Marta Laranjeira: a rapariga das ideias sem fim

Marta é uma pessoa de muitas ideias. Focar-se nelas tem sido o seu maior desafio. Algumas já se tornaram realidade, como é o caso do voluntariado, da rádio e do hip hop

Marta cresceu ao lado de uma “força da natureza”, a sua avó, que enfrentava a vida com a dose certa de teimosia, força e generosidade para se ser feliz. Estas características que Marta orgulhosamente herdou têm-na guiado ao longo de todo o seu percurso. Os seus 20 anos de existência têm-se traduzido na procura incansável de aliados para a sua vontade de ajudar os outros. Começou logo no secundário, quando encontrou a política e a história. Dois interesses que, juntamente com uma grande dose de indecisão, a levaram a escolher o curso de Ciência Política do Instituo Universitário de Lisboa. Terminado o primeiro semestre, Marta rapidamente se apercebeu de que aquilo não passava de um percalço. Faltava-lhe algo. Era a altura perfeita para fazer aquilo que sempre sonhara.

O início da aventura

Marta sabia que a sua vida teria de em algum momento passar pelo voluntariado. Era, talvez, a única certeza que tinha no meio de toda a incerteza que a rodeava. Quis começar esta nova vida com passos curtos. Inscreveu-se numa escola que lhe deu a oportunidade de acompanhar crianças durante as atividades extracurriculares, duas vezes por semana. Por vezes, até mais. Mas não era suficiente.

Marta criou uma grande ligação com as crianças (Foto gentilmente cedida por Marta Laranjeira)

Pouco tempo depois, Marta começou a planear um roteiro por África. Rapidamente foi travada pela realidade. “Fazer voluntariado internacional é muito caro”, desabafa. “Tinha de pagar vacinas, a consulta do viajante, seguros e o transporte para me irem buscar e levar ao aeroporto, porque ia para zonas de alto risco.” Teria, novamente, de dar passos curtos. Durante a sua procura por novos destinos, o acaso foi seu amigo e fez com que se cruzasse com a República Checa. O que é que lhe passou pela cabeça? A simples pergunta: “porque não?”. Depois de uma entrevista, foi-lhe pedido que escrevesse uma carta de intenções. “Acho que o que chamou muito a atenção na minha carta foi o facto de eu ter aberto o meu coração, porque o voluntariado é algo que está dentro de mim. A vontade de ajudar e de conhecer mais nasceu comigo. E eu tentei transmitir isso”, revela. Pouco tempo depois, Marta chegava à República Checa, rumo ao novo projeto que tinha à sua espera.

Voos agitados

A partida para a República Checa mostrou-se desde muito cedo uma aventura atribulada. Ao medo de andar de avião uniu-se o facto de o aeroporto de Paris, local onde iria fazer escala, estar fechado devido a uma ameaça de bomba. Foi encaminhada para um voo direto até à República Checa. Acabou por chegar ao destino sete horas antes do previsto. Depois de passar a noite no aeroporto, chegou finalmente a hora de apanhar o autocarro que a iria levar até ao seu destino.

A adaptação foi igualmente difícil. “Estava numa montanha, a dormir num estábulo, e as casas de banho eram abertas, ou seja, chovia lá dentro. Eu só pensava: que raio é que eu estou aqui a fazer?”, lembra Marta. Os dias começaram a melhorar conforme as tarefas foram distribuídas. “Com as atividades, as pessoas começaram a interagir mais. Comecei a aproximar-me de todas elas e unimo-nos por um propósito. Até porque o voluntariado é um pouco isso mesmo, a união de indivíduos por um objetivo, e isso faz com que eles se abram e se deixem conhecer.”

Na República Checa, Marta pôde estar entre pessoas de diferentes culturas enquanto cuidava das crianças (Associação “Para Onde”)

As horas começaram a parecer poucas para Marta, que começava agora a viver novas experiências. Num espaço de quinze dias aprendeu a jogar futebol, conheceu novas culturas, cuidou de trinta crianças e ajudou a construir um castelo. “Andámos a carregar tijolos e a montá-los. Passei dois dias a tirar pregos da madeira para depois a reutilizarmos, e se há coisa para a qual eu não tinha jeito nenhum era para aquilo. Perdi a conta aos pregos que espetei na minha mão.” Na memória, o que ficou de tudo foram as histórias incríveis das pessoas com quem se cruzou e a ligação que estabeleceu com as mesmas. Entre elas encontra-se um rapaz que foi vítima de um bombardeamento. Os ferimentos que sofreu deixaram-lhe a cara parcialmente desfeita. “Para mim foi uma grande vitória quando no final da experiência tirámos uma fotografia de grupo e ele aceitou entrar na foto sentado no meu colo. Foi uma das coisas que mais me emocionaram, porque ele inicialmente disse logo que não queria ser fotografado”, relembra Marta.

Marta ajudou na construção de um "castelo" (Associação “Para Onde”)

Uma experiência curta que se revelou gigante para Marta. Não só pelas amizades que pôde fazer ou pelas crianças que conseguiu ajudar, mas pelo mundo que se acabara de abrir à sua frente.

Voltar aos livros e à rotina

O regresso mostrou-se mais difícil do que a partida. As inscrições para a faculdade abriram no dia em que Marta voltou para casa e, portanto, estava na altura de tomar decisões. “Não me sentia pronta para me voltar a fechar num sítio com livros e rotinas.”, revela. Depois de ver o mundo, Marta queria mais. Mas voltar a fazer voluntariado só seria possível num futuro distante. Até lá, a sua vida seria condicionada pela sua opção entre Educação, Relações Internacionais, Estudos Africanos ou Jornalismo. A partir daqui, foi o destino que entrou em jogo. Por uma décima, Marta não calhou na sua primeira opção. E ainda bem. A ESCS, onde acabou por ficar a estudar Jornalismo, trouxe-lhe uma nova paixão e muitas mais ideias. De um momento para o outro, a rádio começou a fazer parte dos seus planos. “Ainda não desapareceu o amor pelo voluntariado, mas foi muito bom ter entrado na faculdade. As experiências são também feitas por nós e pela forma como encaramos as coisas. Seja onde for, há sempre pessoas para conhecer e mundos para partilhar. Há sempre qualquer coisa.”

Conversas de Balcão

Marta apaixonou-se muito cedo pelo género musical do hip hop. Os CDs que a tia lhe oferecia no Natal trouxeram-lhe o gosto por este movimento. “Há muita história e muita política nas rimas dos artistas.” A admiração por este submundo conjugou-se agora com o bichinho da rádio, que foi crescendo na ESCS, num programa de sua autoria, “Conversas de Balcão”, transmitido na Hip Hop Rádio. “A minha maior expetativa é que o programa chegue às pessoas. Não para eu ter fama, mas porque eu quero que elas compreendam o porquê de eu ter esta paixão, e que deem mais valor a estes artistas. No fundo, quero acabar com o preconceito. Mostrar que eles afinal não falam só da rapariga que engravidou aos 16 anos, mas também da contraceção que deve existir, dos médicos, do aborto, etc. É isso que eu quero transmitir às pessoas.”

Marta tem um programa de sua autoria onde pretende dar a conhecer artistas e pessoas relacionadas com o hip hop (Rodrigo Santos).

E quanto ao futuro? “Para o futuro eu não tenho muitas expetativas; tenho muitas ideias. Mas o meu maior desejo é saber que consegui traçar o meu caminho, não perder nada do que já consegui, juntar ainda mais e sentir que, ainda assim, nunca vou estar saciada.”