O Gato e o Rio: Os candidatos à liderança do PSD

Pedro Santana Lopes é o gato escaldado que nem sempre cai de pé. Rui Rio quer mostrar a frieza do Douro. Ambos deixam crescer as garras para enfrentar o animal político, António Costa.

Santana Lopes nasceu a 29 de junho de 1956 e, aos 12 anos, tempo em que a democracia era uma ideia escondida do olhar dos portugueses, já queria ser político. Rui Rio nasceu a 6 de agosto de 1957, na cidade Invicta.

Pedro e Rui, Rui e Pedro. Separa-os um ano de idade, mas os anos de militância no PSD não: ambos levam já 39.

Santana formou-se em Direito, em Lisboa, e Rio em Economia, no Porto. Ambos chegaram à liderança das respetivas Associações de Estudantes, sendo que a de Economia do Porto foi a primeira do país sem maioria comunista. Pedro aproximou-se do PPD-PSD pela via mais à direita, tendo inclusive fundado o Movimento Independente de Direito (MID).

O nortenho confessa ter sido influenciado pelos professores do colégio alemão onde estudou e no qual a maioria dos professores eram, nas palavras do próprio, “afetos ao SPD” (partido alemão de centro-esquerda). Ademais, Rui Rio leva no sangue a ferocidade do avô materno, Integralista Lusitano, contra Salazar, tendo mesmo chegado a atentar contra a vida de Afonso Costa.

A admiração por Sá Carneiro também correu dentro do jovem Santana, que, em 1978, assinou uma moção ao VI Congresso do PPD a defender o regresso do primeiro líder do partido ao poder. A moção G – como havia de ser recordada – acabou por ser uma das portas de entrada para Sá Carneiro. Ainda nesse Congresso, no Hotel Roma, em Lisboa, Carneiro fascinou-se pelo discurso de Santana Lopes e acolheu este “miúdo” dos Olivais sob a sua asa.

Santana Lopes é o gato que nem sempre cai de pé. Fotografia: Wikimedia Commons/Prisma (editada pelo autor)

A norte, Rui Rio ia subindo na JSD até chegar ao Conselho Nacional da “Jota”, dois dias antes de Sá Carneiro morrer. Por essa altura, Santana Lopes assumia a posição de assessor jurídico do primeiro-ministro e não olhava o poder com olhos de felino mansinho.

Os dois cruzaram-se pela primeira vez numa reunião da Comissão Política do então líder do PPD-PSD, Francisco Pinto Balsemão.

As circunstâncias eram diferentes; Rui Rio era vice-presidente da JSD, naquela altura liderada por Pedro Pinto (que, entretanto, se converteu ao “santanismo”), graças à sua vitória na Associação de Estudantes da Faculdade de Economia da Universidade do Porto e à sua atitude irreverente e ativista, desafiando professores e até o ministro da Educação, Vítor Crespo.

Já Santana era assumidamente “anti-balsemista”, recusando várias vezes integrar o Governo de Balsemão. Rio relembrou, numa entrevista recente ao semanário Expresso, uma das reuniões onde se discutia o plano estratégico para o Governo de Balsemão, descrevendo o seu atual rival na corrida à presidência do PSD como “o Pedro Santana Lopes que todos conhecemos: um bocado rebelde, um bocado rebarbativo…”.

Quando Balsemão saiu, Rio saiu com ele, tendo-se afastado da vida política e abraçado o seu percurso no setor bancário: “Eu tinha acabado o curso em julho de ’82, comecei a trabalhar em novembro e não quis ir para deputado porque achei que tinha de exercer a profissão”.

Rio, como quadro do Banco Comercial Português, foi responsável, entre outras funções, pelo estudo e conceção de novos produtos financeiros. Mais tarde, foi diretor financeiro da fábrica de tintas CIN, dando especial atenção à relação da empresa com o mercado de capitais.

Nem sempre Rui Rio e Santana Lopes andaram em faces opostas no “campo de batalha” e, se Balsemão era o ponto de rutura entre os dois, Cavaco incitou-os a dar as mãos. Fotografia: Wikimedia Commons/Prisma (editada pelo autor)

Ora, conta a história que, no parlamento, os deputados do PS e do PSD uniram forças para concretizar o Bloco Central, porém, nem Rio nem Santana quiseram “carregar a cruz”. Aliás, Santana carregava uma diferente ao lado de Marcelo Rebelo de Sousa, Conceição Monteiro, José Manuel Durão Barroso, José Miguel Júdice e Nuno Morais Sarmento, lançando-se na Nova Esperança, um movimento anti-Bloco Central.

Partindo da Nova Esperança, Santana ingressou na lista que apoiava Cavaco Silva a líder do partido no Congresso, em 1985, tendo sido eleito por pouco contra o candidato “balsemista”,  João Salgueiro, apoiado por Rui Rio.

Mas nem sempre Rui Rio e Santana Lopes andaram em faces opostas no “campo de batalha”, e, se Balsemão era o ponto de rutura entre os dois, Cavaco incitou-os a dar as mãos. Em 1991, o PSD, sob a alçada de Cavaco Silva, acolheu Rui Rio, que ganhou protagonismo no parlamento, especialmente nos debates orçamentais. Rio lutava com unhas e dentes por um Governo no qual se integrava Santana Lopes.

Cavaco apreciava o “maneio da espada” e convidou Rui Rio para o Executivo, assumindo este, primeiro, o cargo de secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros e, mais tarde, o de secretário de Estado da Cultura.

Em 1995, ano do fim do terceiro Governo de Cavaco, Santana concorreu pela primeira vez à liderança do partido, candidatando-se contra Fernando Nogueira e Durão Barroso, apoiado pelo recém-convertido ao cavaquismo, Rui Rio. Porém, Santana Lopes desistiu e trocou a vida política pela sportinguista.

As setas do símbolo do PPD-PSD simbolizam os três vértices do movimento: o poder político e intelectual; a força económica e social; a força física. O seu paralelismo exprime o pensamento da frente unida: tudo devia ser mobilizado contra o inimigo comum – o nazismo.

Santana Lopes chegou à presidência do Sporting com algo que raramente se consegue ter: um título logo na primeira semana – neste caso frente ao Marítimo. Mas não foi tudo glórias para o agora candidato à presidência do PSD. Desde a decisão de acabar com o futebol feminino, o voleibol, o hóquei em patins e o basquetebol, até à rábula da falta de luz no prolongamento de um jogo da equipa de futebol principal contra o Chaves, a pressão interna foi elevada.

Um ano depois, a aventura no futebol terminou, e Santana Lopes obedeceu ao chamamento da política uma vez mais. Condidatou-se e venceu a autarquia da Figueira da Foz, em 1997.

E, em 2000, pela terceira vez em cinco anos, candidatou-se à presidência do partido, medindo forças, uma vez mais, com Durão Barroso. Dois anos depois, Barroso foi eleito primeiro-ministro e carregou Santana para o cargo de vice no pódio.

Em 2004, quando Durão Barroso decidiu pela Europa ao invés de Portugal, Santana Lopes foi indigitado para o cargo de primeiro-ministro do XVI Governo Constitucional, pela mão do então presidente Jorge Sampaio.

Começaram aqui as “trapalhadas” que Rui Rio tão prontamente fez questão de mencionar no seu frente a frente, na RTP, com Santana Lopes, a 4 de janeiro.

Tudo começou mal. O discurso de tomada de posse de Santana Lopes era longo e repetitivo. O clima de chacota acentuou-se quando se percebeu que certos ministros, como Paulo Portas e Bagão Félix, iam tutelar pastas cujos nomes desconheciam. A tomada de posse dos secretários de Estado também não escapou à confusão. O caso mais insólito pertenceu a Mário David, secretário de Estado dos Assuntos Europeus, que faltou à tomada de posse por não ter sido avisado de que se iria realizar a cerimónia. Depois vieram as férias: 19 dias após a tomada de posse, Santana Lopes estava de partida para descansar numa vivenda na Quinta do Lago e, já com algumas semanas de andamento, voltou a ausentar-se numa viagem para Ibiza. Já no mês de setembro, o atraso na colocação dos professores também veio alimentar a imagem de desorganização do Governo – no dia 22 do mês de início das aulas apenas 62% das escolas se encontravam em atividade.

Santana já não tem nove vidas e Rui Rio luta pela primeira. Ambos têm um colosso pela frente, António Costa.

“Fartei-me do Santana como primeiro-ministro, estava a deixar o país à deriva – mas não foi uma decisão ad hominem. Hoje faria o mesmo. De vez em quando é preciso dar voz ao povo – e percebi qual era o sentimento do povo.” Foi desta forma que o ex-presidente Jorge Sampaio, no livro de autoria de José Pedro Castanheira, “Jorge Sampaio – Uma biografia”, relembrou a curta viagem de Santana Lopes ao cargo de primeiro-ministro.

Rui Gomes da Silva, ex-deputado e ex-ministro, também relembra os meses de Santana como ácidos: “Pedro Santana Lopes foi o alvo de todo um processo de deturpação de personalidade e de assassinato de caráter, em que muitos dos que eram, senão autores, pelo menos coniventes, faziam parte do seu partido, o PSD, como o futuro se encarregou de demonstrar”, num artigo do Observador de 2014.

Cavaco Silva, nessa altura, assinou um artigo no Expresso mostrando-se indignado com a falta de profissionalismo político em Portugal, alertando para uma crise iminente se os “políticos competentes não demitissem os ‘incompetentes’”. Usando como arma de defesa a lei económica de Gresham, avisou que “a má moeda expulsa a boa moeda”. Bastaram 48 horas para Sampaio chamar Santana a Belém e lhe comunicar que o seu tempo tinha acabado.

Dois meses depois, José Sócrates venceria com a primeira e única maioria absoluta do PS.

Já a norte, Rui Rio travava as suas próprias batalhas. Em 2002, depois de assumir o cargo de presidente da Câmara do Porto, Rio iniciou o projeto “Porto Feliz”, que visava erradicar “o fenómeno dos arrumadores de carro”, como Rui Rio lhe chamou, e reorientá-los para taparem buracos e limparem praias.

Também viu em Pinto da Costa um adversário à altura. Por suspeitas de favorecimentos da autarquia ao Futebol Clube do Porto (FCP), Rui Rio assumiu uma postura de coração frio com o clube, escolhendo não receber o presidente do FCP, nem sequer em alturas de conquistas, como na vitória do campeonato de 2010/2011. Como consequência, Pinto da Costa fez de tudo para que Rio fosse derrubado nas eleições – porém, sempre sem sucesso. Esta animosidade ainda não viu o final, tendo, recentemente, Rui Rio sido impedido de entrar nas instalações portistas para uma conferência organizada pela SIC Notícias.

História à parte, a eleição para a presidência do PPD-PSD será decidida no dia 13 de janeiro, mas ambos os candidatos herdam a missão de reformar um partido que, recentemente, teve o pior resultado autárquico de sempre. Santana já não tem as nove vidas e Rui Rio luta pela primeira. Ambos precisam de afiar as unhas para desembaraçar o novelo de lã da “geringonça” que têm pela frente.

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