Martim Moniz: uma nova Lisboa

São 21h30 de uma quarta-feira de Outubro. Uma tela de cinema aninha-se entre 10 quiosques. Onde estamos? A adivinha não podia ser mais fácil: num Martim Moniz revitalizado, onde a animação cultural é a serventia da casa.

O pretexto para sair de casa num dia de semana é o Open Air Cinema, um ciclo de cinema ao ar livre, que acontece todas as quartas-feiras no Mercado de Fusão, mesmo na praça Martim Moniz. E, como não podia deixar de ser, gratuito – mas, calma… se associa este tipo de cinema à falta de cadeiras do Cine Lapa ou do Cine Conchas, desengane-se. Na terceira semana de Outubro, os lugares livres são mais que muitos. Na programação não consta o famoso James Bond nem o Nemo: o estilo é muito mais alternativo. O mês de Outubro é o mês dos documentários.

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Atenção: o evento não peca por falta de comparência. As esplanadas dos quiosques de comida do mundo vão enchendo à medida que os grupos de amigos se expandem, com a chegada de sucessivos “Olá! Então, tudo bem?”. É assim que nos apercebemos do sucesso da reabilitação da Mouraria – se a praça Martim Moniz não entrava no roteiro da vida noturna lisboeta, é agora um verdadeiro ponto de encontro.

A noite de 16 de Outubro recebe dois documentários de 60 minutos incluídos na série “Musicbox Club Docs”, que retrata artistas musicais e os seus trabalhos; os eleitos da noite são J.P. Simões e os Dead Combo. À hora certa, a sessão começa. Todos sentados? 1, 2, 3… Silêncio? Claro que não. A guitarra dos Dead Combo começa a ouvir-se, mas não corta a palavra a ninguém; combina-se com o ambiente pacífico da noite e a melodia as conversas dos amigos que já não se viam “há séculos!”.

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Mesmo ao fundo da plateia, estão três amigos, uma garrafa de vinho e três copos. Entre gargalhadas e bebericas, vão dando uma olhadela ao documentário. A certa altura ouve-se, no filme, Tó Trips, dos Dead Combo, dizer: “Eu acredito muito que as coisas boas vêm da rua, do convívio com as pessoas”. A frase não podia ser mais adequada. Os três amigos concordam e não dispensam uma boa saída entre velhos companheiros. É a primeira vez que vão ao Open Air Cinema e a primeira impressão é muito boa – “O que torna este espaço tão interessante é a fusão entre aquilo que era antes e o que é agora”, explica Marta Rodrigues.

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Não é só isto que torna o anfitrião Mercado de Fusão e o seu convidado Open Air Cinema tão diferentes. No ar, sente-se o espírito de comunidade, como se estivéssemos numa pequena aldeia dentro de Lisboa. Assim se abrem portas à informalidade: os pés descalços sobre as cadeiras, a comida sobre o colo e os skaters velozes. Mas aqui não há espaço para olhares repreendedores ou censuras. Sente-se, relaxe – está em Lisboa.

Porém, podemos dizer que não estamos numa Lisboa qualquer; estamos, como diz Tó Trips, no documentário, “na Lisboa das pessoas que chegam e partem”. E, sem destoar, lá vamos ouvindo a língua inglesa, francesa e alemã dos estrangeiros que vão passando, curiosos.

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Rute, dona do quiosque “Botequim”, refere isto mesmo: “As quartas-feiras são diferentes; há mais negócio, há mais vida e pessoas diferentes”. Sem dúvida que a intersecção de culturas pretende ser a imagem de marca do Mercado de Fusão.

O Open Air Cinema é mais um dos eventos gratuitos que dão vida à capital portuguesa. A verdade é que, em Lisboa, as desculpas para ficar em casa vão sendo cada vez menos, mesmo no Inverno. Não será a cidade que nunca dorme, mas, sem dúvida, deita-se tarde.

Texto e Fotografias por Maria Teresa Sousa

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