João Rosado: “Ninguém tem a verdade do mundo”

Começou no vespertino “A capital”, onde aprendeu os métodos da “velha escola”. Precederam anos de aprendizagem na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – numa época em que já sabia que queria o jornalismo desportivo.

É um jornalista que alia à sua profissão a valência de comentador desportivo, e é como comentador no espaço televisivo e radiofónico que se sente “livre” – sem se entregar à parcialidade clubística.

João Rosado, aos 48 anos, olha para o futuro vendo uma superliga europeia como solução para a escassa intensidade competitiva em Portugal.

 

Queria ser jornalista já em criança ou foi uma decisão repentina quando ingressou na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, em Comunicação Social?

Quando era pequeno queria ser jogador de futebol, mas cedo percebi que não era a minha vocação. Por isso pensei, quando chegou a hora de ingressar na faculdade, que jornalismo pudesse ser a minha área. Sempre gostei muito de desporto em geral e futebol em particular. Foi essa a escolha que fiz em 1987.

 

Sempre canalizou a sua atenção para o jornalismo desportivo? Nunca ponderou outra área, como por exemplo a Política ou a Cultura?

 

No “A Capital”, sim. Quando entrei para o jornal, em 1989, a meio do curso, ocupei a vaga deixada por um amigo meu, o António Tadeia, que tinha recebido uma proposta do Expresso. O António tinha uma rubrica chamada “Estrelas da Bola” e precisava de alguém que o substituísse. Foi nesse momento em que percebi que tinha de trabalhar em várias áreas. Fazia Sociedade, Cultura e Desporto.

 

Gostava desse ambiente de redação do “A Capital”, “O Jogo” e do “Record”?

Era velha escola, um ambiente diferente que não se assemelha às redações de hoje. No “A Capital” tinha um chefe de redação chamado João Vaz, com quem aprendi bastante. Sendo um jornal vespertino, tínhamos de fechar até ao meio dia. Tínhamos de ter ideias rápidas e de ser rápidos a executá-las. Ganhei muita prática à conta disso, era tudo muito acelerado.

 

Sentiu-se bem preparado pelo ensino superior para enfrentar o ritmo do mercado de trabalho, mesmo estando a meio do curso, em 1989?

 

Sim, estava bem preparado, mas nada se compara ao trabalho diário. Não havia descansos. Era para ir para a rua fazer reportagens. Recordo-me de que nas primeiras vezes, quando tinha que reportar um incêndio ou um crime ficava desanimado. A minha aptidão natural sempre teve que ver com o desporto.

 

O que dá mais prazer fazer: comentário ou reportagem?

 

Notícias. Isso é que dá gozo. Todas elas, porque as notícias são a marca do jornalista. No fundo o que é ser jornalista? É dar informação ao público da qual eles não dispõem. Se podermos dar uma informação suis generis, ainda melhor.

 

É inegável que nos dias de hoje o comentário no desporto e o jornalismo desportivo andam de braço dado. Deve haver mais jornalistas a fazer comentário desportivo?

 

Óbvio que um comentador é mais imparcial se for jornalista. Um comentador que não perceba que tem de dar uma explicação com base numa interpretação distante e imparcial é um comentador mais inclinado. Nessa perspetiva, um jornalista de essência olha para determinados aspetos e detalhes. Por outro lado, também conta o facto de o jornalista não estar apegado a determinados ideais ou pressões.

 

Faz-lhe confusão não haver muitos jornalistas a darem a sua opinião através de crónicas, ou através de presença em espaços de comentário noticioso?

Não me faz confusão. Por um lado, numa determinada área há sempre gente que tira um curso e outras pessoas que se especializam num sector em concreto. E por vezes há assuntos que só devem ser analisados por quem tem formação especializada. Contudo, há excelentes comentadores, mas não são grandes jornalistas. Há bons jornalistas que não são bons comentadores. Claro que o ideal é ter alguém que estudou, que domina a área e que pode comentar. Todavia, pode dar-se o caso de um fantástico jornalista não ter perfil e o à-vontade ideais para se dirigir a um público. Pode não ser necessariamente um orador, deixando nesse caso de ser um bom comentador.

 

Numa altura em que se fala de sensacionalismo e entretenimento nos programas de comentário desportivo, qual é a análise que faz ao estado do comentário desportivo em Portugal?

  

As coisas caminharam num sentido em que se passou a fazer uma escassa filtragem dos sujeitos que são orientadores de determinadas opiniões. As pessoas habituaram-se a ouvir qualquer pessoa a falar sobre qualquer tema, e isso baixou a fasquia. Nesse aspeto há uma responsabilidade por parte do público.

 

Não há responsabilidade da administração e/ou dos diretores de conteúdos, que fazem essa seleção?

Não necessariamente. Há aqui um bolo enorme chamado responsabilidade e todos temos uma fatia desse bolo. O público habituou-se a que a informação se tenha tornado gratuita, através das redes sociais. Muita gente, que está em casa, gosta de ouvir certas opiniões por muito desfasadas que sejam da realidade. Se as pessoas querem assim…

 

Então, tem de se dar esse conteúdo às pessoas?

 

Sim, hoje em dia a informação está disponível para toda a gente. Se há a possibilidade de escolher, só escolhe mal quem quer. Isto advém do facto de as pessoas terem crescido sem olhar para determinados critérios de qualidade.

 

Neste ano falou-se recorrentemente em e-mails, E-touperia, Lex, num presidente que critica imoderadamente os seus ativos em pleno facebook, em corrupção, em alegados subornos. Como é que se sente quando, enquanto convidado, tem de preparar uma intervenção e constata que o foco está naquilo que é “extra-futebol”?

 

Honestamente, nessa matéria, devemos dar espaço aos especialistas. Quando há temas que envolvem a justiça, quando dizem respeito ao modo de estar pessoal de cada dirigente, não devemos opinar muito sobre isso. Eu não tenho de opinar sobre o comportamento de um presidente. Claro que as declarações das personalidades interessam-me porque têm um impacto, porém os julgamentos em praça pública devem ser feitos por quem percebe de facto dessas matérias. É como falar sobre os erros dos árbitros, como se da boca dos comentadores viesse uma verdade divina. Ninguém tem a verdade do mundo. A mim faz-me muita confusão quando estou num programa para comentar um jogo e se começa pelos lances de arbitragem.

 

Este tipo de julgamentos pode colocar o comentador numa situação de exposição?

Sim, porque não tenho dados suficientes para imitir esses juízos de opinião. São questões que estão muitas vezes nos tribunais, sem serem seguidas de forma célere. Nós, comentadores, não podemos julgar A ou B só porque sim. Basta reconhecermos o nosso grau de incompetência para opinar sobre determinadas matérias.

 

Polémicas como estas têm um impacto efetivo nos atletas e podem manchar o bom nome da liga portuguesa?

Claramente que mancham o bom nome da liga e de outras instituições. Quanto a propósito dos jogadores, não acho que isso afete muito o rendimento dos atletas.

 

O contexto dos jogadores é um mundo à parte das polémicas?

 

Sem dúvida. Quem conhece um balneário, quem conhece determinados jogadores percebe isso. Eles vivem num mundo manifestamente à parte. Por muito que isto custe ouvir a muitos adeptos. Pode interferir um bocado na forma como os treinadores lidam com os jogadores, porque fazem a ponte quando lidam com os diretores desportivos e com os presidentes.

Apesar de este ano ter havido toda esta turbulência fora das quatro linhas, pareceu-lhe um campeonato competitivo? – O FC Porto, Sporting CP, SL Benfica e o SC Braga guerrearam pelo título materializando isso numa escassa diferença pontual – Ou parece-lhe ilusório? Uma vez que, por exemplo, o Rio Ave (5º classificado) tem uma diferença de 27 pontos para o SC Braga (6º classificado).

Este campeonato português está dividido em dois. Há cerca de oito ou nove equipas que mantêm um nível razoável ou relativamente alto. As outras não têm esse nível. O nosso campeonato precisa de ser reconfigurado. Este molde atual não ajuda ninguém. Essa diferença de umas equipas face às outras é gritante. Penso que os clubes na europa acabam por se ressentir da baixa exigência do campeonato português.

 

A questão é essencialmente financeira?

Não apenas. É em parte financeira, porque os nossos talentos portugueses ficam cá pouco tempo, tal como os prodígios estrangeiros que são recrutados com tenra idade. Eu tenho uma visão um pouco diferente da normal. Acho que a repartição dos direitos televisivos não ia mudar nada em Portugal.

 

Então não tem uma visão de repartição de financiamento homogénea por parte da FPF (Federação Portuguesa de Futebol). Considera que os três grandes devem estar bem apetrechados financeiramente para competirem em pé de igualdade na europa, ainda que isso implique maior desigualdade na distribuição de rendimentos?

 

O que me parece interessante é fazer crescer os grandes clubes nacionais à luz dos grandes clubes europeus. A aproximação artificial de os clubes pequenos e médios aos grandes iria tirar ferramentas financeiras aos três grandes. Defendo que os três grandes terão de deixar os moldes do campeonato português. Sou a favor de uma superliga europeia.

 

E uma liga ibérica?

Poder-se-á caminhar numa primeira fase para isso. Em tempos se falou a propósito das ilhas britânicas, houve essa ideia de juntar Escócia e Inglaterra. Mas creio que o melhor seria termos os três grandes numa superliga europeia. Nesse caso, por uma questão de exposição de direitos televisivos internacionais e valorização de jogadores, seria possível faturar mais. Enquanto não for feito este tipo de alteração, é inútil tentar recriar uma Premier League em Portugal,

 

Jogo rápido de pergunta e resposta (João Rosado)

 

Old Trafford ou Mestalla?

Resposta: Old Trafford.

 

Messi ou Maradona?

Resposta: Maradona.

 

VAR ou a ausência dele?

Resposta: VAR.

 

Os “galácticos” do Real Madrid (2002) ou o tiki-taka do Barça de Guardiola?

Resposta: O Barça de Guardiola.

 

Liga NOS ou Liga Ibérica?

Resposta: Liga Ibérica.

 

Rádio ou Televisão?

Resposta: Televisão.