Novatadas: uma porta para o mundo académico

O início do primeiro ano de faculdade é o começo de uma nova etapa, num ambiente desconhecido e, por vezes, até longe de casa. Os estudantes têm de começar do zero: conhecer novas pessoas, criar laços e adaptar-se a um ritmo mais exigente. Para facilitar esse processo, em Espanha fazem-se as novatadas, com o propósito de ajudar os alunos a integrar-se no mundo académico.

Maria Alda é uma estudante espanhola a fazer Erasmus na ESCS. Vive em Badajoz e está a estudar Comunicação Audiovisual na Faculdade de Ciências da Documentação e da Comunicação de Badajoz. Este foi o ano em que lhe coube preparar as novatadas, e por isso deu a conhecer ao 8ª Colina como é esta tradição espanhola.

Maria Alda (ADRIANA ALVES/8ª COLINA)

As novatadas são um conjunto de atividades, jogos e festas que têm o propósito de ajudar os alunos do primeiro ano a integrar-se na faculdade. Existem dois tipos de novatadas: as das universidades e as das residências. Em Badajoz há os dois; já em Madrid, por exemplo, só existem novatadas nas residências de estudantes.

São os alunos de terceiro ano, os veteranos, que preparam as novatadas para os alunos que entram para a faculdade, os novatos. É daí que esta tradição recebe o seu nome. Segundo Maria, trata-se de “uma forma de as pessoas perderem o medo, de conhecerem pessoas da universidade e criarem laços de amizade. O objetivo é passarem um bom tempo, divertirem-se”. Ao longo de um mês, os novatos participam nas várias atividades preparadas, sendo que as duas primeiras semanas são as mais intensas. Na sua faculdade, as novatadas estão proibidas dentro do campus universitário, por isso as dinâmicas são feitas em jardins e nas ruas.

Foto cedida pela entrevistada

Ao contrário do que acontece na praxe em Portugal, os estudantes espanhóis não têm um traje académico. Contudo, para as novatadas fazem-se camisolas temáticas, com jogos de palavras. Por exemplo, no ano em que Maria foi novata, o tema das camisolas era o Toy Story. Na altura, fez-se um jogo de palavras com o nome deste filme e a abreviatura do curso, CAV, que significa Comunicação Audiovisual.

O que distingue, então, os novatos dos veteranos? Facilmente se identificam os alunos de primeiro ano pelo “N” escrito na testa. Mas as pinturas não se ficam por aí: podem ver-se desenhados a tinta permanente também uns óculos, um nariz de palhaço ou alguns nomes de veteranos.

Em Badajoz há várias atividades típicas, sendo uma delas o tartazo. Numa tarde, veteranos e novatos percorrem as ruas da cidade. Às pessoas com quem se cruzam é dada a oportunidade de, por 50 cêntimos, atirar aos novatos um prato de natas ou um ovo. O objetivo desta atividade é, para além da diversão, angariar dinheiro para as atividades que se vão realizando. No final, tudo o que se sujou é limpo: para isso, levam-se sempre sacos do lixo e papel.

Foto cedida pela entrevistada

A pringada é outra das atividades da novatada. Em português, pringar significa manchar: os novatos, que estão num círculo, são manchados pelos veteranos com ketchup, vinagre, azeite, comida de cão, farinha e ovos, entre outros ingredientes. Para que o cheiro não os incomode tanto, é-lhes colocada pasta de dentes debaixo do nariz. A pringada, como todas as práticas da novatada, é opcional. Maria, por exemplo, escolheu não participar. Contudo, só os alunos que passam por ela é que a podem fazer aos outros estudantes.

Foto cedida pela entrevistada

Ao longo do mês também são organizadas festas em discotecas. Aliás, em Badajoz, no mês de outubro, a temática das discotecas é a novatada.

Para terminar, faz-se a fiesta de bandas, a maior das festas, na qual se entregam banda (faixas) aos estudantes que foram os protagonistas das novatadas. Os novatos juntam-se e, entre si, decidem a quem querem entregar as faixas; os veteranos fazem o mesmo. As faixas dizem coisas como “veterano alegria” ou “novato bonito”. São uma forma de dizer: “tu foste diferente”.

“Por acabarem as novatadas, não tem de acabar a relação novato-veterano. O melhor é ganhar novos amigos”, afirma Maria. O objetivo é que se criem laços duradouros e que os estudantes continuem a conviver uns com os outros. Contudo, nem sempre isso acontece. Segundo Maria, há faculdades em que a relação acaba.

Foto cedida pela entrevistada

Andrea Botana, também aluna espanhola de Erasmus na ESCS, está no terceiro ano do curso de Comunicação. Estuda em Madrid e vive numa residência onde se fazem novatadas: cantam-se canções, fazem-se jogos, organizam-se atividades e festas. A principal é a fiesta del nuevo, na qual os veteranos acolhem os novatos na residência após o mês das novatadas. Antes, os veteranos exibem um vídeo feito por eles para os novatos, no qual apresentam as várias atividades realizadas. “O sentimento é que a distância entre as pessoas das residências e os novatos se quebra naquele momento”, descreve Andrea.

A aluna garante que nunca teve más experiências nas novatadas. Atividades como o tartazo, ou uma outra que consiste em oferecer abraços a pessoas aleatórias que se encontram na rua, constam entre as suas favoritas.

Novato recebe um tartazo em Cánovas. (L.CORDERO/Hoy)

Na sua opinião, as novatadas são uma ótima forma de conhecer pessoas. “O problema é que em alguns sítios forçam os alunos novos a fazer coisas ridículas e perigosas”, conta. Isso nunca lhe aconteceu. Porém, há coisas que considera desnecessárias – nomeadamente o facto de se consumir muito álcool. Ninguém é obrigado a fazê-lo: basta dizer que não se quer. Mas, em algumas faculdades, isso é suficiente para se ser excluídos das atividades.

Em Espanha, as novatadas constituem, tal como a praxe em Portugal, um tema controverso. Apesar de o seu objetivo ser apenas a diversão e o convívio, há quem leve as coisas longe de mais. Maria faz precisamente essa distinção. Gosta da diversão das novatadas.

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