é continuar a acompanhar aquelas pessoas que não têm a oportunidade de pagar um ginásio ou de o frequentar, por questões de distância ou de tempo. “Eu acho que o treino online veio agora e vai ficar, mesmo quando os ginásios abrirem”.

"Eu costumo dizer que tive azar, porque estou inserida em todas as áreas que estão completamente paradas”

A reabertura dos ginásios assusta-a. Em fase de desconfinamento, a redução de algumas aulas de grupo preocupa-a, uma vez que estas limitações poderão traduzir-se, consequentemente, em cortes para os profissionais. Os ginásios já reabriram e Rute considera que,ao início, até de ir ao ginásio as pessoas terão medo.

O lado positivo desta nova realidade é também reconhecido por Rita. Sem as típicas correrias do dia a dia, o confinamento trouxe-lhe mais energia e tempo para si: para estudar, fazer formações e estar mais presente na vida dos seus clientes. “Eu agora falo mais com os meus clientes do que falava antes, porque estou constantemente em contacto.” Rita revela que as pessoas acabam por querer conversar e abordar assuntos que vão para lá dos treinos: “O facto de confiarem em mim, de me contarem outras coisas e de precisarem de mim é bom. Quando isto tudo acabar, eu sei que vou ter ali pessoas que vão querer voltar a fazer os meus treinos”.

Rita confessa que se rendeu ao online do dia para a noite, ainda quando a pandemia deCovid-19 não tinha sido decretada. Um cliente seu, após uma viagem a Paris, decidiu fazer quarentena voluntária e, de modo a continuar a acompanhá-lo, Rita passou a dar-lhe treinos por videochamada. Através desta primeira experiência, percebeu que, mesmo com o encerramento dos ginásios, havia uma alternativa. 

Rita Almeida tem 27 anos e licenciou-se em Ciências do Desporto, em Coimbra. O desporto sempre esteve presente na sua vida: foi jogadora federada e treinadora de voleibol. Atualmente, é "personal trainer" num ginásio em Setúbal. Foto gentilmente cedida pela própria.

“Se isto tiver mesmo de parar, eu não fico logo off. Não vou ficar completamente desamparada”

Quando se verificou o encerramento temporário dos ginásios, a personal trainer, no seu Instagram, começou a publicar vídeos com desafios semanais. A adesão foi visível –desde amigas suas a gente que não era sequer sua cliente. Assim, abriram-se novas portas: chegou a mais pessoas e recebeu um convite de uma das participantes nas suas aulas, que trabalha numa revista, para fazer desafios exclusivos para a publicação. O convite foi aceite.
Durante estes meses, Rita conseguiu juntar clientes de Norte a Sul do país – mais especificamente do Algarve e do Porto –, e deseja mantê-los mesmo depois do regresso à possível normalidade.

"Achava que o presencial ganhava sempre”

Para a personal trainer, os desafios têm sido grandes – o seu acompanhamento exige a observação de todos os ângulos; a Internet muitas vezes cai; há falta de materiais. Isso, durante o treino, exige uma maior atenção da sua parte. “Eu tenho de estar constantemente a perguntar à pessoa o que é que ela está a sentir, onde é que está a sentir a contração, que músculo é que sente a trabalhar naquele momento, de 0 a 10 qual é a intensidade do treino naquele instante… Isto, presencialmente, é diferente”, explica. Por todos estes motivos, caracteriza a experiência como “agridoce”.

Rita considera que as pessoas que procuram os profissionais da área do desporto pretendem encontrar motivação, apoio, segurança, compromisso e disciplina durante o treino. Andreia Miguel, cliente desta personaltrainer, confessa que treinar sem Rita não é a mesma coisa por esses mesmos motivos.

Andreia confessa que inicialmente esta nova realidade lhe fez muita confusão. Mas percebeu logo que não podia parar: em causa estava a sua estabilidade emocional e o possível regresso à sensação de tristeza, sedentarismo e “preguiça constante” que a tinham levado a procurar algo para fazer.

“Resultar? Resulta. É eficaz? Sim. É tão bom? Não”

Agora, sem a sua rotina, Andreia Miguel sente-se mais “mole”, e a vontade de treinar muitas vezes não existe: “É mais fácil sair da minha secretária para o meu sofá, que está a uns centímetros de distância, do que ir para o outro lado da sala treinar”. No entanto, o seu cansaço é contrariado pelo compromisso que tem com Rita.

E porque pagaria por um serviço de uma personal trainer quando tem treinos gratuitos disponíveis? Andreia contrapõe: “Para que é que eu vou pagar a uma costureira para me fazer uma bainha se eu posso aprender como se faz no YouTube?” Para si, esta é uma questão de eficácia e de vantagem – explica que as correções feitas por alguém que sabe são essenciais num treino.

A pandemia atual alterou as mais simples das rotinas. No entanto, há aspetos positivos que dela podem ser retirados – Rute considera que esta realidade foi um “boom” para o exercício físico. Em altura de desconfinamento, o novo desafio será manter alguns dos hábitos da quarentena. 

Andreia Miguel faz parte do crescente número de clientes dos "personal trainers" que levaram a sua atividade para o mundo digital. Foto gentilmente cedida pela própria.

Ilustração de capa: Joana Melo

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