O assassinato de George Floyd e o movimento Black Lives Matter

No dia 25 de maio deste ano, George Floyd, ex-jogador de futebol americano de origem afro-americana e importante impulsionador do movimento hip-hop na cidade de Houston, foi assassinado durante uma detenção policial em Minneapolis, depois de, alegadamente, ter usado uma nota falsa num supermercado.

Após ter sido detido pela polícia americana, Floyd ofereceu resistência, o que levou as autoridades a usar a força de forma violenta. Depois de imobilizado e com um joelho a pressionar-lhe o pescoço durante nove minutos, o ex-jogador de futebol americano repetiu diversas vezes que não conseguia respirar – “I Can’t Breathe” foram as últimas palavras de Floyd, que acabou por morrer estrangulado por um polícia.

 

 

Mural em Berlim, Alemanha, de homenagem a George Floyd. Foto: Michele Tantussi/EPA

A frase “I Can’t Breathe” ganhou ênfase e tornou-se viral. O homicídio de George Floyd culminou numa grande onda de protestos por todo o mundo e veio reacender um dos maiores movimentos antirracistas – o movimento Black Lives Matter (BLM).

Criado em 2013, o Black Lives Matter (https://blacklivesmatter.com/) tem como principal missão lutar contra a supremacia branca e intervir na violência infligida sobre as comunidades negras pelas autoridades policiais. Combate a discriminação e tenta criar espaços na sociedade civil para a participação negra, contribuindo para a construção de um mundo onde a vida dos negros seja incluída nas diferentes sociedades. Este movimento é sinónimo de um grito de libertação por parte destas comunidades.

Blacklivesmatter.com

São várias as vítimas afro-americanas que, tal como George Floyd, morreram de forma desumana e violenta: Breonna Taylor, 26 anos, atingida a tiro por dois polícias sem farda durante uma busca ao seu apartamento; Michael Brown, 18 anos, alvejado no peito por um agente da polícia; Stephon Clark, 22 anos, morto a tiro por dois polícias; Sandra Bland, 28 anos, encontrada enforcada na sua cela prisional três dias depois de ter sido detida; Tamir Rice, 12 anos, assassinado por um agente da polícia. Cada uma destas pessoas perdeu a vida às mãos das autoridades policiais americanas.

Estes casos impulsionaram as várias marchas antirracistas ligadas ao movimento Black Lives Matter. Luta-se pela justiça, pela dignidade e pelos direitos de igualdade. As reivindicações, na sua grande maioria, aconteceram nos Estados Unidos da América, mas não tardaram a espalhar-se pelo resto do globo. Em muitos países da Europa, milhares de pessoas manifestaram o seu repúdio face à violência policial racista. Portugal não foi exceção: no dia 6 de junho de 2020, milhares de pessoas desfilaram pelas ruas de Lisboa com cartazes que não passaram despercebidos, com gritos de indignação e, principalmente, com vontade de mostrar o que estava ali em causa. O 8ª Colina esteve presente nesta marcha.

 

Organizada por vários colectivos como o Black Lives Matter Portugal, o SOS Racismo, o coletivo Consciência Negra e a Brigada Estudantil, desde a Alameda D. Afonso Henriques até ao Terreiro do Paço, mais de cinco mil pessoas deram voz à luta anti-racista, por George Floyd, mas também pelas vidas negras em Portugal.

As milhares de vozes jovens que percorreram várias ruas de Lisboa entoaram cânticos que se confirmavam nos cartazes que empunhavam: “I can’t breathe”, “Supremacia branca é o vírus”, “Não quero ter medo da PSP”. Os manifestantes pediram justiça, paz e o fim da violência policial, lembrando também o caso de violência recente contra Cláudia Simões e o caso de Alcindo Monteiro, assassinado por um grupo de skinheads no Bairro Alto.

Na Rua Áurea, os milhares de manifestantes ajoelharam-se e cumpriram um minuto de silêncio por George Floyd. A manifestação foi desaguar ao Terreiro do Paço, onde se formaram grupos para falar ao microfone e personificar a luta contra o racismo, enquanto muitos ouviram e aplaudiram.

 

"Nós só queremos mostrar que existe, de facto, racismo."

Gerson Sanca, de 21 anos, nasceu em Portugal, tem origens africanas e, neste momento, é bailarino na companhia de Staatstheater Nuremberg, na Alemanha. Antes de ir para o estrangeiro, esteve presente na manifestação do BLM em Lisboa e confessa que ficou comovido com a quantidade de gente nas ruas.

O jovem procura estar informado acerca de todos os casos de “injustiça para com as comunidades negras”, vendo vídeos e lendo muitas notícias. “Todas as manifestações têm um propósito. Neste caso, o que me fez ir foi o facto de já estar cansado destes acontecimentos. Mesmo que não seja comigo, isto está a acontecer a pessoas da mesma raça que eu. Isto podia acontecer-me a mim”, disse ao 8ª Colina.

Gerson acredita que as autoridades policiais agem consoante a cor da pele, mas relembra: “É importante perceber que no final do dia somos todos humanos”. O bailarino português não esconde que acha Portugal um país racista: “Sinto que as pessoas em Portugal acham que nos fazemos de vítimas, mas nós só queremos mostrar que existe, de facto, racismo.”

No entanto, Gerson acredita que o impacto do movimento Black Lives Matter pode estar a trazer mudanças para o mundo. A principal transformação, segundo Gerson, deveria acontecer na educação, na linguagem, na forma como a história é contada, pelo que as comunidades negras não deveriam continuar a ser retratadas como mercadoria. A escola, observa, “tem uma grande influência na educação da criança, e nós guiamo-nos muito pelo que aprendemos.”

O jovem de 21 anos refere, ainda, a forma como este grupo étnico é representado nas séries e nos filmes. Considera que, atualmente, as séries, quando incluem personagens negras ou LGBT, mostram uma realidade cheia de preconceito. “Nós queremos ser vistos como pessoas normais; queremos ter um desenrolar da história igual ao dos outros, não queremos ser representados como seres unidimensionais”, afirma.

Para Gerson, o essencial é que as pessoas se eduquem em relação às questões raciais, que saibam ter consciência de que não pode continuar a existir um predomínio branco em relação às comunidades negras. A manifestação foi, por isso, um alerta à população para o grande problema que é o racismo: “É em momentos como o da morte de George Floyd que temos de nos unir, para que se veja o que a união consegue fazer.”

 

 

Scroll to Top
0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap