Liberdade (d)e Identidade

A transexualidade em Portugal

Parte I/II

“Género” ou “sexo”? Estas palavras significam a mesma coisa? Não exatamente. A primeira prende-se com a identidade e a outra com a natureza de alguém. Ambas caracterizam uma pessoa utilizando os mesmos adjetivos: “masculino”, “feminino” ou “indeterminado”. Mas uma pessoa nem sempre faz pares de palavras iguais. Alguém que nasça do sexo feminino não tem de ser obrigatoriamente do género feminino. E vice-versa.

O Parlamento português, fortemente criticado por uns e aplaudido por outros, tem feito um esforço em prol desta liberdade de identidade: desde o dia 8 de agosto de 2018, a lei de identidade de género permite o direito à autodeterminação da identidade e expressão de género e a mudança da menção do nome e do sexo no registo civil a partir dos 16 anos. Aos menores, é exigido um relatório médico que ateste a vontade dos mesmos.

Pouco mais de um ano depois, o Despacho n.º 7247/ 2019 estabeleceu medidas administrativas que as escolas devem adotar para a efetivação da lei antes mencionada. Entre as medidas estipuladas encontramos a promoção da não-discriminação; o desenvolvimento de mecanismos de deteção de situações de risco e de intervenção nesses casos; a criação de condições para uma proteção adequada da identidade e expressão de género e das características sexuais das crianças e dos jovens; e a formação destinada a docentes e demais profissionais.

Alexandre e Isabel: A Antropologia da Dúvida

(João Pedro Morais / 8ª Colina)

Alexandre Real tem 20 anos, está no terceiro ano do curso de Antropologia da FCSH, e é um jovem transexual. Nasceu no corpo errado – no corpo de uma mulher. Sempre julgou gostar de rapazes, tendo tido vários relacionamentos heterossexuais. Eram também várias as inseguranças com o seu corpo: não conseguia despir-se à frente de ninguém e não conseguia suportar o toque das pessoas na sua pele. Nesses momentos, interrogava-se sobre o que se passava.

Um dia, o jovem, prestes a completar os seus 16 anos, contou ao primo o que lhe acontecia nas relações sexuais e, consequentemente, este contou à irmã de Alexandre. “A minha irmã chorou várias horas, porque ela tinha um amigo transexual que contava exatamente a mesma história.” Naquele momento, começou a duvidar de si mesmo e do que se passava ou não se passava com ele. Precisava de tempo para si e para refletir. Sabia que havia algo de diferente em si, mas nunca pensou que fosse transexual. Aliás, Alexandre acrescenta que nem sabia o que isso era. No mesmo dia, a irmã do jovem partilhou com a mãe, Isabel Rodrigues, o que acabara de lhe ser revelado.

(Ana Francisca Jones / 8ª Colina)

A decisão imediata de Isabel, quando a filha lhe revelou pelo que o irmão estava a passar, foi contactar a ILGA – Intervenção Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo. Desta forma, Alexandre passou a ser acompanhado por uma psicóloga da associação que já tinha trabalhado com vários transexuais.

Alexandre passou a ser seguido no Hospital Júlio de Matos. Aos 18 anos mudou de nome e iniciou o processo. Foi encaminhado para o Hospital Universitário de Coimbra, e é lá que está a ser seguido neste momento. Aguarda a vez na fila de espera para as operações que deseja realizar.

Em Coimbra localiza-se o único hospital público no país que realiza operações de mudança de sexo. As pessoas que aqui acorrem podem viver na outra ponta do país – este é o único sítio em Portugal onde têm a possibilidade de realizar estas intervenções sem custos. No sistema privado, as cirurgias ultrapassam, cada uma, os quatro dígitos.

Com o intuito de um dia poder ter filhos biológicos, Alexandre optou por congelar os seus óvulos. Contudo, isto exigiu alguma persistência: foram vários os hospitais que se recusaram a fazê-lo. Isabel acabou por contactar o Hospital Garcia de Horta, em Almada, que realizou o desejo do jovem, apesar de nunca o ter feito antes. “Há lá uma médica espetacular que disse que nunca se tinha deparado com aquilo naquele hospital, mas prometeu que o ia fazer”, conta a mãe de Alexandre.

Nem todos os transexuais querem ser operados, e esta é uma escolha de cada um. Alexandre pretende fazer todas as intervenções cirúrgicas, que são três: mastectomia (supressão completa dos seios), histerotomia (extração do útero) e faloplastia (construção do pénis).

Segundo Isabel, socialmente as pessoas aceitam melhor a transexualidade feminina do que a masculina. As razões são físicas: a transição é mais difícil e fisicamente nota-se. A mãe de Alexandre reforça, ainda, a ideia de que existe muita falta de informação e de conhecimento sobre o tema.

Alexandre confessa que nunca se sentiu especialmente discriminado, apesar de ter vivido alguns episódios desagradáveis enquanto trabalhava na cadeia de restaurantes McDonald’s:

Acima de tudo, o processo de Alexandre foi e é marcado pela sua forma de ver as coisas positivamente. Foram mais os acontecimentos que o marcaram pelo lado bom do que aqueles que deixaram marcas negativas. Os amigos de Alexandre e a sua antiga namorada foram o seu maior apoio. Foram essenciais: apoiaram-no em tudo e defenderam-no. Se alguém se enganava no género de Alexandre, eles corrigiam-no de imediato.




Lucas e António: “Se fosse uma escolha, ninguém a escolhia”

(João Pedro Morais / 8ª Colina)

Lucas, um estudante da Escola Artística António Arroio, é um rapaz transexual de 15 anos. Adora a natureza, gosta de sítios calmos e ambiciona ser fotógrafo. Quer também abraçar o ativismo, sobretudo para defender a causa transexual.

“Por muito que agora já tenhamos leis que são a nosso favor, isso não é praticamente nada. Ainda nos faltam muitos direitos básicos.”
Lucas

Aos quatro anos, Lucas já dizia aos seus pais que era um rapaz como todos os outros. Através da Internet, e especificamente do YouTube, enquanto crescia cruzou-se com várias histórias de pessoas trans, e percebeu que a transexualidade existia. Isso fê-lo pensar: “Será que eu sou? Não, eu não quero ser. É muito complicado. São hormonas, são cirurgias, é assumir. Não, eu não quero fazer isso. […] Depois apercebi-me de que não é uma escolha. Se fosse uma escolha, ninguém a escolhia.”

(Ana Narciso / 8ª Colina)

Após várias tentativas de conversa, António, o pai de Lucas, tomou conhecimento da situação do seu filho. Sentia que o filho tinha alguma dificuldade em falar com ele, por isso decidiu ser ele a dar o primeiro passo. Lucas preparou-se para essa conversa durante dois anos. Investigou e tentou ter certezas, mas nunca tinha tido. António confessa que, por um lado, já estava à espera – “eu notava que havia alguma ligação à comunidade LGBTI.” Começou a ver bandeiras em casa e o filho começou a ir a marchas, a eventos…

O processo de Lucas começou com ajuda da médica de família, a quem António o levou. “Ela não me pareceu totalmente à vontade com a situação, mas resolveu o problema”, conta António. A médica de família, em julho do ano passado, encaminhou Lucas para o hospital Júlio de Matos. O período de espera é longo: a primeira consulta só se realizou em fevereiro deste ano. “Isto são processos que demoram tempo, às vezes anos.”

Quando Lucas foi contar à avó materna que era um rapaz trans e que queria ser tratado por ‘Lucas’, a reação da avó foi inesperada: “Então, eu tenho um gato chamado Luca; agora tenho um neto com um nome parecido!” Lucas acrescenta ainda que a sua avó materna foi a pessoa que melhor reagiu: “Ela não fez perguntas”.

Quanto à avó paterna, foi António quem lhe explicou a situação. Quando lhe disseram que o jovem queria ser tratado por Lucas, a avó pediu uma caneta para apontar o nome, de modo a não se esquecer. Agora, cada vez que a avó paterna o vê, mete a mão no bolso do robe em busca do papel com o nome do neto, para não se enganar.

Mesmo frequentando uma escola que Lucas considera aberta e liberal, o preconceito e a discriminação também ali existem. É o caso de um dos seus professores, que tinha o hábito de dividir as equipas para as atividades físicas em grupos de rapazes e de raparigas, e punha sempre um colega de Lucas, também ele transexual, na equipa incorreta. No entanto, Lucas já se cruzou com professores com atitudes diferentes. Exemplo disso é o professor que, logo na primeira aula, ainda antes de começar a realizar a chamada, perguntou se alguém na sala queria ser tratado por outro nome.

António considera que a sociedade ainda não sabe lidar com o assunto, sobretudo porque existe uma certa falta de conhecimento sobre ele. O pai de Lucas tem esperança de que a sociedade esteja a caminhar no bom sentido – no sentido da aceitação da diferença.

Lucas sente-se uma pessoa diferente desde a sua própria aceitação: “Eu sempre senti uma melancolia. As pessoas olhavam para mim e não viam aquele brilho nos olhos. Estava sempre no meu canto, sempre muito fechado; não falava muito com os outros. Agora já me dizem que a primeira impressão que têm de mim é a de que sou uma pessoa que está sempre a sorrir, que está sempre a fazer piadas, que alegra o dia dos outros. E é verdade! Eu sinto-me muito melhor. Sinto-me eu. Quando estou naqueles dias mais tristes, olho para trás e penso como, na altura, eu queria tanto estar como estou agora. Gostava de ter percebido logo que não havia nada de errado em mim.”

Ilustração de capa por: Maria Kurgy

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Scroll to Top