LIVROS | Falta de Provas

Quando Wendy Thines, jornalista e pivô do programa onde apanha criminosos sexuais em flagrante, se torna a peça chave na condenação de Dan Mercer, acredita que está a trazer um pedófilo à justiça e a cumprir a sua missão. E quando Haley McQuaid, uma jovem de dezassete anos, desaparece do dia para a noite, todas as suspeitas recaem sobre Dan. Contudo, poucas coisas são o que aparentam, e à medida que novos dados forem chegando à investigação, a certeza de Wendy no seu trabalho será posta em causa, e ela começará a questionar se não terá levado à condenação de um homem inocente.

Este é um livro maravilhoso para um jornalista. Não se deve apenas ao facto de a protagonista pertencer a esta profissão, embora isso seja um elemento importante. É mais fácil para quem lê identificar-se com os personagens quando eles têm realidades minimamente semelhantes às suas, e, no caso dos jornalistas, será muito mais fácil compreender as motivações e opções que Wendy toma ao longo da história. Contudo, acima disso, está a investigação, que dá início à trama, e que capta de imediato a curiosidade daqueles que têm como missão trazer a verdade à tona, e que os mantém agarrados até ao fim.

A premissa não podia ser mais simples: uma adolescente aparentemente perfeita desaparece do dia para a noite. A família dá pela sua falta, alerta a Polícia e tem início a busca que se prolonga, sem resultados, por três angustiantes meses. Como em centenas de casos semelhantes, não há pistas, como se Haley se tivesse esfumado no ar ou sido engolida pela terra. O detetive contratado pela família, Frank Tremont, não tem tido a melhor das sortes nos últimos casos que tem tentando resolver, por isso encara este como a sua última oportunidade para limpar o seu nome e prestígio antes de se reformar, mas também não consegue descobrir nada sobre o paradeiro de Haley. Ao mesmo tempo, desenrola-se o caso de Dan Mercer: treinador de uma equipa de lacrosse para jovens carenciados, ele parece apenas um bem-feitor, até que um telefonema misterioso o leva a uma casa desconhecida para se encontrar com uma rapariga que lhe pediu socorro, e acaba por ser encurralado pelas câmaras, microfones e luzes do programa de Wendy Thines, e passa a ser considerado por todos como pedófilo.

Desde o primeiro instante, a dúvida está presente: “será que é mesmo assim?”, “será que é esta a verdade?”, “será que é ele culpado?”. Depressa se percebe que o autor gosta de brincar com as expectativas dos leitores, e as voltas e reviravoltas são constantes. Quando se começa a acreditar na inocência ou bons motivos de algum personagem, Coben revela algo sobre ele que prova erradas as teorias que se estavam a tecer, e que deixa apenas uma certeza: ninguém é completamente bom ou mau. Não há branco nem preto, apenas cinzento, e todos os personagens – desde a protagonista, que não é uma heroína perfeita, àqueles que vão sendo considerados os vilões, se é que se lhes pode atribuir essa designação – estão todos nesta área mista. Como o autor afirma, “queres pôr as pessoas em categorias restritas, fazer delas monstros ou anjos, mas quase nunca funciona assim. Funciona numa área cinzenta, e sinceramente é uma treta. Os extremos são tão mais fáceis”.

Além das temáticas da pedofilia e da adolescência, o autor também explora as relações familiares em diferentes perspetivas e em diferentes fases da vida, os modos como diferentes pessoas encaram a morte e chegam a questionar as leis da religião e da sociedade, o poder do perdão e ainda um tema que se torna cada vez mais relevante à luz da atualidade: o cyberbullying e como as mentiras contadas online podem afetar a vida real de quem se vê apanhado nelas.

Um bom policial é aquele que não revela o segredo de imediato. Um ótimo policial, como este, é aquele em que os leitores estão até às últimas páginas à espera de o descobrir. Se todas as pistas começarem a ser dadas logo de início, e se tornar óbvio onde vão dar, a leitura perde a piada, porque se sabe o que se encontrará no fim. Harlan Coben consegue fazer o oposto em Falta de Provas: até ao derradeiro momento, está-se numa dúvida constante sobre se será aquele o final ou se ainda resta alguma mudança que deixe os olhos arregalados e os queixos descaídos de surpresa.

Fica o aviso: as surpresas vão estar presentes até ao fim.

Texto: Jéssica Rocha

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