Josh Hammer – O Outro Ângulo

Como fazer uma peça jornalística, essencialmente informativa, que tenha como referência o próprio tema que o conferencista trouxe a debate: o jornalismo narrativo?

Esta é a pergunta que fiz a mim próprio quando acabei de ouvir Josh Hammer, um americano de 56 anos, licenciado em Literatura Inglesa, em 1979, pela Universidade de Princeton, no final da sua apresentação no passado dia 9 de Novembro, durante a Conferência Internacional “O Regresso do Jornalismo – a grande reportagem da era digital”, que decorreu na Escola Superior de Comunicação Social, em Lisboa.

Ao longo de pouco mais de cinquenta minutos, Josh partilhou a sua experiência, os seus desencantos e ansiedades, mas também os seus sucessos e a sua vontade de continuar a explorar um género jornalístico que se encontra ameaçado à medida que as publicações impressas ou desaparecem ou migram para o meio digital.

Durante quase vinte anos Josh foi correspondente da prestigiada Newsweek e, como tal, o mundo tornou-se mais próximo para este nova-iorquino. Era um tempo em que o dinheiro abundava nas revistas e nosjornais; as tiragens e a circulação eram impressionantes, nunca vistas; as delegações, quer nos Estados Unidos, quer noutros locais do mundo, espalhavam-se às dezenas. Cidades como Nairobi, Buenos Aires, Los Angeles, Berlim ou Jerusalém assemelhavam-se nos seus aeroportos, portões de embarque, passadeiras de bagagem, carimbos e vistos nos passaportes.

Tudo o resto era diferente. De Jerusalém, em 2001, guarda fundo na memória o ter sido feito refém na Faixa de Gaza juntamente com o fotógrafo GaryKnight. Apesar de tudo, correu bem.Talvez este acontecimento, a par com a falta de estabilidade para um projeto de vida familiar, o tenham levado a procurar alternativas profissionais, mas que o mantivessem ligado à arte de contar a realidade, ou pelo menos de adescrever através de um ponto de vista.

Ups! Fui despedido!

Os seus contactos na Outside ou na New Republic abrem-lhe perspetivas para começar a desenvolver trabalhos longos. E lentamente, à medida que vai procurando novas histórias, vai-se sentindo cada vez mais feliz e realizado profissionalmente.

Em 2006, Josh é correspondentena Cidade do Cabo quando a New Yorker lhe pede um trabalho de fundo sobre Robert Mugabe. Foi um momento de viragem na sua carreira jornalística. Escrever para a melhor das melhores revistas era algo que Hammer há muito desejava. O trabalho foi publicado mas trouxe consequências profissionais e pessoais. A Newsweek não esteve pelos ajustes e despediu-o ao fim de quase vinte anos de dedicada colaboração.

A estabilidade do emprego desaparece então, mas fica a possibilidade de se fazer o que se gosta e em que se acredita, apesar de a insegurança pairar sobre o teclado do computador. Seria bem sucedido como jornalista freelance de longas histórias? Como seria este mercado fora dos Estados Unidos? Ganharia o suficiente para si e para a sua família? Eram perguntas para as quais Josh não tinha respostas. Mas o caminho era só um: continuar a procurar boas histórias para contar, o que fez com sucesso crescente.

Jornalismo narrativo, onde fica?

Descobriu que pela Europa não há uma tradição do jornalismo narrativo, talvez por os europeus separarem a escrita jornalística da literatura -ao contrário do que acontece nos Estados Unidos, onde nomes como Stephen Crane ou Mark Twain, jornalistas e escritores, lançaram as bases do jornalismo narrativo que perdura até hoje com referências como Tom Wolfe , ou Norman Mailer.

Há um razoável número de publicações americanas com páginas dedicadas ao jornalismo narrativo. As histórias são de todo o mundo, porque os jornalistas saem do ar condicionado das redações e vão para o terreno, para os trópicos, para o Zimbabwe ou para o Mali, para as montanhas secas do Afeganistão ou para as zonas ribeirinhas e húmidas do Sudoeste Asiático. A GQ, aEsquire, a New Yorker, a Vanity, a Harpers, a Atlantic, a National Magazine, entre outras, procuram em cada número trazer uma história contada pelo jornalista na primeira pessoa, de forma lenta, de modo a criar uma relação íntima com o leitor, como se estivessem ambos a beber um copo pela calada da noite.

Ipads, Ipods, Kindles e tudo o resto

Querer ler revistas pode tornar-se uma grande maçada, sobretudo se não a podemos ter connosco naquele momento. Mas os Ipads, Ipods, Kindles e outros vieram facilitar o acesso a todos os conteúdos em qualquer momento. Assim, aquilo que era apontado como uma desvantagem para os textos longos, a leitura no écran de um PC, mesmo portátil, tornou-se muito acessível pela elevadíssima portabilidade dos computadores que também servem para telefonar. E nos comboios, nos aeroportos, no autocarro, no emprego, em casa, na cama, na casa de banho, onde quer que seja, as histórias estão lá, à espera para serem lidas, para serem desfrutadas, diria até, mais convidativas do que na forma impressa.

E agora, o que se segue?

Passo os olhos pelo meu PC, ainda não tenho Ipad, e procuro o site Atavist. É uma plataforma onde posso ler (e escrever) histórias não ficcionadas. O modo de funcionamento é simples: registo-me, dão-me a possibilidade de publicar uma história não ficcionada sem custos, ou posso optar por pagar uma determinada quantia com direito a publicar mais histórias. Do outro lado da linha de banda larga, 3G ou 4G, algures no mundo, quem quiser ler a minha história pagará um pequeno valor pelos royalties,do qual uma parte será minha.

A plataforma é americana, como acontece coma maior parte dos negócios das tecnologias de informação, e Josh  já aípublicou duas histórias até agora.

São histórias ligadas ao crime passional, com todos os ingredientes para se conseguir sucesso. E Joshconcretizou vendas superiores a 15.000 cópias –ou, melhor, downloads, já que não há versão impressa do Ativist. É um negócio bem à medida dos traços fundadores da nacionalidade americana: a igualdade de oportunidades – triunfa o mais competente, o mais rápido, o mais forte.

Mas há outras plataformas com o mesmo objetivo. A Byliner, aKindleSingles, são outras alternativas para quem se quer aventurar pelo género do jornalismo narrativo.

E qualquer delas tem enormes vantagens porque o jornalista não está condicionado à área que o editor lhe disponibiliza para a versão impressa. Não há constrangimentos criativos, apenas financeiros.

E, como não há constrangimentos criativos, porque não contar histórias sobre assuntos que são notícia, mas com ângulos diferentes? Josh fá-lo com frequência. Na Somália, um país brutalmente atravessado por uma guerra sem quartel, não é estranha a existência de voos regulares entre Mogadíscio,Nairobi e o Dubai?No Rio de Janeiro, nas favelas, entre a violência do BOPE e dos dealers, encontra-se um artista plástico que soube manter-se afastado do mundo do crime organizado, contra todas as espectativas possíveis. São boas histórias para contar, pelo inesperado.

É isto o jornalismo narrativo: encontrar um elemento de surpresa, contar a experiência na primeira pessoa, lentamente, de modo a criar uma cumplicidade com o leitor.

Por Rui Pinto de Almeida

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