O braço de ferro entre Madrid e a Catalunha

Quique Garcia/EPA

Dois anos depois do referendo, não há independência nem solução à vista. Este ano foi mais uma vez marcado pela tensão entre Madrid e a Catalunha, o que representa a continuação de uma crise que já não é de hoje. 

“Els Segadors” (“Os Ceifeiros”) é o hino nacional da Catalunha e refere-se à revolta dos catalães – apoiada pelo reino francês –, no verão de 1640, contra Filipe IV, rei de Espanha. É no mesmo ano, a 1 de dezembro, que Portugal consegue restaurar a sua independência, após seis décadas de domínio espanhol. Mas a Catalunha não teve a mesma sorte. 

Depois desta, muitas outras revoltas se seguiram, e o assunto permanece até hoje por resolver. Em outubro deste ano, na sequência da condenação dos nove líderes do movimento independentista catalão a penas entre os nove e os 13 anos de prisão pelo seu papel na tentativa da região de obter a independência, as ruas da Catalunha inundaram-se de pessoas. O caos estava instalado, com estradas cortadas, voos cancelados e transportes paralisados. Nos dias seguintes os protestos intensificaram-se e Barcelona transformava-se num autêntico campo de batalha: contentores de lixo a arder, objetos arremessados às forças policiais, vários manifestantes feridos. Em novembro, a nova onda de protestos ficou marcada pelas manifestações contra a visita do rei de Espanha e pelo bloqueio da autoestrada na fronteira que liga França e Espanha.

Enric Fontcuberta/EPA
Enric Fontcuberta/EPA

Nuno Vilão tem 21 anos e é licenciado em Ciência Política e Relações Internacionais pela FCSH. Fez Erasmus em Madrid e refere que no meio universitário as opiniões se dividem: “Nas paredes das casas-de-banho, nos corredores e nos parques de estacionamento lia-se de tudo – tanto «morte ao independentismo» e «vota VOX» como «viva a Catalunha Livre».”

A crise catalã distanciou nacionalistas de não nacionalistas, mas também promoveu fraturas internas. No dia 10 de novembro, Espanha voltou às urnas pela segunda vez este ano. O PSOE de Pedro Sánchez ganhou novamente, mas sem maioria absoluta, e a grande novidade foi a ascensão da extrema-direita. “Há sem dúvida um impasse que se manteve, apesar de as opiniões se terem extremado – nomeadamente à direita, onde o VOX absorveu grande parte dos anti-independentistas moderados e liberais do Ciudadanos”, comenta Nuno Vilão. O resultado foi um parlamento fragmentado, mas com os partidos independentistas a saírem ligeiramente reforçados.

Na opinião de Nuno Vilão, o que a Espanha sofre atualmente é “uma autêntica crise de identidade”. A resolução pelo diálogo parece ser uma realidade cada vez mais distante, e continua a não haver solução que agrade a madrilenos e catalães.

Artigo escrito por: Diana Gomes
Fotografia de capa: Quique Garcia/EPA

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