Liberdade (d)e Identidade

A transexualidade em Portugal

Parte II/II

Duarte: “O tempo ajudou-me a ter as certezas que eu não tinha”

Duarte tem 20 anos e é estudante de Artes Visuais e Tecnologias na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Lisboa. “Duarte” não é um nome ao acaso. Começou por pedir aos amigos que o chamassem pelo apelido, Duarte, e assim se manteve. Ainda não mudou oficialmente o nome. Há ainda quem não o aceite. No futuro quer ser professor de desenho ou de pintura, e, ao mesmo tempo, quer também ensinar Muay Thai – uma arte marcial tailandesa.

Foi com cinco anos que Duarte percebeu que havia algo de diferente nele. Sentia-se estranho ao pé dos seus amigos e não encontrava respostas para tal desconforto. Durante muitos anos, Duarte intitulava-se “maria-rapaz”. Não gosta dessa expressão, mas não tem outra para se descrever. A partir do seu sétimo ano de escolaridade, foi-se sentindo cada vez mais excluído devido “à sua forma de ser”. Tentou ser a típica rapariga que se encaixa nos padrões ditos normais da sociedade.

(João Pedro Morais / 8ª Colina)

Entre os 16 e os 17 anos, Duarte começou a questionar a sua sexualidade. Certo dia, viu um vídeo no YouTube de um rapaz transexual que despertou a sua atenção. Se, por um lado, aquele vídeo lhe causou alguma confusão – pois na altura não sabia o que era a transexualidade –, por outro lado, identificou-se bastante com ele, o que o assustou. A dúvida permaneceu consigo, tentando, no entanto, empurrar esse assunto para o fundo da sua cabeça.

O seu primeiro relacionamento amoroso foi com uma rapariga que não aceitou a sua transexualidade. Isso fez com que Duarte voltasse a tentar ser mais feminino.

Foi em outubro de 2017 que Duarte se assumiu como transexual perante todos os seus amigos. Em dezembro do mesmo ano, falou com o pai. A transexualidade de Duarte não era algo de que o seu pai estivesse à espera. Duarte confessa que a reação foi, provavelmente, a que muitos pais têm: ficou confuso e sem saber o que dizer.

Contrariamente, o jovem nunca contou à mãe. A mãe descobriu através das redes sociais e de familiares. “E correu muito mal. Correu mesmo muito mal”, recorda. Não se lembra do dia em que a mãe o abordou sobre o assunto. Aliás, confessa que grande parte das conversas que teve com a sua mãe estão apagadas da sua memória.

Durante muito tempo, a mãe de Duarte não conseguiu lidar bem com o assunto. Agora, tendo a certeza de que o filho é mesmo transexual, só quer que ele faça a transição quando já for independente. “É tudo uma questão de tempo, principalmente para os pais que não aceitam a transexualidade dos filhos.”

“As crianças conseguem ser muito cruéis.” Devido à sua maneira de ser, Duarte sempre sofreu bullying. Recorda-se de, na escola primária, querer jogar futebol com uma amiga, chegar ao campo e ser maltratado pelos rapazes, apenas por ser do sexo oposto. No entanto, esta é apenas uma das muitas histórias partilhadas por Duarte.

Difícil foi, também, o tempo em que Duarte reprimiu a sua identidade, impedindo-se de ser aquilo que desejava: confessa que cresceu com muita negatividade à sua volta e, por isso, durante algum tempo foi mais fácil esconder-se “do que ir contra toda a gente”. “Todo o tempo que eu me demorei a assumir ajudou-me a ter as certezas que eu não tinha.

 

O papel da AMPLOS nas questões LGBTI

A AMPLOS é uma associação de pais e mães que luta pela liberdade de orientação sexual e identidade de género. Os associados são familiares de pessoas LGBTI – como Manuela Ferreira, que conheceu esta associação há nove anos e que a ela agora preside.

(Ana Narciso / 8ª Colina)

“O nosso trabalho é fundamental. Banalizamos estas questões e fazemos com que as famílias consigam ser mais felizes, aceitando todos os seus membros da mesma forma.”

A associação foi fundada por Margarida Faria e pelo seu marido, Paulo, quando confrontados com a homossexualidade da filha. Na altura, defrontaram-se com o problema de não existir nenhuma associação que unisse os pais que passavam pela mesma situação. “Fez-se luz à Margarida e ela percebeu que era muito importante os pais poderem falar sobre estas questões e perceberem que não estão sozinhos”, conta Manuela.

A Amplos, para além de ter sede em Lisboa, tem um núcleo no Porto. Na Madeira, conta com uma associada que presta apoio aos pais que o precisem. A associação organiza encontros de pais, com uma regularidade incerta, tendo em conta as necessidades e prioridades dos intervenientes. Os encontros realizados pela Amplos são momentos de exposição de possíveis angústias e dúvidas, de partilhas e, sobretudo, de empatia entre os pais. Estes momentos são marcados pela segurança e confidencialidade, tão essenciais.

Atualmente, a Amplos realiza maioritariamente encontros de pais de pessoas trans, uma vez que é o que está a ser mais solicitado à associação, realizando um encontro por mês. Para além disso, a associação presta atendimentos personalizados aos pais que não se sintam à vontade a falar em público, ou que não tenham disponibilidade para marcarem presença nos encontros.

Para tratar das questões de expressão de género, foram lançados, no dia 24 de outubro de 2019, com o apoio da Câmara Municipal de Odivelas, dois livros-guia feitos em parceria com o IAC – Instituto de Apoio à Criança. Um deles é destinado aos profissionais de educação, e o outro aos pais de crianças de expressão de género diversa. “Não estão a ensinar nada a ninguém. Estão a chamar a atenção para certas coisas”, refere Manuela acerca dos guias.

A presidente explica que a associação não luta pelos “filhos”. Luta, sim, ao lado destes: “É muito importante que eles tenham um suporte”.

“Quanto melhor os pais estiverem com eles próprios, melhor conseguem apoiar os filhos”

Segundo a presidente, os pais que procuram a associação são aqueles que já têm “vontade de dar o passo”. Para Manuela, é importante que todos os pais, quando confrontados com a orientação sexual ou a identidade de género de um filho, lhe transmitam que “aquela informação é só mais uma característica do filho”.

Muitos pais chegam à associação com um grande sentimento de culpa. “O que é que eu fiz de errado?”, “onde é que eu falhei?” e “terei educado mal este filho?” são algumas das perguntas cujas respostas estes pais mais procuram.

Os nove anos que Manuela esteve na Amplos representam anos de estruturação e de histórias “de uma beleza muito grande”. A associação fê-la crescer não só enquanto cidadã, mas essencialmente enquanto pessoa. Para além disto, a presidente reforça que é essencial que todos nós cresçamos e aprendamos com os outros. A Amplos permitiu que Manuela tivesse a consciência de que há certas coisas que não estão bem e todos nós temos de lutar pela sua melhoria.

A orientação sexual e a identidade de género não são uma escolha. “Uma pessoa no seu juízo perfeito não iria escolher o caminho mais tortuoso, em que pode sofrer discriminação e em que pode sofrer abandono por parte da família.

“Muitas vezes, o jovem luta consigo próprio porque sabe que há um peso muito grande da sociedade.” Manuela ainda tem esperança de que as gerações futuras não partam do pressuposto de que os seus filho tenham de ser heterossexuais. É fundamental começar a esbater desde muito cedo, nas escolas, os estereótipos de género. “Se estes forem esbatidos, a criança passa a estar mais confortável com o que sente. Não pensa que é diferente e que isso faz dela algum tipo de aberração.”

Manuela, alguns dias antes, ouviu a seguinte frase: “Tudo acaba bem, e quando não está bem é porque ainda não acabou”. Passou a considerá-la um lema de vida, sobre o qual todos devemos pensar.

Ilustração da capa por: Maria Kurgy

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