Maen Machlah: de Alepo à ESCS

Maen tem 27 anos e foi há dois que chegou a Portugal, depois de ter de fugir do seu país. Vivia em Alepo, na Síria. De repente, tudo mudou. Numa conversa descontraída, Maen relembra-nos a importância de darmos valor à vida e de aproveitarmos cada dia que temos.

A sorte no azar

Tinha 18 anos. Vivia a vida normal de um estudante universitário em Alepo, no norte da Síria – a cidade mais populosa e de maiores dimensões do país. O seu futuro estava planeado: pretendia terminar o curso de Engenharia Elétrica e Eletrónica na Universidade de Alepo e, mais tarde, encontrar trabalho na sua cidade. Mas de repente as bombas, os snipers e a guerra chegaram ao seu país. Tudo mudou. De um momento para o outro, a cidade começou a ser bombardeada; viam-se soldados nas ruas e ninguém fazia ideia do que se estava a passar.

O dia a dia em Alepo não era fácil. Esteve três meses fechado em casa; não havia nada para fazer. Não havia uma rotina certa. Os dias eram passados na esperança de não haver bombardeamentos ou lutas na rua. Os habitantes da cidade esperavam também que houvesse eletricidade para poderem carregar os telemóveis, uma forma de se tentarem entreter durante uns minutos enquanto estavam fechados. Quando os bombardeamentos eram demasiados perigosos, refugiavam-se na cave do apartamento, juntamente com todos os vizinhos. Ficavam lá horas à espera de que aquele barulho ensurdecedor acabasse para poderem voltar às suas casas. “Não posso dizer que me sentisse em baixo ou estivesse deprimido; era mais do que isso. Os dias eram noites. Não podíamos sequer abrir as janelas. Não havia eletricidade nem água, muitas vezes nem comida. Para termos o que comer, tínhamos de esperar 24 horas na fila de uma padaria e, no final, apenas podíamos trazer um saco com oito pedaços de pão. A padaria só abria uma vez por semana, por isso o pouco que nos era permitido trazer tinha de ser suficiente. Durante este tempo ficava em casa. Tentava dormir, mas, especialmente à noite, o barulho das bombas tornava-o muito difícil.” Uma bomba emite dois sons: primeiro no seu lançamento, e depois quando atinge o alvo. Após o primeiro, o coração apertava-se.

Escapou muitas vezes à morte. Houve um episódio em especial que diz que não vai esquecer. Era de noite. Foi até à varanda, como fazia algumas vezes para tentar apanhar ar e observar o que estava a acontecer à sua volta. Ouviu o primeiro dos dois sons e, de repente, só viu uma luz ofuscante a passar à sua frente. A bomba atingiu a casa dos seus vizinhos.

(DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Não queria sair do seu país; não tinha sequer pensado nisso. Foram os pais que chegaram a casa com os bilhetes para ele e o irmão, Nour, saírem da guerra. Era arriscado ficar ali, sair de casa ou ir à escola. Não sabe como estaria hoje se lá tivesse ficado, mas separar-se da família foi uma decisão bastante difícil. À pressa, preparou uma mala com algumas peças de roupa e um pequeno álbum com fotografias, dele e da família, datadas da sua infância. Não sabia quando poderia voltar a casa, nem o estado em que as coisas iriam estar quando essa oportunidade chegasse, por isso levou com ele o que coubesse numa pequena mala de viagem.

O momento que mais o marcou foi a viagem para o aeroporto. No dia 29 de março de 2012, os seus pais colocaram-se em perigo para que ele e o irmão pudessem sair dali. “Não se via ninguém nas ruas, nem sequer animais. Parecia tudo um filme. Estava tudo destruído. Do nada, vimos um laser vermelho apontado ao nosso carro, e o meu pai só teve tempo de pôr o pé no acelerador e tentar tirar-nos dali o mais rápido possível.” Conseguiram chegar ao aeroporto a tempo de apanhar o avião, felizmente, pois foi o último avião que saiu de Alepo até aos dias de hoje.

Começou a viagem

A viagem marcada levou-o para o Líbano, a oeste da Síria. O plano era encontrarem-se todos em Inglaterra. O seu pai já lá morava e trabalhava antes de a guerra começar. Os pais foram de carro para Beirute e depois conseguiram seguir para Inglaterra. A viagem de carro até Beirute era algo que faziam várias vezes, mas tornou-se muito perigosa com a chegada do conflito.

Começaram por se candidatar a um visto, documento necessário para se conseguir a autorização de entrada e permanência num país estrangeiro. Não esperavam que lhes fosse recusado. Tinham todos os documentos necessários e antes da guerra podiam viajar livremente. Tentaram por duas vezes; em nenhuma delas lho concederam.

Mantiveram-se no Líbano durante um ano, mas tinham de sair de lá. A situação não era muito melhor do que em Alepo. Continuava a não ser seguro. Não pensaram muito mais: foram para a Turquia – o país mais perto que não pedia visto. Lá, tentaram candidatar-se a inúmeras bolsas de estudo por toda a Europa. Sem êxito. Em 2013, Portugal surgiu como hipótese de destino, através da Plataforma Global de Apoio a Estudantes Sírios, liderada pelo antigo Presidente da República Jorge Sampaio. O seu irmão foi aceite, mas Maen não obteve qualquer resposta. A ida do irmão não foi fácil. Tinham estado sempre juntos desde o início e agora, do nada, Maen estava sozinho. Ficou na Turquia por mais quatro anos. Voltou a tentar, e foi apenas à terceira tentativa que foi aceite em Portugal.

(DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

A chegada a Portugal

A primeira impressão que Maen teve deste país foi a de as pessoas serem especialmente amorosas e prestáveis. Já tinha alguns amigos portugueses e foi aí que sentiu um maior apoio. “As pessoas são simples e levam uma vida igualmente simples. Há aqui alguma coisa especial, que me relembra o meu país.”

Neste momento, Maen está no primeiro ano da licenciatura em Audiovisual e Multimédia da Escola Superior de Comunicação Social, em Benfica. Durante todos estes anos em que esteve a tentar “assentar”, o que mais queria era continuar a estudar. Admite que o curso nem sempre é fácil, pelo facto de as aulas serem maioritariamente em português. Já teve até alguns problemas com a entrega de trabalhos por não perceber a língua e pelo facto de não ter materiais disponíveis em inglês. A língua portuguesa não é nada fácil de aprender, mas Maen está a esforçar-se para o fazer. João Abreu, professor coordenador do curso de Audiovisual e Multimédia, confirma esta dificuldade: “Para os alunos que não dominam a língua portuguesa, é sempre mais difícil acompanhar os conteúdos lecionados.” De acordo com o professor, apesar das dificuldades, Maen está integrado na turma e tem tido um bom desempenho nos trabalhos realizados até este momento.

Maen sente-se bem em Portugal, apesar de duas ou três situações menos boas. Sem querer referir nomes ou lugares específicos, contou-nos que houve um episódio em que estava a almoçar com um colega e foi interrompido por um comentário menos bom: “Vai para o teu país”. Não quis discutir e informou a dona do comentário de que estava aqui com um objetivo: terminar os estudos, porque não o conseguia fazer lá. Disse que não era refugiado nem sem-abrigo. Estava cá a estudar, a trabalhar e a pagar exatamente o mesmo que ela. Claro que preferia estar na sua casa, no seu país, mas não tivera outra solução senão a de o abandonar.

Maen pede às pessoas para se colocarem no lugar dos que, como ele, tiveram de abandonar a sua casa, a sua família, os seus amigos, e muito mais. Tudo para poderem ter um futuro. “Ninguém abandona o seu país de ânimo leve. Ir para outro país sem saber o que esperar não é tarefa fácil. Não sabem aquilo por que estas pessoas passaram para chegarem onde estão hoje. Coloquem-se apenas no lugar delas antes de fazerem comentários desprezíveis.”

E o futuro?

Admite que ainda não parou muito para pensar nisso. Antes de tudo acontecer, tinha um plano, que de repente se tornou inviável. Hoje só quer terminar o curso que está a tirar. Se vai ficar por Portugal depois? Não sabe. Se vai trabalhar para fora? Não sabe. A única coisa que agora sabe é que tem de viver um dia de cada vez e dar valor à oportunidade que teve.

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