O exclusivo continua a ser a nossa melhor arma

Se esta notícia fosse escrita pela equipa multimédia que Amy O’Leary integra no New York Times, a probabilidade de ser acompanhada de um slideshow seria reduzida. É que os slideshows são coisas do passado. O jornalismo está a mudar para o meio digital: isso é ponto assente. Mas como está o digital a mudar em prol do jornalismo?

Amy O’Leary, jornalista multimédia e repórter do New York Times cujo trabalho foi nomeado para três prémios Emmy, continua a acreditar nos princípios do jornalismo: precisão, ética, rigor, transparência. “As pessoas continuam a procurar-nos para se informar acerca de temas vitais, como as eleições. É aquilo que somos bons a fazer, e temos de continuar a fazê-lo”. No entanto, todas as notícias e reportagens estão agora a ser pensadas para o multimédia. Um número crescente de pessoas informa-se não só através do computador, mas dos tablets e dos telemóveis. Portanto, “é natural que a produção jornalística se adapte neste sentido”.

No meio digital, a competição pela informação é, no entanto, feroz. As redes sociais, os blogues e as publicações de autores anónimos fazem deste meio uma selva na qual a atenção dos leitores vai saltitando. “Nos estudos que fazemos sobre os utilizadores do digital, uma das coisas mais interessantes que constatámos foi que as notícias importantes é que vão ao encontro dos leitores, e não o contrário. Muitas destas notícias aparecem em alertas e nas redes sociais”.

Mas como é que se consegue trazer as pessoas das redes sociais para o jornalismo? Para Amy, é uma mais-valia para os jornalistas serem vistos como validadores de factos. “Isto só mostra que as pessoas confiam no nosso trabalho, nem que seja para confirmar o rumor pelo qual passaram os olhos nas redes sociais”. Deste ângulo, o jornalismo parece reduzir-se ao papel de bastião – e último reduto – da verdade.

O jornalismo, porém, não se conforma com esse título. Pelo contrário, o contexto altamente competitivo em que se insere e o público cada vez mais informado a que se dirige só estimulam o jornalismo “a tornar-se melhor e, de algum modo, especial”. Grande parte desse modo assenta no exclusivo, que “continua a ser a melhor arma”. No entanto, quando fala em exclusivo, Amy não se refere ao exclusivo tradicional: fala essencialmente na escolha do meio que melhor contará a história, do meio que a poderá tornar mais próxima dos utilizadores.

A beleza do jornalismo multimédia reside, portanto, nas possibilidades infindáveis de criação. A imaginação e a capacidade técnica serão o limite. Se não acredita, passe os olhos por este trabalho do New York Times sobre os jogos viciantes e acéfalos que todos jogamos. Ou, então, por esta história onde a ilustração faz a vez de fotografias que não existiam.

Se passou mais de um minuto e meio a ler este artigo, é sinal de que o jornalismo escrito neste meio continua a ser apelativo. Segundo estudos feitos por Amy e pela sua equipa do New York Times, esse é o tempo que um leitor digital demora, em média, a mudar de página.

Por Mariana Madrinha

Imagem por Lourenço Santos

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