Jovens em Lisboa: Como é viver na capital?

Afonso Noronha, Luís Archer, Maria Montalvão e Sara Nunes moram em Lisboa e todos os dias tropeçam nos defeitos e nas qualidades da capital portuguesa. Os quatro jovens têm algumas sugestões que – acreditam – transformariam a cidade num melhor lugar para se viver. As críticas recaem, sobretudo, na área dos transportes, da habitação, do turismo e do urbanismo. Apesar da curta experiência de vida, estes moradores de Lisboa deixam uma certeza: uma das maneiras mais viáveis de mudar realidades é não perder a oportunidade de votar, no próximo dia 26 de setembro.

Maria Montalvão tem 20 anos e mora na Avenida de Roma. Adora viver em Lisboa e não trocava a confusão da cidade pela calmaria do campo. “Aqui tenho todos os meus amigos e tenho toda a minha vida. Seria uma grande mudança”, admite.

Com 25 anos, Luís Archer é advogado. Natural do Porto, mudou-se para a capital portuguesa para frequentar um mestrado. Sente que a maior diferença na experiência de viver nas duas cidades está no facto de já não residir com os pais, ao contrário do que acontecia na Invicta: “Era diferente. Aqui comecei a viver com amigos. Há pouco tempo, fui viver com a minha namorada. Toda a logística de mudar para outra casa é diferente.” Luís vê a capital como uma cidade de oportunidades: “Por vezes, digo aos meus amigos que Lisboa é uma das cidades europeias com maior potencial para se viver e para se construir uma carreira.” 

Sara Nunes tem 19 anos e vive na freguesia de Penha de França, mas nem sempre residiu em Lisboa. A sua primeira casa foi em Alfragide, no concelho da Amadora. Quando trocou de morada, aos 15 anos, sentiu uma diferença significativa nos acessos. Não hesita em dizer que prefere morar em Lisboa do que nos subúrbios da cidade.

Tal como Sara Nunes, Afonso Noronha também não é natural de Lisboa. Até aos seis anos, viveu em Rio de Mouro, Sintra. Agora com 20, habita na freguesia de Santa Clara. A diferença, segundo o jovem, é notória: “As coisas eram mais baratas ao redor de Lisboa e havia menos trânsito na área.”

 

Falta de acessos nos transportes públicos

Afonso Noronha realça que o problema dos transportes públicos está a ganhar cada vez mais relevância. Como constata diariamente, “o tempo de espera está a aumentar e os acessos ainda são insuficientes”. E lamenta: “Eu não me importo de esperar cinco minutos pelo transporte, mas para uma pessoa mais velha é mais difícil. De autocarro já há mais, mas aquilo diz que demora cinco minutos e pode demorar dez.” 

A qualidade dos transportes públicos é a principal crítica que Maria Montalvão faz a Lisboa: “Há imensos pontos da cidade que não têm transportes”. Além disso, a jovem assume que demora muito tempo a chegar ao seu destino. Para se deslocar até à faculdade, tinha de ir de metro, comboio e autocarro. 

João Cília // 8ª Colina.

Sara Nunes tem praticamente todos os meios de transportes perto de casa, o que lhe facilita as deslocações. Contudo, garante que “não funcionam a 100%”. “Não é a maravilha das maravilhas. Ir para a faculdade é um problema”, afirma. Atualmente a frequentar a licenciatura em Gestão de Transportes e Logística, no Instituto Superior Naútico, em Paço de Arcos, a estudante tem de planear e gerir os horários dos transportes para garantir que chega a tempo à universidade. Além disso, refere que tem de contar com os atrasos que podem acontecer. “Implica sair de casa cerca de duas horas antes de a primeira aula começar”, indica. 

Apesar da demora do percurso, a jovem reconhece que “a acessibilidade em Lisboa não é má para quem mora e estuda no centro e que o que falta é estender isso para os subúrbios”. Uma sugestão que apresenta é a criação da ligação entre a linha de Amadora- Sintra e a de Cais do Sodré-Cascais, o que possibilitaria menos trocas entre transportes e um percurso mais eficaz. 

Maria Montalvão considera que a cidade ainda tem muito que desenvolver em termos de acessibilidade e dá o exemplo de Paris: “Se perder o metro, passados oito minutos já está a aparecer outro. As pessoas stressam menos porque sabem que se saírem de casa e perderem um, passado um minuto, já têm outro. Assim, toda a logística acaba por se tornar mais fácil e a vida fica menos dependente dos transportes.” A jovem considera que “se este aspeto fosse corrigido, a qualidade de vida da cidade também melhoraria”.

Outro problema que aponta é o excesso de tráfego rodoviário: “Lisboa não está pronta para ter tantos veículos em circulação, além de que existem poucos lugares de estacionamento. E nos que existem, é preciso pagar um preço que muitos jovens não podem pagar.” Atualmente, existem cinco tarifas de estacionamento: verde, amarela, vermelha, castanha e preta. A zona da Baixa lisboeta está praticamente toda coberta pela quarta tarifa. O objetivo é reduzir o tráfego automóvel no centro da cidade, contribuindo assim para a diminuição dos níveis de poluição. A medida parece ter um bom propósito, mas, na opinião da jovem, “é difícil encontrar uma solução para baixar os níveis de trânsito intenso”. E justifica: “O facto de não sermos uma cidade plana, como Amesterdão, dificulta, em algumas zonas, a circulação de bicicletas e trotinetes.” 

Habitação: preços altos e pouca oferta 

Encontrar casa é outra dificuldade apontada por Maria Montalvão: “É muito caro para alguns adultos, quanto mais para jovens adultos que ainda têm a vida um bocado instável e que não têm um bom rendimento. Para uma pessoa da minha idade, arranjar uma casa no centro é um bocado impossível”, lamenta. 

O problema de encontrar habitação a preços financeiramente suportáveis afeta muitos jovens e Luís Archer não é exceção. Na altura em que se mudou para Lisboa, não foi fácil arranjar casa, além dos problemas burocráticos associados. “Os inquilinos têm muita dificuldade em negociar e muitos dos proprietários não fazem contrato. É péssimo para os inquilinos e para os pais de universitários que, em regra, pagam as rendas. Não podem deduzir no IRS. Acho que isso devia ser resolvido”, defende.

Joana Margarida Fialho // 8ª Colina.

Sara Nunes destaca os elevados preços das rendas: “Para um quarto são 400 euros e a partilhar a casa de banho. Como é que é possível? Pode ter mais acessibilidade, mas temos de usar transportes. Nem sequer teremos garagem. Esse é o problema máximo”. A jovem explica toda a logística envolvida no ato simples de levar as compras para casa. Como vive numa rua estreita de um só sentido, os carros têm de esperar que ela tire as compras do veículo e as coloque dentro do prédio e só depois é que estaciona. Tem de ir a pé para casa e subir dois lances de escadas com os sacos das compras. Sara não vê nos subúrbios uma opção para encontrar casa, porque mesmo aí os preços estão, diz, “super inflacionados”. A única solução que encontra é ir viver para outras regiões de Portugal.

Um dos grandes defeitos que Afonso identifica em Lisboa é também o aumento dos preços das rendas. “Se não morasse com os meus pais e se não estivesse em Lisboa, ia tentar encontrar residências e não conseguiria”, confessa. 

 

Lisboa, a cidade dos turistas

“O turismo era de mais.” É assim que Sara Nunes olhava para este setor antes da pandemia. Apesar de considerar importante para a economia do país, sente que quem vive na cidade não conseguia sequer passear: “Lembro-me de ir à Baixa e de parecer que estava numa fila de uma discoteca.” Além disso, recorda que já nem os próprios comerciantes usavam a língua portuguesa: “Às vezes, ficava mesmo chateada porque as pessoas das lojas e dos cafés falavam comigo em inglês. Calma, eu sou portuguesa. Falo português. Estou em Portugal.” Contudo, agora olha para Lisboa com estranheza: “A cidade está vazia.”

Joana Margarida Fialho // 8ª Colina.

O crescimento do turismo que se verificava antes da pandemia não era um problema para Afonso, embora diga que o mal está na “forma como se faz.” Sugere até que se podia “divulgar mais as cidades satélite.” Assim, os turistas podem “utilizar mais os transportes públicos para facilitar a vida de quem trabalha na cidade.”

Luís Archer indica todas as vantagens que, no seu entender, este setor traz à capital: “É uma mais-valia. Tudo aquilo que coloque dinheiro a circular na economia é uma mais-valia. Claro que o turismo tem de ser sustentado, equilibrado e regulado, mas acho fundamental para Lisboa.”

 

Falta da higienização das ruas 

O advogado natural do Porto destaca ainda quais os aspetos os próximos autarcas eleitos deveriam ter em conta para melhorar a cidade, desde a limpeza e higienização da capital até à requalificação de certos espaços: “Lisboa é muito desorganizada e, por vezes, pouco limpa. Isso contrasta com o Porto, que é precisamente o contrário. O autarca vai ter de olhar para a cidade como um todo e não apenas para o eixo Campo GrandeTerreiro do Paço”, afirma.

Sara Nunes nota também muita sujidade nas ruas da cidade, mas admite que nem tudo é culpa da autarquia, já que “as pessoas atiram lixo para o chão ou pela janela”. Quanto à reciclagem, confessa que a maior parte dos vizinhos: “O ecoponto é longe. Por isso, ninguém faz a reciclagem aqui. Quando o camião do lixo vem, ouve-se garrafas e plástico. Está tudo naquele contentor e vai tudo para o mesmo sítio. Portanto, as pessoas têm zero preocupação com isso.” Se existisse um ecoponto mais perto e alguma sensibilização, a jovem acredita que talvez se começasse a instituir esse hábito nos moradores. 

A importância do voto dos jovens

Sobre as eleições, Luís Archer deixa um conselho aos jovens que não gostam de política e que não estão a pensar votar no próximo dia 26 de setembro: “Vendo que algo está mal, podem aproveitar estes espaços para criticar o estado da cidade, da vila, da freguesia, de tudo o resto.” E dirige uma mensagem ao próprio Governo: “Cabe aos políticos incentivar a mobilização jovem. Mas, neste momento, como não acontece, cabe aos jovens interessarem-se por si mesmos.”

Maria Montalvão vai votar nestas autárquicas. Como ressalva: “Se temos o direito de votar, devemos usá-lo. Não podemos faltar ao voto e queixarmo-nos dos problemas. Temos de fazer a nossa parte. A nossa parte é ir votar. Portanto, façam-no.” 

Afonso Noronha destaca também a relevância do voto: “É importante votar nem que seja em branco. Foi isso que os meus pais me incutiram.” Apela ainda a que todas as pessoas que se mobilizem nesse sentido: “É um direito, uma obrigação. Alguém conseguiu isso por nós.”

Sara Nunes não hesita em dizer que vai votar. “Claro que o meu voto pode não mudar nada, mas se pensarmos todos assim, ninguém vota e ninguém muda nada”, sublinha. Ainda por cima, é um gesto que considera simples: “É facílimo ir votar. Não custa nada. Vais ali e fazes uma cruz, seja em branco, seja na pessoa que consideras pior ou melhor. É a tua opinião. Se ninguém der a opinião, nada vai mudar”. Sara Nunes olha para a abstenção da população como “preguiça de participar no mundo.”

 

Capa por Joana Melo.

Fotografias por Joana Margarida Fialho e João Cília, com edição de Leonardo Lopes.

Artigo revisto por Andreia Custódio.

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