Nos passos de Saramago

Um roteiro literário para aprender como era estar no chão

Quem quiser já pode pisar a mesma terra que o nosso Nobel e aprender ao fazê-lo. O Roteiro Literário Levantado do Chão foi inaugurado em Montemor-o-Novo, no Alentejo, no dia em que o “primeiro romance” de José Saramago completou 40 anos. O 8ª Colina revela algumas paragens dos percursos que homenageiam as vidas de gente, até agora anónima, que lutou contra a repressão e que se levantou do chão por uma vida mais digna.

 Começa por ouvir um resumo deste roteiro e da sua história, como nós ouvimos:

Ainda no princípio do livro Levantado do Chão, que acaba de celebrar quatro décadas, Saramago escreve: “Todos os dias têm a sua história, um só minuto levaria anos a contar, o mínimo gesto, o descasque miudinho duma palavra, duma sílaba, dum som, para já não falar dos pensamentos, que é coisas de muito estofo”. Pois bem, é isso que vamos fazer. O 8ª Colina passou o Tejo e foi até Évora, para teres acesso aos nossos pensamentos – e às palavras das gentes – em dia de inauguração da experiência mais que turística que é o Roteiro Literário Levantado do Chão.

O roteiro conta com três percursos temáticos – que se subdividem em dois rodoviários e três pedestres  –, que passam por Lisboa, Montemor-o-Novo e Évora. Juntos, os três caminhos perfazem 238 quilómetros de memória e de histórias escritas no romance Levantado do Chão – oito a pé e grande parte em terra batida. São três maneiras idealizadas para conhecer 26 pontos de interesse do livro que é factualmente o terceiro de Saramago, mas que simbolicamente conta como primeiro. É com Levantado do Chão que aparece a característica saramaguiana de escrever a imitar a oralidade.

A primeira paragem foi Lavre. Mas comecemos de novo, parafraseando Saramago: todos os dias têm a sua história; a deste começa com a chegada a um coreto azul no meio de uma praça. Podíamos estar no coração do Alentejo, mas foram percorridos pouco mais de 60 quilómetros para aqui chegar, desde a Fundação José Saramago, de onde saímos, com o diretor de Comunicação da Fundação, Ricardo Viel, e mais duas jornalistas. Lavre é agora parte de uma freguesia em Montemor-o-Novo. O que hoje parece perto é-nos descrito no livro como longínquo. Tudo mudou, mas temos esperança de encontrar quem nos conte como foi conhecer Saramago.

José Francisco em frente à Taberna Antiga (Diogo Ventura/8ª Colina)

Já há mais sombra que sol quando pomos os pés na agora Praça da República – os alentejanos bem sabem quando é seguro sair à rua. Queremos imediatamente explorar as ruas de Lavre, como José Saramago explorou em 1976. Saramago viveu dois meses entre os lavrenses, com o objetivo de documentar a vida alentejana. Os hábitos característicos dos latifúndios e a maneira de falar das futuras personagens é o que nos prende ao livro que publica em 1980. Um toldo amarelo atrai os nossos olhos. Lê-se “Taberna Antiga”, e de entre as cortinas de missangas sai um senhor que vimos a saber que se chama João Francisco. Este homem, de 94 anos, grita-nos “Bom dia!”, mas envergonha-se: “Pensava que era a Isabel.” Nenhum dos membros da comitiva de jornalistas se chama Isabel; mesmo assim, todos devolvem a João os bons dias.

Viemos estrear o percurso pedestre do roteiro. Nuno Cacilhas, um senhor com um blazer tão impecável como a sua maneira de encaminhar as pessoas, estica-nos o braço para a direita, como quem diz: “É por aqui.” Subimos a rua à esquerda do café amarelo. Tocam os sinos: quatro badaladas. Passamos uma fonte. Há uma montra verde que contrasta com o ponto de encontro, que é a Taberna Antiga. Parece abandonada.

Fachada do agora ponto 23 do percurso, a Casa da Leitura José Saramago (Diogo Ventura/8ª Colina)

Vamos diretos ao ponto 23 do percurso “José Saramago em Monte Lavre – pessoas e lugares levantados”. O ponto com o qual inauguramos a volta é a Casa de Leitura José Saramago. Estamos consumidos pelo colorido da freguesia, que ao mesmo tempo é simplicidade. Quando notamos, junto à entrada da Casa de Leitura, alinhados com a parede branca bordada a azul, estão os responsáveis pelo roteiro.

O presidente da União de Freguesias de Cortiçadas de Lavre e Lavre, José Maria Fernandes (Diogo Ventura/8ª Colina)

A palavra é agora da presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Hortênsia Menino, que começa por nos contar que, um ano antes de ter vivido em Lavre, em 1975, Saramago doou livros para a futura biblioteca que ali se ergueria – sem o saber. Quer realçar como é curioso o destino de ali se levantar (verbo escolhido a dedo) o roteiro literário: “Iniciamos hoje aqui em Lavre o percurso que Saramago fez, em que teve a oportunidade de conviver com as pessoas, trabalhadores agrícolas, entre outros”. E lembra que o mote são os 40 anos do livro Levantado do Chão: “Criaram-se condições para a construção do roteiro, feito pelos técnicos da câmara.”

A entrada da Casa de Leitura José Saramago (Diogo Ventura/8ª Colina)

A presidente convida-nos a entrar. Tem algo para nós. Nas paredes está a vida de Saramago cronologicamente organizada e um placar com aspetos marcantes do livro que nos traz aqui. É muito tocante pensar que alguns dos livros que estão nesta biblioteca pertenceram a Saramago. Temos agora nas mãos o fruto de um trabalho que levou quatro anos a concluir: o guia do roteiro, com o castelo de Montemor-o-Novo a vermelho, destacando-se de um fundo azul e branco. Numa mancha amarela, semelhante aos campos de trigo a que os alentejanos tantas horas dedicam, lemos: “Caminhos há muitos por aqui e todos vão a Montemor.” Palavras de José Saramago. Sabia lá ele o alcance que esta frase viria a ter.

O momento da entrega dos guias do roteiro (Diogo Ventura/8ª Colina)

A montra que está defronte da fonte de água tem portadas verdes com barras amarelas. Se olharmos bem, vemos um autocolante que faz publicidade a um iogurte que já não é vendido em Portugal. Espetamos a cara entre as mãos e o vidro já baço. Estamos a olhar para o espaço que outrora foi a Mercearia de Maria Saraiva, que no livro tem o apelido substituído por Graniza. Hoje serve de armazém para o café do toldo amarelo e é o ponto 24 do percurso.

A historiadora Teresa Fonseca, que se interessou pelo concelho (ao ponto de para ele se ter mudado), está connosco e fala-nos sobre os tempos em que pedir fiado era a única solução para muitas famílias não morrerem à fome. Deste modo, a taberna é “um símbolo de solidariedade do Alentejo”, e Saramago sublinha bem isso na narrativa. “Essa solidariedade foi muito importante porque ajudou a minimizar os anos tenebrosos da ditadura. Os ordenados eram muito baixos; havia empregos apenas durante uma determinada altura do ano.”

A historiadora Teresa Fonseca lê o guia do roteiro (Diogo Ventura/8ª Colina)

Teresa explica que nas horas de maior necessidade, por exemplo na época baixa agrícola, em que pelo menos os filhos se queriam alimentados, a vergonha tinha de se ausentar das caras de quem pedia um litro de feijão ou uma saca de batata, com a promessa de pagar quando o trabalho fosse mais abundante. “As pessoas aviavam-se e pagavam quando voltava a haver trabalho. Há casos de pessoas que emigravam e que quando vinham a Portugal pagavam as dívidas. É um aspeto muito interessante”, acrescenta Teresa Fonseca.

Lavre resistiu muito à ditadura e à miséria que empoeirava o rosto às gentes. A ação reivindicativa que tinha era grande e quem era rotulado como grevista, amotinador, malandro, ficava marcado. “Como ficavam marcados, deixavam de ter trabalho. À volta do concelho, numa zona relativamente vasta, ninguém lhes dava trabalho. Ora, mais uma razão para a família cair na pobreza e mais uma razão para Maria Graniza fiar às famílias”, sublinha a historiadora. É daí que vem o título do livro, inspirado num movimento simples, mas que demorou: o levantar do chão.

João Francisco, que no princípio desta peça nos cumprimentou depois de sair de dentro da Taberna Antiga, manteve-se connosco. Sempre se distrai. Não tem como se esquecer dos tempos de escassez de trabalho e de comida. O presidente de Lavre brinca e diz que o que mantém João Francisco são os tintos. Uma coisa é certa: João tem 94 anos, está de pé e ninguém lhe dava sequer 80 anos. “Boa viagem e muita sorte!” Agradecemos e seguimos. Só não vamos para muito longe. Apenas dobramos a esquina.

À esquerda, a última casa da família Serra, a referência histórica dos Mau-Tempo (Diogo Ventura/8ª Colina)

No início de Levantado do Chão, conhecemos Domingos Mau-Tempo e a sua mulher, Sara da Conceição. A história do pai da família, grande como pede o seu trabalho braçal, acaba cedo no livro. Domingos vive em constante vadiagem e, quando é rejeitado pela família, acaba com a sua vida. Sara não tem outra hipótese senão educar e alimentar os filhos sozinha. Saramago deixa isto bem claro nas primeiras páginas do livro. Os Mau-Tempo são os protagonistas desta história de Saramago: as três gerações da família passam pelos últimos tempos da monarquia, assistem ao nascimento da República, veem uma ditadura tomar-lhe o lugar. Passam-se 48 anos de repressão. Tudo termina com a revolução dos cravos.

O ponto 25 deste percurso, em Lavre, é a casa das pessoas em quem Saramago se inspirou para construir o casal Mau-Tempo. Estamos na rua Cândido dos Reis, em frente à porta 38, de alisares azuis, que contornam a entrada pequena da casa. No livro, é quando a mulher de Domingos Mau-Tempo acende a lareira que a casa a que chegam se torna habitada. Muitas vezes tiveram de pôr lenha a arder, porque a família andou de vila em aldeia e de aldeia em vila até assentarem em Lavre.

Detalhe da “Casa dos Mau-Tempo”, personagens centrais no romance (Diogo Ventura/8ª Colina)

Esta foi a última habitação das pessoas em quem Saramago se inspirou: João Domingos Serra e Júlia Perpétua de Oliveira, que no livro tiveram três filhos, mas que realmente tiveram onze. Um dos filhos, António Serra, acaba mesmo por ganhar o nome António Mau-Tempo – e no livro essa personagem procura afastar-se do apelido, que fica sujo com o pai. É um enredo a ler. 

David Frier, professor na Universidade de Leeds, no norte de Inglaterra, e especialista em literatura portuguesa, frisa o quão indispensável este guia do roteiro literário é para compreender Levantado do Chão, nas suas palavras “uma obra-prima da literatura portuguesa dos nossos tempos”. 

David Frier revela como foi escrito o romance Levantado do Chão (Diogo Ventura/ 8ªColina)

Para David, é um privilégio estar na casa de João Domingos Serra, “que foi tão importante na definição da trajetória de José Saramago”. E porquê? Porque Levantado do Chão é considerado “o primeiro romance” de Saramago, uma vez que foi neste livro que o escritor começou a explorar um estilo de escrita “de grande oralidade, que continuou a cultivar em livros como Memorial do Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, Jangada de Pedra e tantos outros”, esclarece.

Para recordar a forma saramaguesca de escrever, ouve um excerto de Levantado do Chão pela voz de Magda Cruz. Acompanha a leitura na descrição.

É também este estudioso da literatura portuguesa quem nos revela que Saramago não ouviu apenas as histórias de vida dos lavrenses para escrever o livro. Saramago também as leu. “Saramago ouviu falar de uma crónica que João Domingos Serra tinha escrito, a sua biografia, que ia do início do século XX até mais ou menos ao ano em que morreu, nos anos oitenta.”

João Domingos Serra estava doente quando José Saramago veio falar com ele, mas, quando finalmente lhe passou para as mãos essas páginas autobiográficas, Saramago não quis alterar quase nada e pôs-se a copiar as suas palavras. “Foi nessa obra que José Saramago se inspirou em grande parte”, diz David Frier. O romance inspira-se no texto de João Domingos Serra, editado pela Fundação José Saramago, em 2010, com o título Uma Família do Alentejo, mas David Frier alerta: “Não pensem que eram a mesma coisa. João Serra queria apenas refletir sobre as memórias da vida dura que tinha tido. A história dele não acaba com a revolução de 74 e continua nos anos posteriores” – ao contrário do livro de Saramago, que acaba na revolução dos cravos.

No prefácio, Saramago escreveu: “Com o caderno debaixo do braço corri para o meu refúgio e pus-me a ler, com a ideia de ir copiando à mão as passagens mais interessantes, mas rapidamente compreendi que nem uma só daquelas palavras poderia perder-se. Não terminei a leitura. Meti uma folha de papel na máquina e comecei a trasladar, com todos os seus pontos e vírgulas, incluindo algum erro de ortografia, o escrito de João Serra.”

Nuno Cacilhas, um dos responsáveis pelo Roteiro Literário Levantado do Chão (Diogo Ventura/8ª Colina)

Ouvimos da boca de Nuno Cacilhas que Saramago gravou bobinas e bobinas de conversas. É verdade: também deixou isso escrito no prefácio do livro de João Serra. Como seria engraçado ouvir essas trocas: uma pergunta para si, tome lá uma resposta, senhor escritor, faço questão de lhe colocar outras, ora ouça isto. Saramago teve ainda de deixar as histórias marinar na cabeça por três anos. E deixou uma certeza: “o Levantado do Chão começou a ser escrito nesse dia, quando contraí uma dívida que nunca poderei pagar.”

Mas, com isto, qual é a grande diferença entre o romance de Saramago e o texto biográfico de João Serra? David Frier responde: “Na minha opinião, Saramago quer escrever um livro utópico que pensa na revolução e em como poderíamos recriar a revolução dos cravos de modo que ela durasse mais e desse maior proveito à gente, não somente de Portugal, não somente do Alentejo, mas do mundo inteiro.”

O guia do roteiro é um apoio para o viajante (Diogo Ventura/8ª Colina)

Instalamo-nos ao lado do coreto. A presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Hortênsia Menino, deixa todos à vontade, quer que seja uma conversa informal sobre o roteiro literário que ali se levanta. Ter esta conversa em Lavre e, por exemplo, não no centro de Lisboa, por onde o roteiro também passa, é muito enriquecedor – onde, aliás, pode começar.

Na contracapa de Levantado do Chão, Saramago escreveu: “Um escritor é um homem como os outros: sonha. E o meu sonho foi o de poder dizer deste livro, quando terminasse: «Isto é um livro sobre o Alentejo.»” O erguer deste roteiro já não é um sonho. Dos pontos a que fomos, apenas a Casa de Leitura José Saramago – por ser uma biblioteca – está identificada. Na Casa dos Mau-Tempo, nenhuma placa invade a parede de cal. O 8ª Colina quis saber se houve alguma dificuldade em definir em que moldes se iria levantar o roteiro literário, por exemplo no que diz respeito à preservação da privacidade dos habitantes de Lavre. Nuno Cacilhas diz que o lançamento do guia do roteiro, o livro que acompanha o viajante, é “apenas a primeira fase da implementação do roteiro”. Mesmo querendo respeitar quem aqui vive, no futuro vai haver sinalética nos percursos pedestres. “Ao longo deste ano, os percursos vão ser devidamente sinalizados”, garante o responsável pelo projeto, referindo-se a uma segunda fase de implementação do roteiro. Mais tarde, um website e uma aplicação para telemóvel também vão ajudar a percorrer o roteiro.

Tudo culminará num centro interpretativo, em outubro de 2020. Essa será a terceira fase. Até lá, os caminhos podem ser feitos com o auxílio do guia em formato de livro, que vem apetrechado com fotografias e indicações sobre como chegar aos diversos pontos. O vereador da cultura da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Gil Porto, diz que a opção de inaugurar o roteiro no dia 22 de fevereiro de 2020 – o dia em que Levantado do Chão fez 40 anos – foi intencional, e revela o local onde se vai situar o centro interpretativo: a Biblioteca de Montemor-o-Novo. “O objetivo é ser um ponto central do roteiro para recolha de informação. Do ponto de vista das escolas, é fundamental disponibilizarmos este produto”, diz Gil Porto, frisando ainda que, embora se possa ler Levantado do Chão em qualquer sítio, contactar com as pessoas de que fala o livro é enriquecedor.

Ouve aqui os momentos favoritos da obra para Teresa Fonseca, historiadora; para David Frier, especialista em literatura portuguesa, e para a presidente da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Hortênsia Menino.

Dizem-nos que a filha de Maria Saraiva, Elvira, ainda anda pelo café Taberna Antiga. Hoje não está lá. Talvez quando fizermos o percurso completo ela esteja do outro lado do balcão. Até lá, as palavras de Elvira Saraiva sobre as visitas de Saramago (mesmo depois de escrito o livro) estão no guia do roteiro.

A fonte situada na descida da Casa de Leitura para a mercearia de Maria Saraiva (Diogo Ventura/8ª Colina)

Decidimos então explorar outras ruas de Lavre. Bebemos água da fonte. É demasiado alcalina para nós – e talvez a água apenas sirva para a rega ou a fonte para mero enfeite. Já não é a mesma aldeia descrita em Levantado do Chão – o tempo também passou pelo Alentejo. Algumas paredes têm a cal a descascar (talvez com inveja dos sobreiros). Os pés já não sentem a terra batida, mas o som dos nossos passos faz-nos duvidar sobre se estamos mesmo a pisar alcatrão. Em frente a um casario identificado como Alojamento Local está um banco de jardim. Maria Augusta Alves, de 80 anos e passo largo, vem sentar-se nele. Veio aproveitar a luz do dia, que o sol ainda não se paga.

Diz ter conhecido o nosso Nobel muito antes da pesquisa do escritor em Lavre: “Conheci Saramago. Trabalhei na terra dele, em Azinhaga.” E quis o destino que se voltassem a cruzar: “Depois vi-o muitas vezes por aqui, antes de ganhar a fama que tem. Ele comia e dormia lá em baixo, no bairro novo, na casa da Mariana Amália”, aponta Maria Augusta, com o coreto por trás de si.

Maria Augusta à frente do coreto, na Praça da República (Diogo Ventura/8ª Colina)

Juntamos as pistas: é a casa de Mariana e João Besuga. O coordenador do projeto, Nuno Cacilhas, já nos tinha falado desta casa, onde Saramago se aboletava. “Aboletar é um termo muito característico do nosso Alentejo. Tem que ver com as bolotas e com a alimentação que tínhamos forçosamente de fazer devido às carências económicas desta nossa comunidade de trabalhadores”, explica Nuno. Esse é o ponto 21 do percurso, e na parede uma placa assinala os 25 anos de Levantado do Chão.

Quinze anos passados, não é só o mero acaso que leva as pessoas a esta casa térrea, mas o roteiro literário. Saramago deixou mesmo escrito numa carta (ou “Recado para João Besuga”) que considerava amigos João e Mariana Besuga, por tudo o que lhe haviam ensinado à mesa durante o par de meses em que lá enchera o estômago – sem ser de favas, que delas Saramago não gostava. Tudo isto se pode ler no guia do roteiro. Foi até Mariana que ajudou Saramago a partir o bolo com que se comemorou a atribuição do Nobel da Literatura. Na cobertura estava a capa da primeira edição de Levantado do Chão, editado pela Caminho.

O campo alentejano no caminho de Lavre para Montemor-o-Novo (Diogo Ventura/8ª Colina)

Voltamos a ver o montado de todos os lados. Esquerda e direita. Azinheiras, carvalhos e sobretudo sobreiros já despidos de cortiça. Seguindo em frente, vamos ter a Montemor-o-Novo. Para trás ficam Lavre e as suas gentes.

Vamos à procura de Saramago na Biblioteca de Montemor-o-Novo. Ora S… fila do fundo. O maior nome da nossa literatura tinha de ter um apelido começado por uma letra dos fins do alfabeto. Focamo-nos numa estante, por estar ao nível dos nossos olhos. Tem vários livros assinados por Teresa Fonseca – e um pelo marido, que também é historiador. À volta de umas bolachas de bolota, dizemos-lhe que vimos quase uma fila inteira de livros seus. Teresa fica contente, mas não parece que se trate de uma novidade para ela: afinal, é autora de mais de uma dezena de livros, incluindo Lavre – Oito Séculos de História.

Teresa Fonseca é historiadora. O seu interesse pela história do concelho fê-la mudar-se para Montemor-o-Novo (Diogo Ventura/8ª Colina)

É aqui, na Biblioteca, que se vai poder visitar o centro interpretativo relacionado com o roteiro. A previsão é que abra em outubro deste ano. Nuno Cacilhas ouve-nos comentar que o edifício não parece uma biblioteca. “Pois não. Era um convento”, diz-nos.

Um dos corredores da Biblioteca de Montemor-o-Novo foi forrado com a história de Levantado do Chão e do seu autor, quando o livro fez 25 anos (Diogo Ventura/8ª Colina)

Num salão do edifício, forma-se um painel: o vereador da cultura da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Gil Porto, que já conhecemos, está encarregado de moderar a conversa sobre o livro e a importância do roteiro. No erguer do roteiro literário têm mão não só a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo e a Fundação José Saramago, mas também as câmaras Municipais de Lisboa e de Évora e o Museu do Aljube, em Lisboa. E, por isso, na apresentação pública da experiência está Luís Farinha, diretor do Museu do Aljube, que lembra os nomes das pessoas mortas pelos carrascos da PIDE, como foi Germano Vidigal, no livro, e a repressão violenta – tudo documentado no museu.

Da esquerda para a direita, Luís Farinha, Catarina Vaz Pinto, Hortênsia Menino, Gil Porto, Eduardo Luciano e Sérgio Letria na apresentação do roteiro (Diogo Ventura/8ª Colina)

Luís Farinha frisa que não se deve deixar de ter na mira para quem é o roteiro e apela à união entre câmaras e freguesias, sem disputas sobre quantos programas, experiências ou, neste caso, roteiros literários tem cada uma. O diretor do Museu do Aljube desafia ainda a organização a traduzir o roteiro, por exemplo disponibilizando audioguias em várias línguas. O vereador da cultura da Câmara Municipal de Montemor-o-Novo, Gil Porto, não só aceita o desafio, como diz que este é já um trabalho em desenvolvimento.

Sérgio Letria, diretor da Fundação José Saramago, começa por dizer que o alegra ver que a obra de Saramago continua viva. Sobre a importância de Levantado do Chão, revela que Saramago, quando veio para Lavre, escreveu as primeiras 20 páginas com “pontuação mais tradicional, se quisermos usar esse termo”. A partir da vigésima primeira página, porém, decidiu escrever da forma a que nos habituou na sua restante obra literária. Sérgio Letria conta-nos a história de como, no funeral do escritor, em Lanzarote, foram erguidos livros à passagem do corpo: “Muitos desses livros eram precisamente o Levantado do Chão. Em Lisboa passou-se o mesmo. A Praça do Município estava cheia de pessoas, e muitas delas levantavam bem alto o Levantado do Chão para se despedirem do seu autor.”

Para Sérgio, este é um livro fundamental. À semelhança do que fez no Memorial do Convento, obra em que atribuiu um nome pessoal a cada letra do alfabeto para homenagear os trabalhadores da construção do convento, em Levantado do Chão Saramago também se dedica a preservar a voz e a memória das pessoas, porque “a história para ser feita precisa muitas vezes dos anónimos que fazem com que as coisas aconteçam”. O diretor da Fundação José Saramago diz ainda que é uma enorme alegria percorrer as estradas que Saramago percorreu. Mesmo existindo na Fundação a regra de não se falar por Saramago, Sérgio Letria crê que hoje o escritor estaria feliz por saber que um roteiro literário nasceu a partir de um livro seu.

A Câmara Municipal de Montemor-o-Novo espera que o roteiro traga leitores à região e crie empregos (Diogo Ventura/8ª Colina)

A vereadora da cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, vestiu-se a rigor: vem de samarra, uma indumentária bem característica de além Tejo. A vereadora lembra o roteiro do Memorial do Convento, inaugurado em outubro de 2019, para deixar claro o objetivo da câmara de Lisboa, que é chegar a uma comunidade de leitores mais vasta, através da criatividade: “Para nós é fundamental essa aposta, para ver aproximar o público das obras dos autores, numa era em que é mais difícil chamar pessoas para os livros no seu formato mais convencional e para uma densidade cultural e criativa que se vai esbatendo com a Internet, com as redes sociais e também com o empobrecimento das palavras.”

A estante que contém os livros de Saramago na Biblioteca de Montemor-o-Novo (Diogo Ventura/8ª Colina)

Eduardo Luciano, vereador da cultura da Câmara Municipal de Évora, encarrega-se de “acordar” o público com uma nota pessoal: “Há 40 anos, um miúdo meio esgrouviado, tímido, chegava a Lisboa para ir trabalhar na Editorial Caminho […]. 40 anos depois, estou aqui sentado e recordo que vivia em torno de uma figura que ainda não era este José Saramago que celebramos.” 

Levantado do Chão foi determinante para o despertar de consciência do presidente da Câmara de Évora. Na altura, Eduardo Luciano sabia pouco do Alentejo, da repressão e mesmo da reforma agrária: “Foi a leitura de Saramago que me abriu portas para querer saber mais”, refere. Para Eduardo Luciano, “os homens da resistência viviam todos no Barreiro”, onde nasceu, mas depressa se deu conta de que a luta pela liberdade era nacional. O autarca sublinha a importância de se preservar a memória: “O roteiro em torno de Levantado do Chão é um roteiro de resistência e de memória.” Tudo isto faz ainda mais sentido quando se lê o livro e se percebe o papel que Évora teve na distribuição de papéis que incitavam à revolta contra a opressão.

Um dos objetivos do roteiro é dar a conhecer a literatura portuguesa (Diogo Ventura/8ª Colina)

Já é noite cerrada quando voltamos à capital. No tempo em que decorre a ação do livro, Lisboa era vista como um lugar longínquo. Hoje, de carro – ou mesmo de autocarro –, Montemor-o-Novo está à mão de semear. Parte do roteiro passa em Lisboa; assim, é uma questão de escolher por que ponta começar a reviver o livro de Saramago.

Texto: Magda Cruz                   

Fotografia: Diogo Ventura       

Áudio: Mariana Serrano

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