Lisboa: menina e moça, amada e revivalista

O velho torna-se novo

No Atelier Autêntico, Ruth e Sérgio pegam em mobília antiga e estragada e dão-lhe uma nova vida. Muitas das peças que chegam à oficina são autênticas relíquias e contam já muitos anos de história. Mas, por algum motivo, tiveram o seu quinhão de negligência e tinham o aterro como quase rumo certo. A missão é dar “um novo rosto” aos móveis antigos, concedendo-lhes uma nova oportunidade na decoração de um novo espaço.

O jovem casal conheceu-se, em 2009, por terras de sua Majestade, onde Ruth trabalhava como designer gráfica e Sérgio no setor da hotelaria, Viviam em Londres, uma das cidades de sonho para muita gente, mas ambos sentiam que precisavam de um desafio. “Queríamos fazer algo mais criativo com as nossas vidas e trabalhar em algo que nos desse mais liberdade”, revela Sérgio Costa. Sem planos definidos, compraram uma casa antiga em Mafra e regressaram a Portugal. Era preciso restaurar a casa e depois decorá-la a rigor. A mobília do apartamento de Londres não era suficiente e foi necessário ir à procura de mais. A recuperação de “algumas peças que estavam na casa e de outras compradas em lojas de segunda-mão” foi o ponto de partida de uma jornada como restauradores de mobiliário vintage.

“Inicialmente isto não era para ser o negócio principal, era só para ser uma loja online. Algo que trabalhássemos em casa, mas tendo outra profissão”, recorda Sérgio. Inesperadamente, o rumo do Atelier Autêntico revelou-se maior do que a ideia inicial dos dois empresários. A falta de espaço em casa para guardar as peças obrigou o casal a pensar numa solução. Um armazém ou uma loja no centro da cidade de Lisboa? Ruth e Sérgio decidiram apostar na segunda opção e, desta forma, o Atelier Autêntico surgia como um negócio sério na vida dos jovens empreendedores. “Era para ser uma coisa pequenina, apenas uma experiência, mas acabou por se tornar num grande negócio. Não é bem um «grande» negócio, mas tornou-se bem maior do que alguma vez imaginamos”, esclarece o restaurador, entre sorrisos.

“O interesse de amigos, familiares, designers e clientes foi muito positivo” e o projeto foi crescendo. Cresceu tanto, que, atualmente, a loja está a ficar saturada e sem espaço para as peças, obrigando Ruth e Sérgio a pensarem noutro local. Querem que a loja seja “um espaço aberto e flexível”, onde possam ocorrer eventos como concertos e desfiles de moda.

Localizada no Beco da Rosa, na baixa lisboeta, a loja do Atelier Autêntico é um cantinho de arte pura, mas não só. Em tudo o que fazem, Sérgio e Ruth regem-se por valores que tornam este negócio ainda mais distinto. Na restauração dos móveis e na conceção de produtos dão “especial atenção aos detalhes, à perícia, ao design e à qualidade”. Sérgio refere os valores principais: “ser o mais ecológicos possível, através da restauração da mobília, da utilização de tintas à base leite e giz, da utilização de ceras ecológicas e do reaproveitamento de materiais”. Para além disto, a dupla restauradora pretende também apoiar e promover a indústria portuguesa, tentando adquirir os materiais para os seus produtos em Portugal. Ainda não cumprem este princípio a cem por cento, pois quando se trata de encontrar mobília ainda têm que procurar no estrangeiro. No entanto, Sérgio garante: “nós queremos comprar e investir aqui”.

E é por aqui que vão divulgando o seu trabalho, apesar de já terem vendido peças para os Estados Unidos e Hong Kong. Têm todo o tipo de clientes. “Metade do negócio são clientes comerciais, como restaurantes, hotéis e designers. Os restantes 50% são uma variedade”, afirma Sérgio. Desde clientes que entram pela primeira vez na loja e compram peças pequenas, a lisboetas que moram na Lapa ou na Graça e querem decorar as casas antigas ou até mesmo ingleses que moram no Algarve e em Cascais. A maior parte chegam à loja e conhecem o Atelier através das redes sociais. “Estamos muito ativos no Facebook, no Instagram e no Pinterest. São ferramentas eficazes, onde o marketing é muito fácil”, refere.

Revivalistas, Ruth e Sérgio são o exemplo de como a partir de uma pequena ideia se pode criar um negócio rentável e distinto e, por isso, não perdem uma oportunidade de o divulgar. A presença no Vintage Festival, que decorreu na Feira Internacional de Lisboa (FIL), é a prova disso mesmo.

[slideshow_deploy id=’28764′]

Recordar o passado

Um festival vintage com tudo a que o público tem direito a recordar de tempos idos: música, moda, dança, gastronomia, mostras de carros e motas, decoração e muito mais. Em 2013 foi o ano zero deste evento, uma espécie de teste aos lisboetas, que passaram com distinção. Mostraram que se interessam por esta área e por este tipo de produtos, provando que Lisboa é uma cidade revivalista.

Jorge Oliveira, diretor do evento, explica a necessidade de criar o Vintage Festival. “É uma área que está a crescer muito rapidamente por vários fenómenos e é um tipo de produto e evento que casa muito bem com as características da FIL. O ano passado arriscamos, foi o ano zero, e este ano concretizamos a primeira edição do evento já com um figurino bastante próximo daquilo que pretendemos”. Um festival que conjuga dois elementos fundamentais: “uma componente forte de exposição, das lojas que vêm cá expor e vender os seu produtos e de animação constante, presente ao nível da música, das concentrações de automóveis e motas”, descreve o diretor.

De quinze expositores no ano zero, o número aumentou exponencialmente para 70 no presente ano. Com um número tão expressivo e pelo carinho que o público tem pelo vintage, Jorge Oliveira não tem qualquer dúvida de que este evento “tem tudo para que nos próximos anos possa crescer ainda mais, visto que há uma diversidade muito grande neste setor”.

Em permanente contacto com as empresas de produtos vintage, o diretor do festival descreve o modelo de negócio das mesmas. “São projetos que não envolvem grandes investimentos de capital, pequenos negócios individuais que acabaram por ter sucesso”. A grande maioria são jovens, como a Ruth e o Sérgio, que apostaram nas suas ideias. “Está mais do que provado que o público gosta, daí que os jovens sintam o apelo para esta área, pois vêm aqui uma série de oportunidades de interagir com o mercado e criar o seu próprio negócio”, explica Jorge Oliveira.

Arriscam sem medo, lutam pelas suas ideias e concretizam. São “empreendedores por natureza, o motor do país”, afirma Jorge com clareza.

O sucesso do evento é evidente e o resultado final superou as expectativas da organização. Nos três dias em que decorreu o festival, passaram pela FIL cerca de 50 mil visitantes. “Uma conjugação entre o grande público que aprecia estes produtos e o público purista que adotou o vintage como estilo de vida”, assinala Jorge Oliveira. Por isto mesmo, o diretor do Vintage Festival não tem dúvidas ao considerar Lisboa “uma cidade revivalista”, onde valorizar o que se herdou do passado é uma constante. Ayres Gonçalo é um bom exemplo disso, pois aprendeu a arte da alfaiataria com o seu avô.

Alfaiates de geração em geração

É no atelier que se situa na Rua Rodrigues Sampaio, em Lisboa, que Ayres Gonçalo exerce a arte de alfaiataria que foi aprendendo a amar desde pequeno. Crescido no seio de uma família tradicional de alfaiates, teve no avô, Ayres Carneiro da Silva – considerado um dos melhores alfaiates portugueses – a maior inspiração.

A cidade das sete colinas não é a casa original de Ayres Gonçalo. Nascido e criado na cidade do Porto, o jovem alfaiate correu o mundo para aprender esta arte pela qual se apaixonou ainda na adolescência.

Em 2004, com vinte e um anos, decidiu partir numa aventura pelo estrangeiro para aprender mais sobre alfaiataria. A primeira paragem foi em Madrid, onde tirou um curso sobre corte na Sociedad de Sastres de España para melhorar a sua técnica. Dois anos depois, rumou à capital britânica, onde trabalhou em Savile Row. Nesta famosa rua londrina, encontram-se alguns dos mais prestigiados alfaiates do mundo.

Ainda em Londres, viveu um dos momentos mais importantes da sua carreira: fez um fato para o Príncipe Carlos. “Já contei essa história mil e uma vezes e posso contar mais mil e uma. Sei que vou ter oitenta anos e ainda vou contar essa história”, diz. Desde pequeno que admirava o estilo da figura real britânica e, por isso, fazer um fato para o Príncipe Carlos foi o concretizar de um sonho. “Recordo-me que quando o vi pela primeira vez, as minhas mãos tremiam”, lembra Ayres Gonçalo o momento em que esteve pela primeira vez com a figura real. Por esta altura, os media portugueses focaram todas as atenções no português de sucesso em Londres. O seu trabalho como alfaiate ganhava o devido reconhecimento.

Em 2010, seguiu para Nova Iorque onde reforçou a sua experiência e ainda conquistou a oportunidade de trabalhar em Hong Kong. “Um dia numa viagem, decidi que estava na altura de parar esta aventura pelo mundo para regressar ao meu país e iniciar uma nova etapa”, recorda. “A minha ideia sempre foi aprender fora para aplicar em Portugal”.

Voltou ao Porto e abriu o ateliêr, onde a clientela é totalmente diferente do que costumava ser. “Antigamente não havia pronto-a-vestir e toda a gente ia ao alfaiate”, explica. Com o passar do tempo, a escassez destes profissionais fez com que se desse mais valor à profissão e só uma elite se manteve fiel.

Ayres foi criando o percurso profissional à sua maneira, apesar de nem sempre acreditarem nele. “Fui a única pessoa da família que seguiu a arte do meu avô. Ele dizia-me que não era para mim, que não ia conseguir, mas a minha vontade era imensa e a melhor coisa que fiz foi ter saído do país na altura certa”. Duvidou no início, mas hoje em dia o sente um grande orgulho no ofício do neto e é presença assídua no ateliêr. “É ele que desbloqueia os grandes problemas”, confessa o neto.

No início de 2014, dez anos depois de ter iniciado esta aventura, o alfaiate chega à capital. Depois de conquistar a clientela portuense, o jovem alfaiate decidiu dar o próximo passo e expandir o seu trabalho até Lisboa, onde os principais clientes são “homens de negócios e advogados, que procuram fatos exclusivos”. Conjugando os dois ateliers, no Porto e em Lisboa, Ayres Gonçalo vive rodeado de agulhas, linhais e bustos e desdobra-se para criar modelos exclusivos para ilustres do Porto e de Lisboa.

Apesar de toda a paixão que sente pela profissão, admite que ser alfaiate não é fácil. “Não se aprende em três, quatro anos e só com persistência se consegue ter futuro nesta profissão”, esclarece Ayres Gonçalo, que bem jovem decidiu o que queria fazer na vida, não baixando os braços até o conseguir. Uma característica inerente à geração empreendedora portuguesa.

Empreendedores, porventura salvadores

Para Paulo Faustino, analista financeiro na Media XXI, há, em Portugal, uma nova geração de jovens empresários capaz de fazer a diferença num país em crise. “Acredito que esta nova geração de empreendedores vai dar a volta ao país, pois tem uma perspetiva mais global do negócio e menos provinciana”, afirma.

Apesar de ainda haver um défice de empreendedorismo em Portugal, o também professor universitário admite que o país tem dado “passos de gigante neste aspeto nos últimos quatro anos”. O valor elevado de impostos não ajuda ao investimento, mas, mesmo assim, os jovens parecem não ter medo de arriscar. “Os jovens têm uma visão mais alargada e ambicionam um carácter exportador para o seu negócio. As gerações anteriores ambicionavam com 30 ou 40 anos trabalhar para uma grande empresa, para o Estado ou para um banco. Agora tal não é possível e, por isso, obriga os jovens a procurarem outras soluções. E criatividade não falta em Portugal!”, declara sem dúvidas.

Na área vintage, tal como Jorge Oliveira afirmou, a maioria das empresas são dirigidas por jovens. Paulo Faustino não consegue garantir que a tendência vintage seja para ficar. No entanto, consegue explicar o apelo dos jovens por este tipo de produtos. “Como não tiveram contacto, há uma tentativa de descoberta. Por exemplo no mundo da música, existem jovens a relançar o formato de disco de vinil e como pequenos empresários interessam-se cada vez mais pelo consumidor do vintage. Isto acontece também porque é uma oportunidade de redescobrirem produtos que foram hábitos de compra dos pais”. Com o crescimento deste tipo de negócios surgiu um novo conceito: o “retro-marketing”, que consiste na valorização de produtos que se usaram no passado. O analista financeiro revela a fórmula mágica destes jovens empresários: “o segredo do sucesso de alguns negócios é a conjugação da tecnologia com a mão-de-obra humana”.

Para comprovar o interesse do público em produtos vintage, Paulo Faustino fala do consumo de discos de vinil em Inglaterra que, no ano passado, superou o consumo de CD. As pessoas gostam e não são só aquelas que já consumiram estes produtos em décadas passadas. Os jovens também são revivalistas.

Estranha, mas entranha-se

Salomé Esteves entrou no mundo do vintage por curiosidade e estranhou o conceito, mas agora não quer outra coisa. Cliente assídua na loja «A outra face da lua», Salomé compra peças de roupa em segunda-mão para rechear o seu guarda-fatos e marcar a diferença a nível do estilo. “Gosto de comprar roupa vintage porque são peças únicas, que mais ninguém tem. Mas também porque gosto desse imaginário dos anos 50 e 60, do rock’n roll”, explica.

Peças distintas, autênticas relíquias que Salomé tem o privilégio de usar no dia-a-dia. Para além do conceito da moda, quando olha ao espelho sente-se bem. “Os vestidos são rodados e cintados. São peças que foram feitas tendo muito mais em conta a proporção do corpo e normalmente fica tudo muito bem. É vestuário muito bem feito e que, mesmo comprado em segunda-mão, tenho a certeza que vai durar muitos anos”, conta.

Não houve dificuldades em encontrar lojas deste género e, para além disso, segundo a estudante, é fácil de gostar “do ambiente e dos produtos”. A tendência está claramente a difundir-se e para a jovem de 20 anos é fundamental que tal aconteça. “Lisboa é, sem dúvida, uma cidade revivalista e um exemplo a seguir. Não só na moda, mas na cultura, na literatura e até nos eventos se reflete isso. Por exemplo, nos últimos anos, existe muita afluência a feiras de antiguidades e de alfarrabistas que todas as semanas se realizam na Avenida da Liberdade”, comenta. Para Salomé este é um hábito que não se deve perder, uma vez que “é bom aprender a reutilizar, seja o que for”.

Cidade empreendedora e revivalista

Capital de Portugal, Lisboa é por natureza uma cidade multicultural, cosmopolita e ao mesmo tempo tradicional. É capaz de albergar em si o melhor de todos os mundos.

O Revivalismo, enquanto modelo de negócio, é ainda um movimento recente em no nosso país. Sérgio Costa do Atelier Autêntico confirma isso mesmo, dando o exemplo da capital britânica. “Este tipo de negócio ou estilo já lá existe há muito tempo e não é novidade nenhuma. Mas em Portugal considero que seja porque muitas pessoas chegam à loja e ficam fascinadas”, revela o jovem empresário.

Ouvir falar em revivalismo não é só pensar no passado. Jorge Oliveira, diretor do Vintage Festival, explica o apelo que as pessoas sentem em relação ao revivalismo. “É ir buscar à nossa cultura e às nossas raízes coisas boas, que nos permitem lançar coisas para o futuro. O vintage não é uma mostra de produtos antigos, é muito mais do que isso. Os produtos são criados agora, são novos, mas com inspiração em produtos e ideias passadas”, comenta.

Por ser a sede de negócios inovadores, criativos e empreendedores, Lisboa torna-se também uma cidade de atração para empresários estrangeiros “Há muitos investidores estrangeiros a vir para Portugal, especialmente para Lisboa. É uma cidade com vida, com qualidade e, por isso, não podemos negligenciar o que de bom temos”, sublinha o analista Paulo Faustino.

Como diz o sabido verso no fado célebre na voz de Carlos do Carmo, Lisboa é menina e moça amada. Mas, é também revivalista.

Texto: Ana Sofia Figueiredo

 

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top