Nuno Portugal: "Não quero a ESCS vazia"

Chega com aquele sorriso característico, já conhecido dos alunos da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS). Atrapalhado, pede desculpa pelo atraso. Realmente, é um caso excecional: quem tem aulas com a assistência de Nuno Portugal sabe que não é hábito seu chegar depois da hora. E nem podia ser de outra forma. Afinal de contas, falamos de alguém com passado militar. Mas já lá vamos. É que há muito mais a dizere a descobrir – sobre uma das figuras mais conhecidas e antigas da ESCS.

Na ESCS, Nuno Portugal tem muitas funções. Ajuda nas aulas de Jornalismo Radiofónico, dá apoio no Estúdio de Televisão, colabora no programa da ESCS que passa na RTP 2 (E2), e muito mais. Para todos os efeitos, é assistente técnico, diz-nos. E é-o desde que aqui chegou, em 1996.

É assim, de headphones no pescoço e com a mesa de mistura à frente, que muitos alunos de Jornalismo conhecem Nuno Portugal. (Diogo Ventura/8ª Colina)

Natural de São Sebastião da Pedreira, Nuno sempre estudou em Lisboa. Depois da formação em vídeo no ensino secundário, candidatou-se à posição que hoje ocupa. Começou por ajudar os alunos do curso de Audiovisual e Multimédia. Mas tinha um bichinho pelo microfone. “No curso de secundário, podia ter escolhido Áudio, Fotografia ou Vídeo. Escolhi vídeo, porque na altura estava a surgir a SIC e a TVI”. O gosto pela rádio, porém, não desapareceu, e o surgimento do curso de Jornalismo na ESCS foi a oportunidade ideal para Nuno. “Depois começou o curso de Jornalismo e pedi para dar assistência nas aulas de Rádio”. O primeiro contacto de muitos alunos deste curso com Nuno é nessas aulas. Senta-se atrás da mesa de mistura e, ao sinal do professor, passa o trecho pedido ou começa uma gravação. É como um maestro e a sua orquestra, mas em vez de maestro temos o professor, e em vez de trombones e violinos temos Nuno, com a sua postura descontraída e os seus botões de volume e gravação.

Hesita em dizer-nos o ano em que foi contratado; faz-lhe impressão pensar no tempo que já passou. Anda por aqueles corredores há quase 25 anos e, quando os pisou pela primeira vez, a maioria dos alunos que hoje ajuda ainda nem tinha nascido. Mas diz que essa também é a melhor parte de trabalhar na ESCS há tanto tempo: “Poder ver os alunos bem posicionados lá fora”. Recorda com particular carinho ex-alunos como Pedro Fernandes e António Raminhos, atualmente comediantes, que ainda hoje se lembram dele. “Lembro-me de ver o Raminhos num evento. Foi ele que me chamou. Perguntei-lhe pelas três Marias [as filhas de António]. Ele só me diz: «porra, pá, deixa-me estar aqui sossegado!»”.

Mas, se houve aluno que o impressionou, foi Pedro André Esteves, hoje jornalista na RTP. “Logo na primeira aula de rádio, pensei: «Este miúdo vai dar qualquer coisa»”, diz-nos. Afinal de contas, com mais de duas décadas de experiência, é normal que Nuno já saiba distinguir quem tem mais talento. Como um olheiro de futebol – comparação que aceita de bom grado.

O próprio Pedro André Esteves recorda com carinho a figura de Nuno Portugal. “Ajudava-nos muito, sempre com um sorriso e com boa disposição. Lembro-me das aulas de três horas, segunda-feira, às 8 da manhã. E mesmo aí ele conseguia manter-nos com uma boa disposição e com um sorriso no rosto, e ajudava-nos num trabalho que por vezes era difícil a nível técnico.”

Enquanto nos leva pelo estúdio de Televisão, Nuno explica como as várias câmaras funcionam. Um conhecimento técnico que foi adquirindo ao longo de anos de prática e de formação, em trabalhos tanto na ESCS como fora dela. Recorda com felicidade o tempo que passou na RTP, ao serviço do E2. Fala-nos da época em que o programa da TVI Inspetor Max era gravado na Escola. E diz-nos o que tem mudado na forma como a ESCS é vista lá fora: “Já não é preciso dizer que é aquele edifício branco virado para a Segunda Circular.

Nuno viu a ESCS passar de uma jovem escola na área da comunicação para uma das principais referências no que toca à formação de profissionais. Nos últimos 25 anos, viu o mundo lá fora transformar-se, mas também o mundo dentro do tal “edifício branco virado para a Segunda Circular”. Viu a evolução do equipamento, dos alunos e dos docentes. Recorda as primeiras aulas de rádio em que ajudou. “Púnhamos a cassete, gravávamos o noticiário da manhã da Antena 1, com o Francisco Sena Santos, e depois os alunos na aula analisavam”. Sem Internet, os recursos eram outros. Quis a sorte que o próprio Francisco Sena Santos acabasse a dar aulas na ESCS. “Quando tive aulas com ele pela primeira vez, sentia que já o conhecia, por o ter ouvido tantas vezes!”

Mas Nuno, que hoje conhece os cantos à casa melhor que ninguém, esteve quase a ir por um caminho muito diferente. Depois do secundário cumpriu os seis meses de serviço militar no exército, e tinha uma carreira em mente. “Ainda não estava efetivo e concorri para a Secção de Audiovisuais da GNR. Cheguei a passar nas primeiras provas [psicotécnicas]. Depois eram as provas físicas, mas entretanto entrei aqui.” Quanto às hipóteses de passar nas provas físicas, Nuno faz uma cara desconfiada e deixa a conversa por aí.

Não foi um Guarda Nacional Republicano, mas hoje os alunos chamam-lhe o “Bombeiro”, pelo hábito que tem de ajudar em trabalhos e reportagens. “Tento sempre facilitar. Não estou aqui para dificultar a vida a ninguém”.

Longe da ESCS, tem outra grande paixão: os automóveis clássicos. Conserva uma coleção de miniaturas desde que era criança e sonha ter uma Volkswagen Kombi – a carrinha “pão de forma”. Verdade seja dita, o entusiasmo de Nuno a falar da sua coleção é comparável ao que vemos quando nos fala das câmaras de televisão ou das aulas de rádio. Mas, entre uma paixão e outra, os carros clássicos ficam em segundo plano, diz ele. 

As miniaturas de Nuno Portugal (Fotografia cedida por Nuno Portugal)

Em 25 anos, recorda momentos bons, mas também alguns pontos baixos. Lembra-se bem do dia em que soube da morte do homem que o entrevistou aquando da sua candidatura, em 1996. Vítor Macieira, que hoje dá nome ao auditório na ESCS, foi o primeiro contacto de Nuno Portugal com esta Escola ao pé da Segunda Circular. Viu-o pela última vez precisamente na inauguração da placa do Auditório Vítor Macieira.

Antes de nos deixar, Nuno aproveita para agradecer aos alunos da ESCS. Deixa uma mensagem que, no contexto em que agora nos encontramos, ganha outro significado: “Quero a ESCS com alunos; não quero a ESCS vazia.” Infelizmente para o Bombeiro, é com este último cenário que se vai deparar, pelo menos durante uns meses. Quando as salas voltarem a encher-se, lá estará ele, com o sorriso que muitos já conhecem, atrás da mesa de mistura, pronto para ajudar. Sem atrasos.

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