Manifestações na Bielorrússia

O ano de 2020 foi marcado por fortes contestações na Bielorrússia. 

O clima de inquietação começou no momento em que uma candidata forte, Svetlana Tikhanovskaya, surgiu na oposição. Svetlana tornou-se candidata após a detenção do seu marido, Sergei Tikhanovskaya, um youtuber que, além de popular, tinha uma forte opinião contra o regime. 

Não sendo o mundo político parte do seu ofício, Svetlana tornou-se uma militante eficaz em pouco tempo, apesar de não ter um discurso agressivo e de inicialmente não ter uma forte capacidade argumentativa, ao contrário do seu companheiro, o político Sergei Tikhanovskaya. Este chegou a comparar Lukashenko a uma barata, afirmando que “haveria de fazer a revolução do chinelo” matando o inseto, relembra João de Almeida Dias, jornalista do Observador, no podcast “Explicador”. Svetlana conquistou o povo bielorusso através da sua motivação, tornando-se num símbolo do descontentamento: a mulher de um candidato que vê o marido ser preso e decide procurar a mudança. Apesar de inicialmente não ter sido vista como uma ameaça para o ditador, Svetlana conseguiu juntar mais de 63.000 pessoas num comício em Minsk, a 30 de julho, e outros milhares em cidades que antes eram maioritariamente apoiantes de Lukashenko. 

A Bielorrússia é um país recente: declarou a soberania da república em 1990, enquanto ocorria o processo de dissolução da União Soviética. Aleksandr Lukashenko está no poder há 26 anos, desde 1994, quando foi eleito pela população. No podcast “Explicador”, João de Almeida Dias explica que as razões da longevidade do seu poder e do contínuo apoio da população mais velha estão relacionadas com fatores antigos que determinaram a sua ascensão, como os anos de repressão soviética ou os efeitos devastadores da Segunda Guerra Mundial – o país situa-se entre a Rússia e a Polónia e perdeu cerca de um terço da população na Guerra. Mas também contribuíram para isso os efeitos do acidente nuclear de Chernobyl, que, mesmo não tendo ocorrido no país, causou mazelas duradouras à população, dada a proximidade de Pripyat, a cidade ucraniana onde se situava a central.

Com a Rússia a ter uma onda de privatizações que favoreciam membros do antigo regime e levavam a quebras na qualidade de vida, a Bielorrússia viu no deputado Lukashenko, que ameaçava denunciar a corrupção dos membros do governo através de um conjunto de documentos que tinha obtido com provas, a solução e a fuga ao anarquismo económico. 

EPA

Pela liberdade saem à rua

No entanto, a contestação de que é alvo Lukashenko não é novidade. Segundo o jornalista João de Almeida Dias, o sistema político da Bielorrússia funciona por estações do ano. Como é referido num podcast deste jornal, onde se explica o panorama do país e a forma como se chegou à situação atual, antes das eleições ocorre a “primavera”: o clima é de liberdade e surgem diversos candidatos, que dão opção de escolha aos eleitores. A vitória eleitoral de Lukashenko traz o “inverno”: a liberdade perde-se e o tratamento torna-se frio e agressivo para aqueles que se opuseram ao presidente – os candidatos que tinham surgido são presos ou exilados e uma fatia larga dos seus opositores é detida. Após a eleição presidencial de 2010, as manifestações foram reprimidas com muita violência e vários candidatos foram presos (como é o caso de Andrei Sanikov). 

Em 2020, o “inverno” chegou mais cedo, trazendo protestos de proporções incomparáveis aos dos anos anteriores. Houve manifestações fora da capital durante vários dias consecutivos, sem que a sua dimensão diminuísse. Um dos fatores que explicam as manifestações sucessivas é a evolução das redes sociais: encontramos vídeos esporádicos de polícias e ex-polícias a queimarem a farda, enquanto gesto simbólico, ou a jurar lealdade a Svetlana Tikhanovskaya. Lukashenko tentou cortar a internet no território bielorusso, mas a ação por si não demonstrou efeitos. Desde que os protestos começaram, diversos manifestantes foram presos, Svetlana Tikhanovskaya foi exilada e milhares de opositores foram detidos pelas autoridades (apenas no dia 9 de novembro, estimam-se que foram presas mil pessoas), sendo que, segundo o CPJ (Committee to Protect Journalists), a 13 de outubro, pelo menos 49 jornalistas haviam sido detidos, estando oito ainda presos. 

 

LUSA

Quem já esteve perto

Artyom Laptev, estudante de jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social, é bielorusso. Apesar de ter vindo para Portugal ainda jovem, em 2006, foi-se apercebendo de que “a [sua] casa [estava] a arder”. Artyom voltava ao seu país frequentemente e acabou por manter contacto com amigos e família. Apesar de a sua última viagem ter sido no verão de 2017, diz que desde adolescente é possível compreender o panorama político do seu país: “Tu cresces com uma história, com uma ideologia, com uma maneira de pensar. Aos 17 anos, já era para mim mais do que evidente que aquilo não era uma democracia, mas sim uma ditadura imposta pelo governo de Lukashenko.” Lembra-se de ter feito uma pergunta sobre a política do país no café e de ter sido reprimido: “Não era um assunto para falar em público.”

Entre os contactos que Artyom mantém, as opiniões dividem-se. Os mais jovens são mais ativos, estando envolvidos nos protestos; no entanto, não têm em vista uma melhoria ou qualquer tipo de mudança. Os cidadãos mais velhos, que viveram tempos mais conturbados, durante a União Soviética e após o seu fim, têm medo de que uma alternativa a Lukashenko cause instabilidade: “As pessoas estão intrinsecamente prontas para aceitar aquilo que existe em nome da segurança e de alguma estabilidade, mesmo que isto implique estarem em condições precárias.” Um dos maiores problemas, segundo Artyom, é que, “apesar de a guerra fria ter acabado, a divisão entre ocidente e oriente continua evidente.”

 

À espera do incerto

O futuro do país está longe de estar decidido. Apesar de, segundo uma notícia de 16 de dezembro publicada pela Visão, o atual Presidente Lukashenko prometer à Assembleia do Povo Bielorrusso que vai distribuir o poder “de maneira honesta e justa, sem fugir às responsabilidades”, a verdade é que, sem uma modificação constitucional, são muitos os incrédulos. Artyom considera que a mudança pode não ser suficiente: “Se algum membro do governo de Lukashenko assumir o poder, ou alguém que mantenha a mesma mentalidade, não haverá grandes alterações. Mas receio que aquilo que ocorreu com a Ucrânia aconteça no meu país: esta oposição é desconhecida, e talvez não saiba potencializar economicamente o país.” Enquanto a situação não tem solução à vista, o receio não está apenas na continuidade da ditadura: “A liberdade é algo totalmente desconhecido para o país.”

Foto de capa: LUSA

Scroll to Top
0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap