O capitalismo selvagem de Moscovo

“Aqueles que estavam no poder comunicaram aos seus próximos que o fim do regime se aproximava. Era tempo de investir.” As palavras são de Irina, guia turística em Moscovo.

Com uma postura altiva e um olhar que tanto de azul tem como de gélido, Irina explica como a riqueza nacional foi distribuída através de vouchers pela população após a queda da União Soviética e como, graças à ignorância da maior parte das pessoas a respeito da natureza desse projeto, estes vouchers foram desenfreadamente vendidos para atenuar as suas más condições financeiras, concentrando-se assim nos círculos mais próximos do governo.

Irina caminha por entre duas linhas de comboio na estação de metro Ploshchad’ Revolyutsii. 76 estátuas de bronze engrandecem a santidade do trabalho, da família e do descanso. O trilho de mármore culmina num fresco que retrata a chegada jubilosa do comunismo. A voz de Irina ecoa pela estação: “Não chegámos nunca, mas era assim que imaginávamos que estaríamos, felizes e contentes”.

 

Irina à esquerda
Irina à esquerda

 

De facto, na história contemporânea, nunca ocorreu um terramoto social tão caótico como o que ditou o fim da União Soviética.

A imagem da Rússia de Lenine inscrita nas nossas mentes pelos inúmeros livros de história parece um fantasma ao calcorrear a Praça Vermelha. Tela tingida pelo rumo da história, nela se encontra o mausoléu de Vladimir Lenine, diretamente oposta a um mastodôntico centro comercial que se estende por 240 metros de opulência neo-clássica italiana e que acolhe os produtos de luxo de marcas internacionais.

A norte situa-se a catedral de S. Basílio, erguida entre 1555 e 1561 por ordem do Czar Ivan, o Terrível como celebração da captura dos territórios de Kazan e de Astracã.

De estilo incomparável no espectro arquitetónico nacional, a catedral relembra uma fogueira numa floresta álgida, com as suas cúpulas tocando no céu como chamas indomáveis. A lenda diz que quando o Czar olhou pela primeira vez para a catedral ficou tão embevecido que ordenou arrancar os olhos ao arquiteto que a projetou para que nunca conseguisse fazer algo parecido.

 

Interior do Convento de Novodevichy, um dos mais vistosos de Moscovo. Este convento foi construído no estilo barroco russo e permanece intacto desde o século XVII

 

No entanto, de tão preenchida por turistas, a praça emana uma grandiosidade opaca. As paredes que outrora ferviam com demonstrações militares e gritos de mudança hoje parecem estar emolduradas por baixo de um sinal a proibir as fotografias com flash.

 

O nome dado à Praça Vermelha não deriva da cor dos tijolos, nem da associação da cor vermelha ao sangue derramado ou ao Partido Comunista, mas deve-se, sim, ao facto de a palavra russa “красная” poder significar tanto “vermelho” como “bonito”

 

Se Moscovo pode ser o coração da Rússia, a rua Arbat é a sua artéria aorta, alimentando-o com a elegância dos artistas de rua e o discurso vernacular de Pushkin. Porém, numa cidade onde comunicar em inglês ou pedir direções é uma prova de esforço e paciência, é esquisito passear numa rua onde a cada quilómetro existe uma loja de souvenirs, um pub inglês ou um cabeleireiro Rockabilly. Cafés franceses, cozinha italiana, woks para take-away. Numa explosão de publicidade e covers de Simon & Garfunkel, Arbat é o apogeu da globalização na Rússia.

 

A Rua Arbat é uma das mais antigas de Moscovo

 

O fenómeno Arbat é uma consequência direta do colossal crescimento da indústria do turismo que hoje, segundo a agência World Travel & Tourism Council, supera a indústria automóvel e emprega quase tantas pessoas como o setor financeiro.

Apenas este ano, segundo o site oficial do Mayor de Moscovo, a capital russa acolheu 17,5 milhões de turistas apesar de deter uma baixa avaliação no que toca a estabilidade interna, incidência de crimes, relações externas e uma fila de três horas para passar a imigração.

O alcatrão também espelha a alma de Moscovo. A agência Avtostat reporta que, desde o dia 1 de julho deste ano, existem 10 500 carros de luxo no país, sendo que mais de metade desse número – 5 900 unidades – está registada na cidade de Moscovo.

Dessa forma, é comum ver um engarrafamento de Rolls-Royce e de Maseratis. Engarrafados estão também os cafés da avenida Krivoarbatsky, onde, de acordo com a instituto Statista, o metro quadrado custa cerca de 1,12 milhões de Rublos (16 400 euros) e onde se situa a casa mais cara da cidade, uma mansão de três andares com um espaço combinado de 3 700 metros quadrados, adquirida a 4,2 mil milhões de Rublos ( 61,5 milhões de euros).

Sem contar com aqueles que vivem na cidade sem autorização de residência, Moscovo tem 10 milhões e meio de habitantes. Depois de Istambul, é a cidade mais populosa do continente europeu.

 

O interior de uma igreja ortodoxa

 

Nos confins da capital russa vivem cerca de oitenta multi-milionários cuja riqueza continua a aumentar enquanto a população geral viu um decréscimo de dois mil dólares no salário total do agregado familiar.

Segundo a Credit Suisse, esta desvalorização deve-se às sanções impostas pelos Estados Unidos e pela União Europeia à Rússia e à consequente desvalorização do Rublo, que impediu o crescimento económico destas famílias.

 

O imponente Museu Histórico do Estado, localizado entre a Praça Vermelha e a Praça Menage, em Moscovo

 

Tendo em conta que, de acordo com a agência Trading Economics, o salário médio ronda os 380 euros por mês, esta diferença de rendimentos torna Moscovo numa cidade onde a riqueza exuberante convive com o duplo emprego das classes médias mais pobres.

Dados do Ministério de Educação e da Ciência da Federação Russa mostram também que o ensino superior é cada vez mais exclusivo a uma pequena parcela da população, com propinas anuais a variarem entre os 950 euros e os cinco mil euros. Comparativamente, Portugal, no ano letivo 2015/2016, registou valores entre os 755 euros e os 1064 euros.

Irina pára para vislumbrar a torre Ostakino, uma agulha de 540 metros e 120 andares, a perfurar o sol cadente, os seus cabelos morenos adotam um ligeiro tom encarnado. “De santuário do comunismo a meca do consumismo, Moscovo é o clímax do capitalismo selvagem”, suspira.

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