Maria Antónia Gonçalves: O “não” está garantido, vou procurar o “sim”

Maria Antónia Gonçalves cresceu na Cova da Moura, é negra e é mulher. Tinha tudo contra si, mas conseguiu chegar ao topo da sua carreira: é hoje Diretora Comercial da Century 21 Nações III.

Aqueles que a rodeiam veem-na como fonte de inspiração e sentem-se contagiados pela sua história de vida, ambição, força de vontade e determinação. Talvez um dia, perante uma pergunta clássica, uma menina responda: “Quando for grande, quero ser como a Maria Antónia Gonçalves.”

Nasceu em Cabo Verde, mas permaneceu lá pouco tempo. Aos três anos foi morar para o Alentejo e aos 12 veio com a família para Lisboa. Assentou na Cova da Moura, um dos bairros mais problemáticos dos arredores da capital. Não esconde que foi uma adaptação complicada: “Sempre senti que aquilo não era o meu lugar.” Desde então, o seu objetivo passou a ser ganhar dinheiro para tirar de lá a família. 

A sua adolescência foi a prova de que o bullying não é uma realidade recente. Maria Antónia era bastante participativa nas aulas, pois recusava-se a ir para casa com dúvidas: “Se não percebia a matéria, questionava.” Foi assim até ao dia em que, de um canto da sala, alguém disparou: “Olha uma preta a falar alentejano!” O sentimento de vergonha foi indescritível, mas a raiva só lhe deu mais determinação para chegar o mais longe possível. “Desde pequena, achava que devia ser a melhor. Tinha a sensação de que, como era preta e as pessoas achavam que os pretos eram burros, eu tinha de ser a melhor para quebrar essa crença.” Focou-se em obter uma licenciatura e, sabendo que tecnologia era sinónimo de futuro, interessou-se pelo curso de Informática e Gestão de Empresas do ISCTE, mesmo sem nunca ter mexido num computador.

Já na faculdade, criou a Associação Cultural Luso-Africana, em conjunto com dois amigos. Queriam ajudar os jovens dos bairros sociais a reescrever o seu futuro, cientes de que, sem essa iniciativa e dadas as circunstâncias, estes estariam mais propensos a seguir por maus caminhos. Assim, em vez de ficarem horas entregues a si próprios, iam para a Associação, onde estudavam e onde podiam manter a ligação com a terra-mãe, através de atividades como, por exemplo, as danças típicas dos seus países. A Associação fazia a ligação entre a escola e os pais sem esperar nada em troca.

Atualmente, Maria Antónia desempenha o cargo de Diretora Comercial da Century 21 Nações III. (CAROLINA CAMPOS)

Maria Antónia começou a trabalhar para ajudar a pagar as contas. Aos 16 anos, acordava às 5h da manhã e ia fazer limpezas nos edifícios do Tagus Park. Recorda-se de dizer às suas irmãs que ainda ia trabalhar numa empresa dessas. Tinha razão. Mal terminou a faculdade, começou a trabalhar como consultora de sistemas de informação. Oito meses depois, sentia-se aborrecida. Fazer relatórios acerca de reuniões com diretores não era para ela. “Tinha necessidade de dominar o sistema rapidamente.”

Durante essa missão, não ficou presa a um só sítio. Os seus superiores foram-lhe sugerindo novas aventuras, cujo ponto de partida foi a sua terra natal. A partir daí, nada nem ninguém a parou. Desde ir viver sozinha para São Paulo, uma cidade cujos índices de segurança não são um ponto forte, até liderar 360 funcionários em Buenos Aires, Maria Antónia aceitou cada desafio sem sequer conhecer as condições a que estaria sujeita. Era uma mulher negra de cujas capacidades muitos duvidavam, sem nunca lhe darem o benefício da dúvida e apenas baseando-se nas suas caraterísticas. Maria Antónia parecia estar destinada ao fracasso, mas essa palavra nunca constou do seu dicionário. O machismo era uma realidade perante a qual ela nunca se vergou, mesmo quando entrava numa sala de reuniões atulhada de homens que menosprezavam o seu potencial por alegadamente fazer parte do sexo fraco. A verdade é que conseguiu provar que cada uma destas pessoas estava errada.

A experiência internacional terminou em Granada, para onde viajava à segunda-feira. À sexta, regressava a Lisboa, para estar perto da família. Nesta fase, já tinha atingido os objetivos que impôs a si própria cumprir até aos 40 anos. A sua casa estava paga na totalidade e já tinha comprado uma para a mãe: a Cova da Moura era passado. 

As circunstâncias da vida levaram a que Maria Antónia se interessasse mais pela espiritualidade, pelo desenvolvimento pessoal e pelo coaching. “Existe outra razão qualquer para estarmos aqui.” Já este mês, viajou para Londres para assistir a uma palestra de empoderamento lecionada por Tony Robbins, um guru especialista na área. Nesta sessão, caminhou, literalmente, sobre fogo. 

Numa altura de particular frenesim, Maria Antónia conheceu o seu atual marido. Da sua história de amor nasceu Matias, hoje a caminhar para os três anos. O bebé nasceu prematuro e Maria Antónia prometeu que, se corresse tudo bem, iria mudar o ritmo de vida. Assim fez.

Maria Antónia com o marido e o filho, Matias, agora com quase três anos de idade. (ANDREIA GARCIA)

Antónia foi convidada pela rede imobiliária Keller Williams (KW) para ser consultora. No início, admite, teve um certo preconceito: “Como é que se sai de diretora internacional para vender casas?” Contudo, assim que entendeu o negócio, ganhou o bichinho do imobiliário e percebeu que queria liderar pessoas pelo exemplo. Para tal, tinha de começar por baixo e provar ser a melhor. Deste modo, quando falasse com os consultores, eles reconheceriam nela essa liderança, porque falavam a mesma linguagem. “Eu gosto de ajudar as pessoas a ultrapassar os seus limites. Somos o conjunto das crenças que nos incutiram desde pequenos, mas podemos e devemos fazer tudo para superá-las.”

Um ano depois, já tinha atingido o nível mais alto do ranking da KW. Impressionados com tais conquistas, os responsáveis da Century 21 Nações convidaram-na para se tornar Diretora Comercial da sua terceira loja, em Sacavém, onde está hoje.

Uma das qualidades de Maria Antónia é o seu otimismo. Quando passa por um período mais complicado, não se permite ir abaixo, focando-se nos aspetos positivos. (CAROLINA CAMPOS)

Ninguém sabe o que o futuro tem reservado para Maria Antónia. Certo é que será algures fora da sua zona de conforto, onde nunca se sentiu à vontade. “Tudo o que não progride morre.” A estagnação é, para ela, um pesadelo. A mulher negra e cabo-verdiana que cresceu na Cova da Moura nunca deixou que as circunstâncias fossem um fator determinante da sua vida. Pelo contrário, lutou contra elas com unhas e dentes. “O ‘não’ está garantido; vou procurar o ‘sim’…” Porque não há limites para o que pode ser alcançado – há apenas desculpas para quem não quer procurar soluções.

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