Mancha Laranja: o desporto na ESCS

Aqui não há grandes audiências, nem grandes pavilhões; não há prémios milionários ou salários chorudos. Por vezes, nem há camisolas para jogar. Há alunos universitários, acabados de vir das aulas ou prestes a ir para elas, que durante cerca de 60 minutos disputam, como podem e como sabem, uma partida que lhes pode valer muitos louros entre os colegas no dia seguinte. Talvez até uma imperial paga pelos amigos, orgulhosos pelo ponto decisivo ou pelo golo marcado no minuto final. Entre treinos em pavilhões com infiltrações, jogos às dez da noite e competição em pisos alcatroados, muito há para dizer deste tipo de prática desportiva. O 8ª Colina acompanhou as duas equipas coletivas da ESCS – Futsal Masculino e Voleibol Feminino – durante um mês, para saber mais sobre este nicho do desporto em Portugal.

“Elas não têm equipamentos?”, pergunta um aluno da ESCS ao ver as jogadoras da equipa de voleibol entrar em campo com coletes de treino cor de laranja e t-shirts brancas por baixo. Na verdade, até têm, mas só há seis camisolas – insuficientes para as oito atletas que representam a equipa.

Depois dos típicos exercícios de aquecimento, o início do jogo atrasa-se porque o árbitro tem de explicar ao delegado de desporto da Associação de Estudantes da ESCS (AE ESCS) como é que se preenche a ficha de jogo. Sentada com ele está a fotógrafa do 8ª Colina, que já praticou voleibol e pode ajudá-lo na complexa tarefa.

(NÚRIA SERENO/8ª COLINA)

O jogo começa.

As jogadoras da AE ESCS parecem desconfortáveis no início da partida. Não é algo surpreendente. Afinal de contas, no último mês apenas tiveram um treino. A treinadora vai dando indicações no banco, mas está dividida entre orientar as atletas e dar ajuda ao delegado de desporto, que já começa a perceber as nuances do preenchimento da ficha. Infelizmente, o primeiro set é perdido (25-18).

Troca-se de campo. “Andreia, a tua mãe ligou-te”, diz um dos adeptos, que estava a guardar o telemóvel de Andreia, o número três da equipa. A treinadora motiva as jogadoras, dá mais instruções e lança-as novamente para a quadra. Há alterações na equipa, porque, afinal de contas, toda a gente tem de jogar. Deslocar-se à Cidade Universitária às 19h, após um dia de aulas e com mais aulas no dia seguinte, é um esforço que merece ser recompensado com minutos em campo. As coisas, desta vez, já correm melhor, e a equipa consegue levar o jogo ao terceiro e decisivo set.

A recuperação, porém, não foi suficiente, e a Universidade Lusíada acaba por vencer a partida. Para a história fica o primeiro set ganho esta época. “Quando é que é o próximo treino?”, pergunta uma jogadora. “Ainda temos de ver quando é que todas podem”, responde a treinadora.

Abandonam o Pavilhão 1 da Cidade Universitária em grupos, e o delegado de desporto leva o saco das bolas no seu carro, assim como os coletes que tinham servido de camisolas improvisadas.

Captações

O número de modalidades coletivas na ESCS é reduzido, mas já é o dobro das que havia no ano letivo passado: nessa altura, foi constituída apenas a equipa de futsal masculino. No que toca ao voleibol, houve só um treino, num campo de futsal exterior. Andreia Jesus, de quem já falámos nesta reportagem, estava presente.

"Éramos cinco. Então estivemos só lá a dar uns toques e a falar."

Andreia Jesus, aluno do 2º ano de Jornalismo

Com apenas cinco jogadoras, era impossível constituir uma equipa, e a ideia foi abandonada. Em novembro de 2018, porém, recomeçou a construção da equipa de voleibol. A organização foi diferente, e foi contratada uma treinadora para dar a orientação necessária às jogadoras, algumas das quais nunca tinham praticado voleibol a nível federado nem de desporto escolar. Margarida Silva já tinha sido técnica da equipa da AE ESCS, no ano letivo de 2016/2017, mas não guarda boas memórias daquela que foi a sua primeira experiência no desporto universitário: “Não havia pessoas para treinar nem para jogar. Ainda começámos com oito ou nove, mas depois foram abandonando.” Apesar de considerar que a equipa de 2017 era melhor tecnicamente, sente que esta tem mais potencial:

“Temos um grupo com muito compromisso, e acho que é por isso que a equipa tem dado pequenos passos.”

Margarida Silva, treinadora de vólei da AE ESCS

Ainda assim, no início de abril, já com uma mão cheia de partidas disputadas, a equipa ainda não tinha conquistado a sua primeira vitória.

A treinadora, Maggie (GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

Maggie, como é conhecida, até nem gostava de voleibol, mas hoje não se vê a fazer outra coisa, mesmo que a vida já a tenha tentado afastar da quadra. Começou a jogar aos onze anos, por sugestão de uma professora de Educação Física.“Havia muitas jogadoras que estavam no 12.º ano e iam sair. Ela insistiu e eu lá fui experimentar um treino. Quando dei por mim, já queria praticar todos os dias.” O gosto, aliado ao talento que os treinadores viam nela, levaram-na além do Desporto Escolar. Um ano e meio depois de ir, contrariada, àquele primeiro treino, ingressava no voleibol federado, pela Lusófona. Fala com carinho daquela que considerava então uma “família”, num clube inteiramente dedicado ao vólei.

Mas este percurso, inesperado para a Margarida de onze anos, ainda teria outro desvio. Dois, aliás, chamados displasia da tróclea e subluxação externa da rótula. Começou a sentir dores fortes nas pernas. Mas isso não a fez parar; pelo menos não logo. Entre tratamentos e consultas, não conseguia largar o desporto pelo qual se apaixonara.“No último ano, já fazia fisioterapia de manhã para poder treinar à noite. Não é vida para ninguém.”

Um problema inesperado fê-la antecipar uma solução em que já tinha pensado.

“Sempre disse que quando parasse de jogar – que eu achava que ia ser lá para os 60 anos – logo tirava o curso e começava a ser treinadora.”

Margarida Silva, treinadora de vólei da AE ESCS

Não foi com 60, mas com 21 anos que Margarida começou o seu percurso como treinadora adjunta na Lusófona, onde esteve dois anos. Através da Faculdade de Direito e da ESCS, ingressou no Desporto Universitário, e hoje treina também as Iniciadas de Voleibol Feminino do Sporting CP. Mas a carreira como jogadora não foi para o balneário; ficou no banco. Depois da operação ao joelho, chegou a jogar, no fim da época passada, pela equipa do Sporting. Este ano está parada, para poder voltar mais segura e sem risco de reincidências. Joga ocasionalmente num campeonato com outros ex-federados, muitos deles veteranos que, treinando uma ou duas vezes por semana, mantêm viva a paixão pelo voleibol. Para Margarida, o importante é estar ligada à modalidade, e espera voltar a vestir as joelheiras já na próxima época.

Dentro da quadra

(GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

O contacto do 8ª Colina com a equipa de futsal começa uns dias depois. São nove horas da noite e há encontro marcado na Cidade Universitária, num campo exterior alcatroado. O descontentamento com estas condições é visível entre os jogadores.

Começam os típicos exercícios de aquecimento. Ricardo, o treinador, vai orientando os seus jogadores enquanto espera ansiosamente pelo delegado de desporto. Este ainda está a acabar de jantar no Burger King, ao pé do Estádio Universitário. Uma situação inconveniente, pois é ele que tem os coletes para dar aos jogadores, que ficam sentados no banco. Sem estas peças de roupa, a equipa não pode entrar em campo.

A equipa adversária, a Associação de Estudantes da Universidade Lusíada de Lisboa (AEULL), chega com 15 minutos de atraso. Lá fora, um ex-jogador da AE ESCS diz: “Já joguei com aquele grandalhão. É bom, mas perde a cabeça facilmente.” Chega então o delegado de desporto, com os tão desejados coletes. Ricardo recebe-os e dá-os a sete jogadores, que assim sabem que estão fora do cinco inicial, e terão de começar o jogo no banco.

As equipas alinham-se perante a dúzia de adeptos, amigos ou familiares, que estão em pé, junto às grades, a assistir. Segundos depois, tem início a partida. Quem também está deste lado da grade é Ricardo. É de fora que ele vai dando as instruções aos atletas, pois os regulamentos não permitem ao treinador estar dentro do ringue de jogo.

A partida é, como em tantos outros casos no desporto universitário, disputada mais com o coração do que com a cabeça. Os jogadores dão o corpo a cada disputa de bola e a intensidade é sempre amplificada pelo alcatrão que espera qualquer homem que acabe por cair.

Ao intervalo, a equipa da AEULL vence por 4-1. Nada está perdido: no futsal, três golos de diferença são recuperáveis. A segunda parte, infelizmente, perde qualidade. Mais faltas, mais provocações e menos futsal. Ambas as equipas se mostram de cabeça quente, e Ricardo ainda pede um desconto de tempo para poder falar com os seus jogadores:“Já passámos da fase em que nos mandamos uns aos outros para o caralho”, diz o treinador.

A AE ESCS regressa ao jogo, mas não a tempo de recuperar, e acaba com uma derrota por 5-2.

Os jogadores de laranja juntam-se no meio do campo, agora vazio, e Ricardo deixa mais umas palavras à equipa. Dão o grito de guerra e vão para casa.

(GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

Apesar do desaire, a equipa segue para a segunda fase, que será jogada na quinta-feira da mesma semana.

Ricardo, o homem que gritava do outro lado do gradeamento, teve de fazer um longo percurso até chegar aqui. Um caminho que já o levou do Alentejo ao Reino Unido, e hoje o trouxe a este piso alcatroado no Estádio Universitário.

É licenciado em Desporto e desde sempre esteve ligado ao futebol. Trabalhou no departamento de observação de jogadores de dois grandes clubes portugueses e já treinou várias equipas de formação, incluindo o Foxes FC, no Oeste de Londres. Hoje, concilia o seu trabalho de observação no FC Porto com a posição de técnico de futsal na AE ESCS, que, apesar de ser remunerada, não deixa de considerar um hobby.

(RICARDO CORREIA)

Ricardo é um dos elementos fulcrais da mudança na equipa de futsal. Era necessário proporcionar uma liderança aos jogadores, que antes eram treinados por outros alunos da ESCS. A contratação de alguém com experiência foi uma forma de assumir claramente o objetivo: a subida à primeira divisão.

Amigos, amigos...

Quer seja um hobby ou não, ambos os treinadores são pagos para desempenharem os seus cargos. Miguel Carrilho, aluno do segundo ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial e atual delegado de desporto da AE ESCS, explicou ao 8ª Colina o processo de negociação do contrato. “É a AE que paga. Os valores foram acordados numa reunião que eu, o presidente da AE [Luís Braya] e cada um dos treinadores tivemos. No início de cada mês fazemos a transferência para a conta do treinador.”

E o dinheiro? Esse vem do Instituto para o Desporto e a Juventude(IPDJ), do Instituto Politécnico de Lisboa (IPL) e da ESCS. À conversa com Luís Braya, este dá-nos uma ideia geral dos valores em causa, afirmando que a maior parte vem do IPDJ. Mas este Instituto apenas financia, pelo que tem de ser a AE a comprar os materiais, as bolas, etc. Apenas nos equipamentos é que têm a ajuda do IPL, que, mesmo assim, falhou este ano. Apesar do encargo financeiro, as contratações destes treinadores, quer de voleibol quer de futsal, fazem parte do projeto de Luís.

“Pedimos ajuda a pessoas externas, para os atletas poderem sentir que estão em algo mais competitivo, mais sério, para sentirem que não estão só ali a brincar. São outros objetivos coletivos e pessoais que os jogadores acabam por ter, a par dos estudos.”

Luís Braya, aluno do 3.º ano de Audiovisual e Multimédia e Presidente da AE ESCS

“Braya”, como é conhecido, também já foi jogador de futsal na AE ESCS. E viveu algumas destas dificuldades por dentro: “Este ano, por já ter participado na equipa, tive a noção de que havia algumas lacunas que só quem estava lá dentro conhecia, como o material para os treinos, a marcação dos treinos, etc. Porque acaba sempre por desmotivar uma equipa ter treinos cancelados à ultima hora. A nível do material, precisávamos de um novo kit médico, por exemplo. São pequenas coisas que acabam por fazer a diferença.”

Luís Braya na tomada de posse da AE ESCS (GABCOM)

“Esta já jogou na seleção”

“Então mas temos de ser nós a montar as redes?”, pergunta a capitã de equipa da AE ESCS. “Sim, porque de acordo com a ficha de jogo são vocês a equipa da casa”, responde um representante da Associação Desportiva do Ensino Superior de Lisboa (ADESL), que se encontra a acompanhar a partida. Depois de alguma indecisão, é o representante que vai buscar a rede e a vai montar no campo que, até cerca de 15 minutos antes, servia um grupo de jovens que praticavam basquetebol.

As jogadoras vão aquecendo sob o olhar de Margarida, que, já habituada a estas andanças, fez questão de ir ter com a árbitra para começar a preencher a ficha de jogo. Seguem-se momentos de tensão quando os coletes, que hoje irão servir (novamente) como equipamentos improvisados, demoram a chegar. Finalmente, lá aparecem. São verdes, em vez do típico laranja, e são apenas sete, insuficientes para as oito atletas. A árbitra acaba por dar o braço a torcer. “Essa jogadora joga de t-shirt branca e fica com o número 1 na ficha de jogo.” Afinal de contas, não convinha à juíza da partida estar ali muito tempo. “Vamos despachar. Tenho teste amanhã de manhã”, diz ela, que também é aluna universitária.

Aquecimentos feitos. Treinadoras no banco. O jogo está prestes a começar.

E, 46 minutos depois, termina. A AE ESCS perde os dois sets, por isso não haverá um terceiro. A equipa da Universidade Europeia superiorizou-se às raparigas que hoje jogavam de verde. Entre os poucos adeptos nas bancadas, ouvia-se, como quem fala de um mito urbano:

“Aquela número seis da Europeia joga na Seleção Nacional”;
“Aquela ali já foi federada na Lusófona.”

Um encontro díspar, talvez, mas no desporto universitário é mesmo assim.

A razão pela qual a número seis da equipa da AEUE podejogar prende-se com as diferentes regras do desporto feminino. Ao contrário do que acontece com os homens, muitos clubes femininos permitem às suas atletas competirem fora do circuito profissional. Margarida conhece bem esta faceta do desporto: “Mas a maior parte dos treinadores já proíbe. E acho bem, porque acho que o universitário deve ser uma coisa e o federado outra. Aqui o espírito é muito mais tranquilo: vens para aqui para descontrair um pouco, e isso pode levar a uma lesão que prejudique a época. Mas tens muitas jogadoras que estão aqui e os treinadores não sabem.” Isto, geralmente, traduz-se num nível competitivo superior no desporto feminino universitário, mas também num desnível maior.“Não sei se deveria ser permitido jogadoras federadas jogarem no [desporto] universitário. Por um lado, é uma forma de dar mais competitividade aos campeonatos. Por outro lado, é uma roleta russa: se fores olhar para as equipas da primeira divisão, são equipas que tiveram a sorte de ter alunas que são federadas.”

“O ano passado, consegui subir com a Faculdade de Direito [FDL], e só tínhamos duas que já tinham sido federadas. Ficámos em segundo lugar, e na equipa que ficou em primeiro só duas é que não eram do [desporto] federado.”

Margarida Silva, treinadora de voleibol da AE ESCS

As opiniões das próprias jogadoras quanto a este tema dividem-se. Rita Negrinho, que até já foi federada, é contra a possibilidade de estas atletas participarem nos Campeonatos Universitários: “Devia haver restrições. Não podes ter jogadoras de seleção a jogar contra pessoas que nunca foram além do Desporto Escolar.” Raquel Dias,aluna de terceiro ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial, não partilha a opinião da sua colega de turma: “Se elas são federadas e querem participar na equipa, porquê proibir?”

Mónica Harris, aluna de segundo ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial e capitã da equipa de vólei, levanta uma questão a favor da presença de jogadoras federadas:

“Se essas jogadoras não forem para as equipas, não há equipas.”

Mónica Harris

Isto porque, em casos como o que Megui referiu, há faculdades cuja modalidade de voleibol é composta inteiramente por atletas de clubes federados. Ainda assim, tal como todas as jogadoras com quem falámos acerca do assunto, não nega o desnível criado por esta situação.

“Está mais mal organizado que o interturmas de uma escola”

A segunda fase do Campeonato não começou mal para a equipa de futsal: uma vitória por 3-1 contra a equipa da Faculdade de Arquitetura deixava-a numa boa posição para conquistar o acesso à fase final. Mas, no espaço de uma semana, muitas coisas mudaram.

Pedro Neves (Número 7) e Daniel Bala (número 6) após a derrota frente à EESTeSL. (GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

A derrota por 2-1 contra a ESTeSL foi um duro golpe para a equipa. Mas pior foi o que aconteceu no jogo seguinte.

“Sentámo-nos antes do jogo e ele [o treinador] começou por dizer que era o último dele connosco.”

Pedro Neves, aluno do 3.º ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial

No espaço de uma semana, os estudantes-atletas ficavam numa situação muito pior na classificação e, agora, viam-se sem treinador.

Mas porque é que Ricardo fez isto? Não foi por falta de condições ou de compromisso dos jogadores. Foi um fator externo: a organização. Mais precisamente, a ADESL e a forma como esta coordena os campeonatos universitários. “É mais mal organizado que o interturmas de uma escola”, diz Ricardo. Era um problema que já se vinha arrastando desde o último jogo da primeira fase, contra a Universidade Lusíada, e que chegou ao ponto de ebulição nesta partida. “Há três jogos que não nos davam uma marcação coerente. Isto é muito confrangedor para mim, por causa da minha vida profissional, e para os jogadores.Isto não é um argumento para ganharmos ou perdermos, mas é ridículo.”

Habituado a estruturas mais profissionais, Ricardo podia apontar o amadorismo da competição como o motivo da sua demissão. Mas também não é isso: “Estou em contextos profissionais, mas também já estive em clubes muito pequenos, em que é o treinador que tem de preparar o equipamento, o campo, as balizas, etc. Este não foi o contexto mais difícil em que estive, nem perto. Foi um fator em que achei que não me enquadrava, e não me deram hipóteses de lutar contra ele.”

“Como é que é possível um jogo ter três horários distintos? O senhor encarregado do pavilhão tem um horário, no site [da ADESL] está outro horário, e nos comunicados está outro horário. Isto é muito amador.”

Daniel Bala, capitão da equipa de futsal, deu-nos uma ideia do que o balneário sentiu com esta mudança. Ele, que está na equipa há três anos, conhece as razões exteriores da demissão e não guarda ressentimento: “Foi uma decisão do mister. Temos de respeitar.”

O delegado de desporto da AE ESCS foi sucinto ao falar do assunto. “Fui apanhado de surpresa, até porque ele não se dignou falar comigo”, diz Miguel Carrilho. “Mas não vale a pena falar mais disso. Desejo-lhe muita sorte.” Agora, cabe a Miguel recuperar uma época que ainda pode levar a equipa de futsal à fase final do campeonato da 2.ª divisão.

Mudanças no(s) banco(s)

(GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

A equipa de vólei alinha-se para mais um jogo,este contra a equipa da Faculdade de Medicina Dentária. Mas hoje Margarida não está no banco. Quem ocupa o seu lugar é Pedro Teixeira, aluno da ESCS. Megui não pôde estar presente e, a pedido da AE, veio o ex-atleta do voleibol do SL Benfica para dar orientação à equipa. Até hoje, muitas jogadoras nunca tinham tido qualquer contacto com ele, mas a sua experiência de quase dez anos no desporto validam-no aos olhos das atletas, que o escutam enquanto ele faz o que pode para dar rumo a um jogo que se afigura complicado.

(GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

Além do treinador, a outra novidade de hoje prende-se com os equipamentos. Pela primeira vez esta época, as jogadoras de voleibol da AE ESCS não terão de usar coletes. Mas as camisolas de hoje são pretas, e não laranja, a cor que costuma representar as equipas desta Escola. Miguel Carrilho explica esta situação. A verdade é que as camisolas que as jogadoras hoje vestem são apenas uma solução de recurso, porque os equipamentos do voleibol ainda não chegaram. “Supostamente, o IPL mandou fazê-los, mas não fazemos ideia do porquê de demorarem tanto tempo”, diz o delegado de desporto. Assim, foi o próprio IPL que enviou estas camisolas, das quais nem consta o símbolo da AE ESCS, apenas o nome.

(GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

Num papel, Pedro anota à pressa os números das jogadoras e o alinhamento inicial para dar à árbitra. O jogo começa e a história repete-se. A equipa perde o primeiro set (25-18). O treinador emprestado junta as jogadoras e tenta ser o mais realista possível: “Aquela número seis é alta; ela vai conseguir mandar bolas que vocês não vão apanhar, por isso não deixem que a bola lhe chegue.”

No segundo set, a equipa começa melhor. Chega a deter uma vantagem de 18-12. Mas segue-se uma série de pontos perdidos, alguns porque as jogadoras desconheciam as regras de posicionamento, o que levou a penalizações da árbitra. Após um final com mais qualidade, as jogadoras da AE ESCS acabam por ser vencidas (25-22). Juntam-se, dão o grito de equipa e a capitã pega no saco das bolas, para as levar para casa.

Pedro fica para falar com o 8ª Colina. Apesar do mau resultado, não ficou muito desanimado com o que viu. “O voleibol não é uma coisa que consigas aprender num ano. E não é só técnica: tens de saber onde tens de estar, tens de saber fazer a chamada, a deslocação… É muita coisa. Acho que, ainda assim, a Margarida tem feito um bom trabalho com elas.”

À porta do Estádio Universitário, concentram-se algumas jogadoras e membros da AE que vieram ver o jogo. Às 22 horas, já com poucos transportes, ainda têm de resolver a complicada questão do regresso a casa.

Depois do jogo

A deslocação, aliás, representa sempre um problemapara atletas do Desporto Universitário. Gonçalo Santos, jogador da equipa de futsal, vive em Vila Franca e já teve de faltar a vários treinos por não ter como voltar para casa.

Às vezes vou a esse treino [segunda-feira, às 22h] e outras vezes não, até porque terça-feira entro nas aulas às nove da manhã. Chegar a casa à meia noite, meia noite e meia, para depois sair às sete... é complicado.”

Gonçalo Santos, aluno do 2.º ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial

Entre as jogadoras de voleibol, o problema é o mesmo. Rita Negrinho vive em Setúbal e vê-se em apuros para conseguir apanhar os transportes depoisdas partidas.

“No último jogo, aquilo acabava às 21h30 e eu tinha comboio às 21h45. Tive de ir a correr até ao metro, e do metro à estação.”

Rita Negrinho, aluna do 3.º ano de Relações Públicas e Comunicação Empresarial

Afinal de contas, não há transporte de equipa: os atletas têm de se organizar para definir quem vai com quem, dividindo carros ou táxis. Em muitas ocasiões, aliás, foi alguém da AE, como Miguel Carrilho, que deu boleia ao repórter do 8ª Colina que estava a cobrir os jogos.

Os treinos, por exemplo, eram ocasionalmente realizados entre a 22 e as 23 horas, o que dificultava a presença dos jogadores, especialmente no início da época de futsal, em que a equipa chegou a treinar em seis pavilhões diferentes.

Miguel também nos falou desta situação, explicando que o pavilhão situado no campus do IPL, em Benfica, estava em obras, pelo que não o puderam utilizar (noutros anos, este era o local habitual de treino). Assim, durante o primeiro semestre, a equipa chegou a treinar no pavilhão da Junta de Freguesia de Benfica, em Santos, nos Olivais, etc.

“Uma das prioridades da AE foi estabelecer os treinos, as horas e onde é que se ia treinar. Foi assim que trabalhei, e quis logo estabelecer dois treinos por semana.”

Miguel Carrilho

À data da redação deste artigo, a equipa de voleibol feminino da AE ESCS acaba de conquistar a sua primeira vitória da época. Num jogo em que perderam o primeiro set, as raparigas, que nesse dia contavam com Pedro e Margarida no banco de treinador, conseguiram dar a volta ao resultado e ganhar três pontos.Pontos esses que, embora não valham a qualificação para a próxima fase, representam um sucesso assinalável para uma equipa que há um ano nem sequer existia.

A equipa de futsal, essa, teve tempo para se reconstruir depois do impacto causado pelo abandono de Ricardo. Pedro Rondão, ex-aluno da ESCS (e ex-jogador da equipa de futsal), foi escolhido para pegar no projeto. “Foi para nós a melhor aposta, depois de termos discutido várias visões sobre a equipa de futsal, e até sobre o balneário. Recolhemos informações perto dos jogadores”, disse Luís Braya. “O Rondão é um ex-atleta que já jogou ao meu lado na equipa. Era a melhor opção que tínhamos.” Na fase de transição, a AE ESCS ainda teve de fazer um jogo sem treinador. Conseguiu a passagem à terceira fase, já em formato de eliminatória, onde perdeu para a Nova IMS  nos penáltis.

(GONÇALO TABORDA/8ª COLINA)

O futuro é sempre incerto nas modalidades universitárias. Afinal de contas, não há transferências nem recrutamento de jogadores. As equipas mudam todos os anos, consoante os estudantes que entram e saem das instituições de ensino superior. Vemos uma organização inconstante e situações que têm tanto de cómico como de bizarro. Uma mistura de semiprofissionais,ex-federados e amadores, que por vezes proporciona jogos verdadeiramente emocionantes e intensos – em parte pelas cervejas que são prometidas aos atletas em caso de vitória. Vemos uma forma de desporto familiar, mas ao mesmo tempo estranha. Por, agora, as chuteiras ficam penduradas e as joelheiras voltam para a gaveta. Os livros, esses, ficam abertos, numa altura em que a época de exames se avizinha.

“Se formos apenas mais uma escola, seremos uma escola a mais”. É este o lema da ESCS. As suas equipas tentarão, na próxima época, provar que não são uma equipa a mais.

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