Marcella: “Pelas que vieram antes de mim e pelas que virão”

A vergonha que se une ao corpo e à vida daquelas que sofrem ou sofreram às mãos de conhecidos ou desconhecidos é motivo suficiente para calar vozes de desespero. Marcella Castellano conseguiu, através de duas folhas brancas, fazer ouvir as histórias das várias vítimas de violência sexual que, unindo-se, tentam libertar-se da culpa que lhes foi coagida

A violência sexual é um tipo de violência particularmente tabu nas sociedades, resultando na ocultação de crimes sexuais (violação, abuso sexual, violência doméstica, assédio sexual, casamentos forçados e mutilação genital feminina) contra as mulheres e na subestimação dos mesmos.

Segundo o relatório anual de 2017 da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), do total das 9.176 vítimas registadas nesse ano, aproximadamente 83% eram do sexo feminino.

Fonte: APAV- Relatório anual (2017)

E dos/as 9.481 autores/as de crime, 81% eram do sexo masculino.

Fonte: APAV- Relatório anual (2017)

No seguimento dos crimes sexuais, e segundo o relatório anual de 2017,  menos de  metade das vítimas denunciou o caso. Porquê?

Marcella Castellano, de 20 anos, deu voz às vítimas de violência sexual e ajudou a reunir as razões pelas quais as mesmas calaram, e continuam a calar, a sua história.

O começo do fim do silêncio

O movimento #WhyIDindtReport nasceu nos Estados Unidos quando Christine Blasey Ford escreveu uma carta a Dianne Feinstein (uma das senadoras da Califórnia), a 30 de julho de 2018, na qual acusa o juiz Brett M. Kavanaugh, Presidente do Supremo Tribunal de Donald Trump, de abuso sexual. Christine afirmou que o juiz, quando eram adolescentes, a havia prendido a uma cama e apalpado, enquanto lhe cobria a boca para evitar gritos, que chamassem a atenção. Esta alegação, posteriormente negada pelo juiz Kavanaugh, foi também atacada por Donald Trump. O Presidente questionou o impacto físico e psicológico do acontecimento, dizendo que se o sucedido tivesse sido tão terrível como Christine alegou, a mesma teria sentido necessidade de o relatar às autoridades há 30 anos.

No seguimento das afirmações do juiz e de Trump, e como apoio a Christine Ford, várias sobreviventes de abusos sexuais reagiram, criando a nova hashtag #WhyIDidntReport para destacar as dificuldades, o medo, a raiva e a vergonha que tantas vezes envolvem o tema do assédio sexual.

21 de setembro de 2018- Este é um dos exemplos representativos do porquê de as vítimas ocultarem a sua história. Podemos ler “#WhyIDindntReport. Porque o meu pai biológico tentou violar-me quando eu tinha 14 anos. Ele era um sociopata, ocultava uma personalidade narcisista e fingia ser um pai perfeito em público. Era diácono da igreja. Ninguém teria acreditado em mim e eu sabia disso.”

Foi este o movimento que Marcella quis difundir em Portugal. “Vi fotos do movimento online há uns tempos e copiei o template com a intenção de colar as folhas nas casas de banho femininas na minha faculdade”, afirmou em conversa.

Escolheu a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, onde frequenta o curso de Línguas, Literaturas e Culturas, por acreditar que teria um grande impacto nessa comunidade. O espaço escolhido foram as casas de banho femininas pois, por um lado, nas masculinas as folhas “não seriam levadas a sério”, e, por outro, porque num espaço público a vulnerabilidade seria abafada por olhos críticos e vandalismos.

As folhas colocadas onde podemos ler os testemunhos das alunas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fonte: Instagram da Marcella: @caelaurae

As duas folhas quebraram o silêncio de quem nelas escreveu e iniciaram uma nova luta pela emancipação da mulher. O movimento, que se estendeu pelas redes sociais e que outras jovens disseram vir a adotar nas suas escolas e faculdades, possibilitou criar uma união e difundir a ideia de Marcella de que “ a vergonha não devia ser nossa”.

Tal como as outras vítimas, Marcella também tem uma história por contar. A história que começa numa típica saída à noite e que acaba numa violação.

“Demorei meses a entender porque achava que estava bêbada (apesar de só ter bebido uma cerveja) e porque eu tinha aceitado a companhia dele mais cedo naquela noite. Mas quanto mais pensava em como não fazia sentido ter-me embriagado apenas com uma cerveja e nos comportamentos predatórios que ele demonstrou durante a noite, mais duvidava do meu “consentimento” que, na verdade, foi só uma complacência intoxicada por qualquer droga que ele pôs na minha bebida.”

Marcella nunca apresentou queixa, tendo apenas partilhado o sucedido com a terapeuta e com alguns amigos. Apesar de defender que os traumas devem ficar no espaço íntimo de cada um, Marcella Castellano considera imperativo que, para que haja uma mudança, se fale deles. “Só assim podemos quebrar as nossas correntes. Seremos ouvidas.”.

A 8 de março deste ano, mulheres em todo o mundo levantaram-se em defesa dos seus direitos e marcham contra a violência, a desigualdade e os preconceitos, esperando ser ouvidas.

Albufeira, Aveiro, Braga, Coimbra, Porto, São Miguel (Açores), Viseu, Amarante, Vila real, Évora, Fundão e Covilhã foram palco não só da luta pela igualdade de géneros, como pelo direito ao voto, ao trabalho com salário, a uma sexualidade livre e responsável, à maternidade como escolha, à habitação, à educação e saúde públicas. 

Marcella esteve presente na Greve Feminista em Lisboa e também gritou. “Por mim. Por ti. Pela minha mãe. Pelas minhas futuras filhas. Pelas minhas amigas e pelas que não conheço. Pelas que vieram antes de mim e pelas que virão”, este é o seu grito de guerra.

Fonte: Facebook - Lisboa | Manifestação - Greve Feminista Internacional

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