“Ó menina, veja lá que o nosso bairro tem a melhor marcha!”

Marcha do Alto do Pina a treinar a coreografia © Bárbara Mota

Tuuum tum tum tum tum… Ouvem-se os passos dos marchantes a pisar a Avenida da Liberdade. Já cheira a sardinha assada e a bifana está pronta a comer. As fitas estão colocadas e o Santo António está pronto para começar. As marchas estão alinhadas e está na hora de encher a Avenida.

Para trás ficaram meses de trabalho intenso e muito afinco para que as marchas corram da melhor maneira. O processo é muito mais do que aparenta, trabalhoso e iniciado com meses de antecedência. O 8ª Colina acompanhou esse processo, junto da marcha dos Mercados (que não entra a concurso, ou seja, é uma das marchas convidadas), da marcha da Madragoa (conhecida por ser a marcha dos “pés descalços”, já que os marchantes desfilam todos descalços) e ainda da marcha do Alto Pina e da marcha do Bairro Alto, duas das mais antigas a desfilar na Avenida. Fomos aos ensaios conhecer os bastidores.

No ar, sentiu-se o cheiro a gente determinada a tentar levar o seu bairro à vitória. Entre um “Óh menina, veja lá que o nosso bairro tem a melhor marcha” e as músicas das marchas cantadas em coro a uma só voz, não se pode negar que dá vontade de fazermos parte daquele mundo.

Todos eles têm uma essência que os carateriza, mas o sentimento bairrista é o denominador comum. Este é também, cada vez mais, um espetáculo de jovens, ensinados por quem já marcha há tantos anos.

Marcha dos Mercados

Era Sábado e entrámos pelo Mercado do Forno de Tijolo em busca da D. Luísa, a diretora da marcha, para que ela nos levasse até ao ensaio, num campo desportivo pequeno que não encontrámos à primeira. É ali, ao fim da tarde, que tentam dar o seu melhor. Onde ensaiam, mas também convivem.

O espaço encontra-se cheio, mesmo faltando gente que não pôde comparecer por razões profissionais. Entre os presentes, várias crianças, filhas de marchantes. Ensaiam com os pais, mas também brincam umas com as outras, correndo de um lado para o outro sempre que podem. O ambiente é de diversão entre famílias, amigos e conhecidos.

O ensaio não saiu na perfeição, até porque ainda faltava algum tempo para o grande dia, na Avenida da Liberdade. Mas conforme foi entardecendo, os marchantes foram ficando mais coesos e cada vez mais certos de cada passo, de cada movimento.

A ensaiadora é Vera Gromicho. É, pela primeira vez, coreógrafa de uma marcha, mas é uma amante da dança há muito tempo. Para ela, não é assim tão difícil ensinar e coordenar estas pessoas: “Não é difícil porque sinto por esta gente uma grande admiração, são todos muito especiais.”

A dirigir a Marcha dos Mercados está a D. Luísa (Carvalho), uma senhora de baixa estatura, de sorriso pronto e com trejeitos bairristas que não consegue esconder. Diz o que tem para dizer e não deixa nada nas entrelinhas, mas ao mesmo tempo revela uma doçura inegável que a faz ser acarinhada por todos. Para a D. Luísa, dirigir esta marcha é um autêntico stress, mas  dá-lhe muito prazer. “É em Outubro que começamos a falar com as pessoas. O José Mourão faz os figurinos, depois esperamos pelo tema para o adaptarmos aos Mercados. Nas redes sociais a palavra vai-se espalhando. Começa a ser uma família, mesmo os que são estreantes nas marchas rapidamente se adaptam.”

Entre muitas histórias de pessoas que se cruzam dentro desta marcha, conhecemos a de Ana Maria. Com 60 anos, mas com uma atitude jovem e bem-disposta, contou-nos a forma como as marchas a ajudaram a ultrapassar um momento difícil que teve de viver. Viúva há quatro anos e marchante há cinco, desde a morte do marido que encontrou nos Mercados a motivação para ser feliz. É marchante por gosto, por “amor à camisola”, adora dançar, e esta é a fórmula perfeita para o seu bem-estar.

Os marchantes vão dos oito aos oitenta anos e a cumplicidade está em cada olhar. Ali é possível ver uma autêntica “família” reunida por um amor maior: a marcha do seu bairro. Há famílias que vêm quase arrastadas pelos comerciantes e que vão ficando por gosto. Primeiro vem um elemento e “em menos de nada” podemos ver toda a família.

No dia 12 de junho, data do desfile na Avenida, a confusão instala-se, os nervos entranham-se e a vontade de dar o melhor está bem presente. Para a D. Luísa tudo isto é muito gratificante porque estão todos ali sem ganhar dinheiro nenhum, por amor à camisola e se for preciso ainda gastam os próprios rendimentos. O que move esta marcha é promover os mercados e por isso “cada entrevista e cada passagem da marcha na televisão ou em qualquer outro meio de comunicação é promoção bem-vinda”, admite. “Mostra-se que os mercados ainda estão vivos, representam uma tradição de que todos os comerciantes se orgulham”, diz.

Organizada pela Associação de Comerciantes dos Mercados de Lisboa e apadrinhada pela fadista e actriz Anita Guerreiro e pelo actor e encenador João de Carvalho, há 10 anos que esta marcha marca presença, a convite, na Avenida da Liberdade. E há 10 anos que se vem renovando com sangue novo, com jovens que vão revitalizando a Marcha dos Mercados.

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Marcha da Madragoa

Caracterizados por marcharem descalços em homenagem às varinas, o peixe é um elemento sempre presente e marcado nas canastras que exibem durante a marcha. Estes marchantes são jovens, empenhados e bairristas: Viva a Madragoa!, entoam.

Esta é uma das marchas mais antigas e com a história mais marcada nas coreografias, que são ensaiadas ao pormenor. A Marcha da Madragoa é uma das marchas a concurso e quanto mais se aproxima o tão desejado dia do desfile mais se sente a pressão e os nervos, que depois terminam num sentimento de missão cumprida quando dão o último passo, descalços.

O nome do responsável por esta marcha é José Peres e é ele que faz tudo para que ela se concretize. José revela que este é um processo árduo, que requer muitos meses de trabalho desde as candidaturas, a escolha do tema, os figurinos. Tudo isso leva tempo. Também é feito um casting para selecionar os marchantes, mesmo que alguns deles já venham de anos anteriores.

A motivação, claro, é ganhar. Mas, acima de tudo, estes marchantes querem mostrar que Madragoa é esta que lhes corre no sangue. Um bairro que, para eles, é o melhor de todos, como nos foram dizendo ao longo de todo o tempo que lá estivemos.

Chegado o dia 6, a tensão está ao rubro por desfilarem no Meo Arena. onde são avaliados por um júri e exibem o trabalho que tiveram durante meses. Mas é no dia 12 que, para José Peres, o proveito, a diversão e o valor de todo o trabalho feito é recompensado. Este dia é para desfilar na Avenida a sorrir e a cantar a plenos pulmões.

São 21:30h de uma terça-feira. Os que já chegaram estão à porta do Complexo Desportivo da Lapa a treinar os primeiros passos, sob a orientação de Paulo Jesus, o ensaiador que se mantém fiel a esta marcha. Enquanto esperam uns pelos outros não se pense que estão quietos a conversar. O ensaio ainda não começou, os marchantes ainda não estão todos presentes, mas os que estão já ensaiam os primeiros passos. Durante dois meses os ensaios são diários.

“O processo é doloroso, mas eu tenho um livro onde tenho tudo desenhado. Preparo tudo antes de vir para aqui e depois faço passar essa memória para eles e introduzo isso na música”, explica Paulo Jesus como é que chega às coreografias que a marcha leva a concurso. Se os marchantes estiverem a desfilar bem ou mal, a reação é imediata. Sempre coreografou a Marcha da Madragoa por opção. “Eu acredito mais neles do que eles neles próprios”, afirma Paulo, que percebe quando as pessoas ainda não entenderam o conjunto da coreografia, porque quando entendem “tudo faz sentido”.

A relação entre todos, na marcha, é de amizade e quando um se engana, o colega do lado imediatamente o ajuda a fazer o passo corretamente. Estão todos ali a lutar por um objetivo comum e desistir naquelas horas de ensaio não é opção. O amor ao bairro é maior que o cansaço ou as dores nos pés.

Nesta marcha os jovens adultos dominam. Conseguem ter um ambiente sério, mas também sabem conviver . Podemos ver que são um grande grupo de amigos empenhados em vencer. Esta marcha “menina” é este ano apadrinhada por Débora Monteiro e João Ricardo, ambos atores.

A atriz mostra-se muito contente por se estrear como madrinha de uma marcha e para ela esta é uma das melhores. “São todos muito divertidos, são pessoas do bairro que não têm problemas nenhuns em falar à vontade e isso é que é giro.”

Para João Ricardo, ser padrinho desta marcha é um prazer por sempre ter considerado interessante o facto de marcharem descalços. Espera ainda que esta marcha ganhe, até porque fez uma promessa que mantém secreta. Para ambos “está a valer muito a pena”.

Durante o ensaio, Débora e João Ricardo vão conversando, sempre muito animados ao lado dos marchantes. A boa relação com o grupo também é visível e a vontade que têm de vencer é inquestionável.

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Marcha do Alto Pina

São 21h30 de uma quinta-feira e chegámos ao ensaios da Marcha do Alto da Pina. Estamos na Escola Artística António Arroio, o ginásio é pequeno, mas isso não importa. O importante é ensaiar.

Empenhados, organizados e divertidos. Assim são os marchantes, que durante o ensaio lá se vão lembrando de um passo ou outro que poderia ficar bem. As idades estão entre os catorze e  os cinquenta anos. Querem dar o seu melhor sem nunca perderem a alegria e o sentido de aprendizagem constante. “Para aprender é preciso estarem calados e concentrados”, adverte Bruno Fidalgo que, acompanhado pelo seu assistente José Tavares, coreografa e ensaia esta marcha.

À conversa com Ivone Neto, a coordenadora, ficámos a conhecer um pouco destas pessoas. Este ano, na marcha, “30% são marchantes novos, que andam pela primeira vez nestas andanças e vão aprendendo com os mais antigos. Um deles já é marchante há 25 anos. Uns já têm filhos e já trabalham, na maioria dos casos, e muitas das vezes aqueles ensaios acabam por ser um escape”. Especialmente para as mulheres, que têm de ser mães, donas de casa e trabalhadoras, com uma vida atarefada, os ensaios fazem-nas esquecer o stress diário por umas horas. “Para alguns deles, esta é uma distração dos problemas do dia-a-dia”, diz-nos Ivone Neto.

Para Ivone é importante mostrar a vontade dos mais velhos em passar o testemunho aos mais novos. “Querem prepará-los da melhor maneira, querem que aquela marcha continue por muitos mais anos.” O reverso deste sangue novo é, confessa, a dificuldade de controlá-los para que se concentrem. O espírito de entreajuda está bem presente. No dia da Avenida ainda é mais marcado e a adrenalina para que tudo funcione corre-lhes nas veias.

E o que motiva os mais jovens a quererem vir para as marchas? A resposta é simples e quase imediata para Ivone: “a paixão pelo bairro, o amor à camisola e o convívio durante os 2 meses em que ensaiam.”

No Alto Pina, a coreografia é montada com o decorrer dos ensaios e só depois é que a “limpam” para que tudo fique perfeito. Durante o ensaio, é engraçado observar as crianças, filhas de marchantes, a ensaiarem com o resto da marcha num cantinho. Este é um prazer que lhes é passado desde muito pequenas, enquanto ali estão. No futuro, quem sabe, talvez sejam o próximo sangue novo desta marcha.

Este ano quem a apadrinha é Teresa Guilherme e Bruno Cabrerizo. O ator brasileiro, pela primeira vez a conhecer as marchas populares, mostrou-se satisfeito e à espera do melhor na Avenida. “Eu estou muito contente, pelo convite, pelo par e por estar aqui. O resto só saberei depois de tudo acontecer por ser a minha primeira vez”, disse-nos, entusiasmado por marchar e apadrinhar esta marcha.

O que o fez aceitar o convite foram os ensaiadores, dos quais gosta muito. Para além disso, iria fazer par com a apresentadora Teresa Guilherme. Ela, que também ficou muito contente com o convite e com o par. Para Teresa “esta é uma marcha muito jovem e a juntar a isso já tinha muita vontade de voltar às marchas”, que foi razão suficiente para dar o sim ao Alto do Pina, 20 anos depois de ter desfilado pela Bica.

À semelhança das outras, o bairrismo é bem marcado e as pessoas expressam-no à vontade. O ambiente é descontraído, mas de afincado trabalho.

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Marcha do Bairro Alto

Desta vez, é uma quarta-feira. Estamos no Polidesportivo de Santa Catarina, na Calçada do Combro, onde ensaia a Marcha do Bairro Alto. Os marchantes vão chegando aos poucos. O figurinista chega, entretanto, e também marchantes antigos que já não fazem parte ativamente da marcha.

Quem a ensaia é um casal: Dino e Carla. O marido de Carla veio para as marchas por arrasto e hoje é, com ela, coreógrafo. Foram marchantes e coreógrafos noutras marchas e desde 2012 têm ficado pelo Bairro Alto. É um casal descontraído, na casa dos quarenta anos, ela faladora, exigente e sonhadora, e ele mais calmo, mais terra-a-terra. São uma mistura perfeita, produzindo um equilíbrio de que os marchantes gostam muito.

Durante sete anos, Carla foi marchante no Beato, chegou a fazer marchas infantis. “Desde miúda que vejo as marchas populares e sou mesmo fã incondicional dos Santos populares. Adoro isto!” Sempre foi uma menina apaixonada pelas marchas e transmitiu a Dino essa mesma paixão. Depois dos dois meses de ensaios, ambos confessam que ficam um bocadinho desorientados. “Estamos aqui dois meses e meio… Quando isto acaba, parecemos uns maluquinhos a olhar para o teto à noite”, disse-nos Dino.

A D. Maria Helena é uma das figuras dos ensaios. Foi marchante durante 33 anos e é das senhoras que mais carinho recebe quando vai assistir. Já não marcha, mas lá se mantém, nem que seja para ver, porque toda a sua vida girou em torno dos Santos Populares e em especial da Marcha do Bairro Alto. Nas marchas populares fez amigos para a vida, conheceu o primeiro namorado, casou e construiu a sua família. Foi com 14 anos que entrou nesta vida, da qual já não consegue sair; ali, foi e ainda é feliz.

Nesta marcha, o pormenor de indumentária, este ano, está no xaile que as meninas levam aos ombros. Consoante os seus lugares na coreografia têm xailes de diferentes cores. Maria Helena lembra que, dantes, os fatos e acessórios eram feitos pelos elementos de cada bairro. Hoje em dia, o figurinista manda-os para costureiras que trabalham com a marcha.

Apesar da Câmara Municipal de Lisboa financiar todas as marchas a concurso com 27 mil euros, essa quantia acaba por não chegar. Só no figurino, na cenografia e na banda que toca são 25 mil euros. Os restantes 2 mil servem para adereços, transportes e salário dos coreógrafos, mas não chegam. “Uma marcha, para ganhar, gasta cerca de 33 mil euros por aí”, calcula Dino. Por isso, o restante montante tem de ser angariado pelo Bairro.

Engane-se aquele que achar que esta festividade é apenas nos dois meses de ensaios e na exibição da Avenida. Tudo é preparado com muita antecedência, cerca de um ano antes e, de acordo com Carla e o figurinista, os preparativos para o ano que vem já estão a ser falados. “Nós estamos concentrados nos ensaios deste ano, mas já temos ideias de como queremos que seja para o próximo ano e vamos falando e juntando as nossas ideias.”

A adesão dos homens à marcha é menor que a das mulheres. Para Carla e Dino, isto acontece por alguns homens estarem ainda presos à ideia de que certos movimentos são muito “amaricados” e como, hoje em dia, as marchas estão muito viradas para o espetáculo, esses passos dentro de uma coreografia são necessários.

Os ensaiadores, apesar de descontraídos e brincalhões antes do ensaio, quando este começa não estão para brincadeiras. São exigentes e querem o melhor para o bairro.

A preocupação centra-se na ambição de serem originais e diferentes. Apesar de os coreógrafos serem muito exigentes, o ambiente é muito “cool”, como nos disse Carla. Neste grupo, são todos muito críticos entre si para que cheguem a um objetivo comum: vencer!

Esta foi uma pequena amostra da preparação das mais de vinte marchas que integram os festejos de Santo António, na capital. Todos queriam ganhar, mas só um teve essa felicidade. Agora é começar já a pensar no Santo António do próximo ano, mesmo que o deste ano ainda esteja a começar.

A marcha lisboeta de 2015 é cantada a plenos pulmões, por marchantes cheios de orgulho. Temos aqui não só a essência bairrista, mas, principalmente, a essência lisboeta.

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Grande Marcha de Lisboa 2015

Autor música e letra: Gimba (Eugénio Cardoso de Carvalho Lopes)

“Bem-vindos à cidade ribeirinha

Da faneca e da sardinha

Das varinas, dos pregões

Bem-vindos ao destino mais castiço

Do encanto e do feitiço

Da marchinha e dos balões

Bem-vindos ao Museu do Santo António

Dos anais, do património

Dos fiéis, das procissões

Bem-vindos à cidade que é do fado

De Bocage, do Chiado

De Pessoa e de Camões”

As vozes já se fizeram ouvir, os pés já marcharam e já desceram a avenida. Depois do esforço, está na hora de celebrar dois meses de trabalho árduo com a bela da sardinha no pão e as amizades que permaneceram.

No final, foi o Alto do Pina que venceu. Todas as marchas estão de parabéns e mesmo não tendo o troféu, não deixam de ser vencedoras.

Texto: Marta Costa

Fotos: Bárbara Mota

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