O 25 de abril e o PREC nas bocas do mundo

Através da consulta de publicações de vinte países diferentes, sobretudo europeus, mas também de publicações norte-americanas, canadianas, sul-africanas e sul-americanas, o jornalista e escritor Joaquim Vieira e o professor de História e investigador suíço Reto Monico escreveram “Nas bocas do mundo – o 25 de Abril e o PREC na Imprensa Internacional”, publicado pela editora Tinta da China. Esta é uma obra que apresenta, em cerca de quatrocentas imagens, diferentes perspetivas de órgãos de comunicação social estrangeiros sobre a revolução de abril e o processo revolucionário em curso (PREC). Artigos de opinião, comentários e análises juntam-se à riquíssima componente visual. Aliás, o leitor tem oportunidade de ter contacto com ilustrações nunca antes publicadas em Portugal.

Os dois autores já haviam trabalhado juntos em “Mataram o Rei! – O Regicídio na Imprensa Internacional” (2007) e, mais tarde, em “República em Portugal! – O 5 de Outubro Visto pela Imprensa Internacional” (2010). Depois destas duas obras, ambos concluíram que havia apenas um outro momento histórico durante o qual Portugal tinha sido igualmente escrutinado pelos media estrangeiros: o 25 de abril e o PREC.

O método utilizado para a elaboração do livro foi simples. Procedeu-se ao levantamento dos comentários e dos artigos de opinião publicados em vários jornais e, em seguida, descreveu-se o seu conteúdo com base na sequência cronológica dos acontecimentos, que, pela sua linha temporal, facilita muito a leitura. “Para a divisão em capítulos utilizámos como balizas os acontecimentos mais importantes, por um lado, e as fases em que a imprensa estrangeira deu mais cobertura a Portugal, por outro”, explica Joaquim Vieira.
Numa obra tão vasta e diversificada como esta, o labor de pesquisa que este livro certamente exigiu proporciona aos leitores o contacto com uma espécie de síntese histórica sobre o modo como jornalistas, comentadores e opinion-makers de vários países observaram toda a conjuntura política e social do período em análise. Dos milhares de artigos sobre Portugal, a seleção restringiu-se aos textos de opinião – editoriais, comentários e análises -, excluindo-se notícias, reportagens, entrevistas e outras matérias de produção jornalística. Na deliciosa iconografia – cartoons e outras ilustrações – está bem marcado o olhar irónico e humorístico que dá conta da tumultuosa situação em que Portugal se encontrava.

Um dos aspetos que mais surpreenderam a imprensa internacional foi, sem dúvida, o facto de a Revolução ter sido um golpe estritamente militar, protagonizado por militares de patente intermédia, isto é, pouco politizados. E por isso “os militares foram vistos primeiro com muita curiosidade, porque a orientação do seu movimento era desconhecida e o gesto era absolutamente inédito na Europa, uma vez que os golpes eram feitos por oficiais superiores (de coronéis a generais) e com orientação autoritária, de extrema-direita – não por oficiais de esquerda com orientação democratizante”, afirma o jornalista português.

Uma das mais emblemáticas epígrafes presentes neste exemplar é a do jornal “The Guardian”: “O golpe militar português [do 25 de abril] ficará provavelmente na História como um dos acontecimentos mais importantes e de maior impacto após a [Segunda] Guerra [Mundial]”. O impacto não se deveu apenas à natureza progressista do Movimento das Forças Armadas (MFA), mas também à euforia revolucionária que conquistou o exterior, atraindo inúmeros estrangeiros com tendências políticas de esquerda a visitar Portugal. O 25 de abril foi também um acontecimento determinante para a libertação das colónias portuguesas, que, apesar do caminho conturbado que tinham pela frente, podiam iniciar o seu processo de independência.

Naturalmente, estabelecia-se um paralelismo entre Espanha e Portugal. Apesar das divergências ideológicas e das várias interpretacões existentes, grande parte dos jornais acreditava na iminência de uma guerra civil no nosso país. “A imprensa internacional começou por achar inevitável que a democratização de Portugal fosse contagiar Espanha, pelo que, mais do que uma diferença, viam uma possível semelhança. A diferença apareceu mais tarde: elogiou-se muito a moderação e o bom senso do povo português, que esteve à beira de uma guerra civil, enquanto se achava que em Espanha, nas mesmas circunstâncias, ela seria inevitável”, conta Joaquim Vieira. A imprensa estrageira acabou assim por descobrir a serenidade dos portugueses, um povo de brandos costumes, que mesmo em face de profundas convulsões sociais e políticas não cedeu à violência. Foram estas as características que passaram a ser enaltecidas na comunicação social.

Com o desenrolar do processo revolucionário, os militares “passaram a ser vistos com alguma desconfiança, porque se achava que não só não queriam abandonar o poder como não respeitavam os resultados eleitorais, constituindo um entorse à verdadeira democracia”, sublinha Joaquim Vieira. Muitos dos meios de comunicação social esperavam ansiosos por saber em que medida os comunistas e os militares revolucionários se apropriariam do poder.

Mas, com o outono de 1975, a chama revolucionária começou a extinguir-se e a ameaça comunista a desaparecer. O resultado das eleições de 25 de abril de 1975 demonstrou a preponderância dos moderados. Iniciava-se, assim, o caminho de Portugal rumo à democracia.

Texto: Ana Bento

Imagem: Tinta da China

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