Manuela Gonzaga: O imperativo de causas numa luta autárquica

Decidida a travar a perda de população da cidade de Lisboa, combate que transformou na principal bandeira de campanha, Manuela Gonzaga estreia-se como cabeça de lista do PAN nas eleições autárquicas de 2021. Em declarações ao 8.ª Colina, começa por explicar quem é e qual o motivo que a trouxe a esta corrida eleitoral: “Sou historiadora, fui jornalista durante mais de 30 anos e sou escritora. A política, para mim, é um imperativo de causas, sendo esse o motivo pelo qual me estou a candidatar à Câmara Municipal.”

O início de vida de Manuela Gonzaga teve lugar na cidade do Porto. Aos 12 anos, o seu percurso sofreu uma transformação determinante: a ida para África, com os seus pais. Em Moçambique, viveu um pouco por todo o lado, inclusive em regime de internato num colégio de freiras. Manuela fala com carinho sobre a aprendizagem que o grande continente lhe ofereceu. “É tão fácil conviver quando nós temos um profundo respeito pelos outros e por nós próprios. E África ensinou-me isso.”

Em Moçambique, Manuela Gonzaga teve as suas primeiras experiências profissionais. Desde cedo apaixonada pela escrita, foi-lhe oferecido um lugar num jornal moçambicano. A candidata do PAN recorda com saudade a euforia com que reagiu à oportunidade de trabalhar na área que acabou por fazer parte da sua vida durante mais de 30 anos: “Ia ser paga para fazer aquilo de que mais gostava na vida, que é escrever. O jornalismo, para mim, é como uma oficina de escrita, de pensamento e de disciplina.” É perentória em afirmar que a passagem pelo jornalismo foi uma viagem inesquecível. “Foi a coisa mais importante que me aconteceu na vida.”

Manuela começou como repórter e sobre esse início partilha um episódio curioso. “Aos jovens repórteres era atribuído o trabalho de ir à praça fazer a ‘Ronda da Praça’, uma rubrica que obrigava os jornalistas a relatar o preço dos produtos do mercado local”. Numa destas idas, Manuela Gonzaga deparou-se com umas galinhas que estavam a morrer de sede por causa do sol a pique que lhes caía em cima. “Quando cheguei ao jornal, decidi redigir uma crónica pela voz das galinhas, o que acabou por gerar uma galhofa entre os colegas mais velhos. Mas não me envergonho”, conta. Estava genuinamente solidária com as galinhas e, por essa mesma razão, não vê motivo para se sentir constrangida. 

Este envolvimento com a causa animal, bem como a defesa do ambiente, são alguns dos valores que sempre a acompanharam. “Toda a minha vida me lembro de os subscrever, de me serem familiares, sem sequer saber que tinham nome.” Assim, identificou-se facilmente com a ideologia do PAN, filiando-se em 2012. E, logo no ano seguinte, lançou-se na sua primeira corrida eleitoral para o cargo de vice-presidente da Câmara Municipal de Lisboa. 

Nessa campanha, inovou. Com o lema “a cultura é a alma de um povo”, entregou flyers que continham poemas, de Sophia de Mello Breyner a Alberto Caeiro, e distribuiu ainda marcadores de livros com receitas veganas: uma abordagem diferente numa luta desigual. “Éramos aquela meia dúzia de maluquinhos amigos dos animais. Depois, vinham as arruadas e aquela gente com bandeiras. Era quase humilhante”, recorda a candidata.

A missão de Manuela no partido continuou e, em 2014, foi convidada para ser a candidata do PAN às europeias. Viu-se obrigada a rejeitar o convite porque sentiu que “não ia ter voz”; que “ia ser engolida, ali, num coletivo de muitos países”.

No ano de 2015, o partido regozijou-se com uma das suas grandes vitórias: a entrada de um deputado para o Parlamento. “Vivi esse momento com uma alegria imensa”, lembra com um sorriso no rosto. Sensivelmente ao mesmo tempo, Manuela Gonzaga candidatou-se à Presidência da República. O facto de o PAN ter conseguido a eleição de um deputado gerava confiança para a candidatura. Todavia, houve uma falha na validação das assinaturas, impossibilitando a participação nas eleições, o que não considera um fracasso: “Valeu por tudo. Não foi tempo perdido. Foi uma janela de oportunidade na qual consegui veicular e defender o que é a ideologia do PAN.”

Em 2021, Manuela entra na luta pela Câmara Municipal de Lisboa. A candidata aponta vários problemas à cidade: “O maior é a perda de gente todos os anos.” E crítica as razões desse afastamento populacional: “A cidade é demasiado cara, não sendo gerida nem tratada como precisa de ser. Temos uma cidade que se transformou numa montra e numa espécie de centro comercial para turismo.” Com vista a solucionar o problema da migração, a cabeça de lista do PAN pela capital aposta em medidas de apoio à habitação para jovens, bem como ao aumento da segurança nas ruas – por exemplo, o reforço do policiamento ou a videovigilância.

Mas há outra grande preocupação na sua candidatura: sabendo o que o PAN representa, é inevitável pensar no ambiente. Manuela Gonzaga defende com veemência que “as casas autossuficientes têm de ser implementadas imediatamente, pois contribuem de forma decisiva para a descarbonização. Neste âmbito, também a redução do tráfego automóvel é fundamental”. A candidata sublinha a necessidade de lutar pelo ambiente e destaca ainda a importância das ciclovias. “Fomos o primeiro partido a falar de ciclovias. Agora veem-se por todo o lado, mas ainda é preciso incrementar a mobilidade suave.”

A cabeça de lista do PAN quer a cidade de Lisboa mais verde e, para o conseguir, pretende plantar mais árvores. “São a melhor invenção do mundo para limpar a atmosfera e nos fornecer oxigénio.” É com esperança que afirma que “a janela de oportunidade para impedir a catástrofe que se avizinha ainda está aberta”, mas realça que tal exige força política, energia e descomprometimento. A sua candidatura ambiciona “olhar para estas questões a fundo, com toda a atenção e empenho, com toda a criatividade e alegria”.

Foto de capa cedida pela entrevistada

Revisto por Andreia Custódio

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