Less is “Moore”

Quem sabe quem é o Capitão Charles Moore conhece-o como o descobridor de uma ilha de plástico no Oceano Pacífico com mais de um milhão e meio de quilómetros quadrados, um espaço onde Portugal caberia 17 vezes. Aproveitando a oportunidade de o ouvir numa palestra sobre o impacto do plástico no planeta, a convite da Escola Superior de Comunicação Social, no dia 8 de maio, conversámos com o americano que em 1997 começou por encontrar um amontoado de plástico, que o sustinha mesmo de pé, como se de uma jangada se tratasse. Mais tarde, nesse mesmo ano, enquanto navegava, Moore encontrou uma ilha com quase três vezes o tamanho do Estado do Texas – o “Great Pacific Garbage Patch”, uma ilha de lixo causada pelas correntes marinhas. Por esta altura, já tinha criado a “Algalita Marine Research Foundation”, uma fundação educativa e de investigação científica, focada em estudar a forma de devolver a saúde às águas do sul da Califórnia, nos Estados Unidos.

Há 20 anos que Charles Moore está à frente desta luta contra o plástico e parece cada vez mais dedicado à causa ambiental. A solução que propõe para o amontoar de lixo é lógica: “less is more”, isto é, menos consumo de matérias-primas é mais benéfico para o planeta – um mote que orienta a sua vida.

Para se apresentar aos alunos da ESCS, Charles fez questão de vestir o seu fato de capitão, todo feito de lixo que de outra forma teria ido parar ao mar. Para a entrevista, decidiu trocar as mangas feitas de sacos de plástico e o chapéu de marinheiro por uma camisola da sua fundação e um chapéu feito de plástico entrançado.

Charles Moore durante a entrevista (GUILHERME EAST)

Quem é Charles Moore? Como é que se define?

Estudei durante os anos 60, um período de guerra, e enquanto estudava química, matemática e línguas sentia que não conseguia continuar. Saí da faculdade e tornei-me ativista de rua e organizador político. É isso que sou agora. Eu era uma pessoa que estava na escola a seguir um caminho padronizado para ter um diploma de curso, mas afastei-me de tudo isso para protestar. O mesmo está a acontecer agora. Não podemos manter este comportamento de ir à escola para acabar com um diploma na mão num mundo tão poluído como este. Sinto uma grande irmandade entre homens, mulheres, crianças, adultos e estudantes, unidos no protesto contra as mudanças climáticas. Espero que comecem a pensar no problema do plástico como aquilo que ele é: uma emergência planetária.

 

De quem é a responsabilidade pelo plástico nos oceanos?

Não há inocentes. Todos somos responsáveis. Toda a gente está a poluir com a sua roupa, com aquilo que consome, com as embalagens, entre outras coisas. Mas a principal culpada desta situação é a indústria, que está a criar coisas que não podem ser recicladas, sem pensar na hipótese de se reutilizar o que se usou. Portanto, chegámos ao ponto em que estas “coisas” são enviadas para o Terceiro Mundo, onde são queimadas para fazer tofu frito. Nós [Algalita] investigámos e descobrimos que, nesses países, as aldeias estão doentes: as pessoas não vivem muito tempo e o cheiro a queimado consome a povoação inteira. É aí que o nosso lixo acaba. O lixo não está a ser reciclado porque não é reciclável.

Chega a ser inacreditável pensar num amontoado de plástico 17 vezes maior que Portugal. E que continua a aumentar. Como é que chegámos a este ponto?

O que fizemos foi criar um novo estilo de vida. Depois da II Guerra Mundial desenvolvemos “coisas sintéticas” porque durante a guerra o acesso a determinados produtos naturais básicos foi cortado. Por exemplo, não podíamos ir às Filipinas buscar bananas. A capacidade para produzir algo não degradável foi desenvolvida para que se pudesse alimentar aquilo que era uma máquina de guerra. Depois da guerra, veio a ideia de criar uma “sociedade que deita fora”. Chegou mesmo a sair um artigo numa revista que incentivava as mulheres a deitarem fora materiais que usavam no dia a dia: materiais de cozinha, por exemplo. Desta forma, poderiam ter mais tempo para os filhos em casa. Foi assim que chegámos onde estamos agora. Depois da guerra, foi dito à Humanidade que, ao consumirmos mais e ao deitarmos fora o que usamos, iríamos estimular a economia e passaríamos a ter uma vida mais conveniente. Não teríamos de nos preocupar com o “resto”. Mas o problema é que, agora, o “resto” é visível, e está a sufocar o planeta.

Plastic Ocean é o livro em que Charles Moore, com a ajuda de Cassandra Philips, conta como encontrou o “Great Pacific Garbage Patch”, em 1997. O rasto de lixo está representado no mapa. (MAGDA CRUZ/8ªCOLINA)

 

Como é que vê o papel de Portugal nesta missão, visto que o nosso país tem um extenso litoral e muitas atividades relacionadas com o mar?

Portugal tem um papel muito importante na solução deste problema. Apesar de ser um país de pequenas dimensões, tem os seus próprios recursos naturais. Os portugueses conseguem fazer grande parte da sua alimentação com produtos locais. Mais importante do que isso, Portugal tem o desejo de fazer parte da solução, da sustentabilidade. O país tem objetivos de desenvolvimento, está União Europeia, e é por isso que estamos aqui nesta conferência: porque o povo português pretende fazer parte da solução. Os portugueses demonstram diariamente que não precisam de comprar coisas provenientes de outras partes do mundo para serem felizes; demonstram que podem ser relativamente sustentáveis com os seus próprios produtos, numa economia local. Uma das chaves para a resolução deste problema é o que penso que está a acontecer em Portugal: as pessoas estão a comprar internamente.

 

Que estratégias há para resolver o problema do excesso de plástico?

 

Pensa que os países com regimes capitalistas têm efetivamente interesse em fazer as mudanças necessárias ou põem o lucro acima de tudo?

O único interesse que as nações capitalistas têm é sustentar o capitalismo, mas é o capitalismo que origina o problema. O próprio Einstein disse: “a mentalidade que cria o problema não pode ser a mentalidade que o resolve.” Mais valia ele ter dito que um sistema económico que cria um problema não o pode resolver porque está intrinsecamente ligado ao problema. O desperdício gera muito lucro para o capitalismo. As pessoas é que andam a limpar o lixo, não as companhias que fazem o plástico. Não acredito que o capitalismo possa resolver o problema. O capitalismo é extremamente poderoso e tem-se aguentado, mesmo após a sua data de validade ter expirado. E como tal estou muito pessimista. Não acredito que o sistema se possa resolver a si próprio.

Esta entrevista foi feita no dia 8 de maio, na Escola Superior de Comunicação Social, no âmbito do dia dedicado do ambiente da #SemanaEUropa, sob o título “EU também me preocupo”. 

A participação de Charles Moore na Semana da Europa contou com o apoio do projeto europeu “A Europa no Mundo”, em parceria com a CPADA (Confederação Portuguesa das Associações de Defesa do Ambiente) e a Plataforma Portuguesa das ONGD (Organizações Não Governamentais de Ambiente).

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