O que se pede ao Jornalismo num mundo em crise?

Para fechar o colóquio “Sete vidas, sete debates – O Futuro do Jornalismo”, sete figuras importantes da comunicação social juntaram-se em torno de uma questão: O que se pede ao Jornalismo num mundo em crise?

À parte o moderador, Elísio Summavielle, presidente do Centro Cultural de Belém, o painel era composto por figuras com assento nas direções de órgãos de comunicação social. Estes diretores meteram a concorrência de lado para falar do que espera ao Jornalismo.

José Manuel Pureza (JOÃO MORAIS/8ª COLINA)

A abrir a discussão, José Manuel Pureza, em representação da Assembleia da República, apresenta algumas reflexões: “O futuro do Jornalismo pode ser antecipado por uma utopia positiva ou negativa.” Esta é a premissa pela qual todos se orientaram no debate.

A crise do Jornalismo pauta-se pela precariedade da situação do jornalista. A ela junta-se aquilo a que José Manuel Pureza, vice-presidente da Assembleia da República, chama “obesidade da opinião em detrimento do Jornalismo noticioso e da reportagem.”

O que é que se pede então num tempo de populismo que se organiza na sombra? Fundamentalmente, Jornalismo rigoroso. Outros pontos destacados na intervenção tiveram que ver com a “naturalização do infotainment”, informação disfarçada de entretenimento e o facto de a crise do Jornalismo ser a crise do modelo de negócio (tema que volta e meia, pela sua preponderância, surge na discussão). Pureza sublinha também a importância da memória e de dar contexto ao público, já que o imediatismo é inimigo do Jornalismo – “se a Comunicação Social quiser disputar o tempo com as redes sociais, perde sempre.” No fundo, no futuro espera-se “que não se estrague as notícias”, diz Pureza, citando o jornalista do jornal americano The Guardian Alan Rosidrger.

José Manuel Pureza não se limitou a atribuir responsabilidades apenas aos outros. Destaca que a liberdade de imprensa é um direito institucional e que cabe à Assembleia da República salvaguardar estes direitos.

“Uma noticia é uma noticia. Uma mentira é uma mentira.”

José Manuel Pureza, Vice Presidente da Assembleia da República

Foi o Presidente do Centro Cultural de Belém, Elísio Summavielle, que moderou o último painel do dia e do evento. Antes de lançar a pergunta principal que juntou uma centena pessoas na Sala Almada Negreiros, destacou a importância do desafio lançado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa: “foram dois dias muito enriquecedores para o Jornalismo nacional. Nesta altura das fake news era necessário haver um debate sobre as questões mais pertinentes do Jornalismo”.

Elísio Summavielle (JOÃO MORAIS/8ª COLINA)

De todos os diretores presentes no painel, foi Luísa Meireles, diretora da Agência Lusa, a tentar dar resposta à pergunta inicial. “Essa é a pergunta mais difícil de todas”, afirmou Luísa, entre alguns risos. De facto, entre o painel todos concordaram que ninguém ainda descobriu a pólvora, que é difícil prever como se pode salvar o Jornalismo no futuro.

Para a diretora da Lusa, o Jornalismo e os jornalistas vão existir sempre pois são demasiado necessários para o funcionamento de uma sociedade democrática. Tentando responder à pergunta principal, Luísa Meireles afirmou que o futuro está no “rigor e na ética”. Para ilustrar o seu ponto de vista usou o exemplo da Lusa, que tem como principal objetivo “fazer noticias e dar informação o mais rápido possível, aliado ao facto de excluirmos as opiniões, que põem em causa a credibilidade e o rigor.”

O rigor foi cabeça de cartaz ao longo de todo o debate. Maria Flor Pedroso, diretora de informação da RTP, afirmou que para além do rigor é necessário haver um cuidado redobrado por parte dos jornalistas, referindo o respeito pelo código deontológico que “não é para emoldurar e fazer dele montra”. Nas palavras de Maria Flor, os jornalistas devem “continuar a perguntar, a querer saber, confrontar e verificar. Só assim não caímos nas garras das fake news.”

Como se debatia o futuro do Jornalismo, várias intervenções foram mais centradas para os estudantes de Jornalismo e para aqueles que iniciam carreira, através de estágios. A diretora de Informação da RTP deixou alguns conselhos que considerou fundamentais. Separou opinião de notícia, afirmando que cabe ao “jornalista ter a certeza de que a noticia verificada prevalece sobre a opinião”.

Para Maria Flor Pedroso é imperativo que o jornalista deixe de pensar pela cabeça do chefe, uma vez que jornalista não é obrigado a fazer tudo, alertando para a existência do artigo décimo do código deontológico que salvaguarda os interesses do jornalista.

Porém, esta também foi realista e admitiu que isso nem sempre acontece. Torna-se especialmente mais “difícil em redações precárias, que hoje têm a ideologia da sustentabilidade e do negócio em causa”.

Da esquerda para a direita - Pedro Santos Guerreiro, Graça Franco e Ricardo Costa (JOÃO MORAIS/8ª COLINA)

Pedro Santos Guerreiro, ex-diretor do jornal Expresso, é, no geral, otimista quanto ao Jornalismo atual, apesar de reconhecer as dificuldades económicas que o meio enfrenta: “A tecnologia tornou obsoleto o modelo de negócio, mas não tornou obsoleto o Jornalismo. Deu-nos ferramentas para chegarmos como nunca a leitores e para trabalharmos como nunca trabalhámos”. Pedro Guerreiro afirma que a grande culpa para um aparente desinteresse da população jovem pela informação reside nos jornalistas: “Temos de perceber como é que vamos falar com eles. Se não conseguirmos aprender como é que lhes chegamos, então falhámos”, avisa o ex-diretor do jornal Expresso.

Abordou ainda a questão regularmente discutida da imparcialidade no Jornalismo. Pedro Guerreiro afirma que o seu trabalho pode ser imparcial, “mas nunca é neutro”. Isto porque o Jornalismo não é “antissistema”. Fazendo parte do sistema democrático, “tentamos melhorá-lo por dentro.”

Graça Franco (JOÃO MORAIS/8ª COLINA)

Graça Franco representa a rádio. Retomando a premissa do vice presidente da Assembleia da República, a diretora de informação da Rádio Renascença afirma que de uma coisa tem a certeza absoluta: “para ficarmos do lado da utopia positiva, há uma luta que temos de travar – a da contra a preguiça a todos os níveis.” Graça diz que tem de se pensar no que se vai selecionar, que é importante não seguir a agenda dos outros e arranjar maneiras diferentes de informar.  

A este ponto, Graça retoma o tema da desinformação:” Não há nada de novo com as fake news.” Está lançada a discussão e Ricardo Costa pega logo por aqui.

Graça Franco e Ricardo Costa (JOÃO MORAIS/8ª COLINA)

Para o diretor-geral de informação do grupo Impresa, que detém o jornal Expresso e a SIC, as principais questões do Jornalismo estão inventadas e, para além disso, estabilizadas. Não obstante, Ricardo Costa admite que “o Jornalismo teve sempre erros e sempre houve mentiras.” A razão por se estar a discutir o impacto das fake news e como ultrapassá-las está na revolução tecnológica que o mundo sofreu.

E porque as fake news são discutidas hoje? Para Ricardo Costa, vistas bem as coisas, é o algoritmo do Facebook precisa de fake news, pois “quantas mais interações houver, mais dinheiro ganham. Todo esse sistema está montado para as fake news florescerem.

Assim, a globalização é um pau de dois bicos para o Jornalismo. “Nunca na história da Humanidade houve uma revolução tão rápida.”, aponta Ricardo Costa. Hoje chega-se a todo o mundo muito rapidamente. No entanto, aquele que dirigiu o jornal Expresso durante muitos anos mostra-nos a outra face da moeda: “O Jornalismo é a única profissão que decidiu oferecer aquilo que faz. E aí houve um erro gravíssimo.”

Como diz Pedro Santos Guerreiro, “o poder de um jornal resulta do número de leitores que temos.” E para fazer parte do sistema democrático de uma forma positiva, tentando melhorá-lo por dentro, junta-se aqui uma reflexão de Ricardo Costa: “Chegados a 2019, toda a gente percebeu que o Jornalismo tem de ser pago.”

Ricardo Costa chama a debate ainda a questão do recém votado artigo 13. Discordando dos eurodeputados que, “quando votaram o artigo 13 não sabiam do que estavam a falar”, faz questão de distinguir bem as coisas. Do seu ponto de vista, os eurodeputados não veem bem o potencial do Facebook e do Youtube. “Colocam-nas como meras plataformas de distribuição e não são.” 

Da esquerda para a direita - Manuel Carvalho e Armando Esteves Pereira(JOÃO MORAIS/8ª COLINA)

O diretor do Público, Manuel Carvalho, mantém-se otimista quanto ao futuro desta atividade, afirmando que a fase atual não é mais que uma transição. Ainda assim, tem uma ideia definida para a rentabilização do Jornalismo: “não acredito que haja qualquer modelo de negócio viável para o Jornalismo, se não houver qualquer tipo de retribuição para aquilo que o jornalista escreve e publica”, afirma.

Chama ainda a atenção aos leitores, que têm de começar a assumir a “responsabilidade” naquilo que é a “sustentabilidade” da imprensa portuguesa. Isto é particularmente relevante, diz, numa altura em que o crescimento do populismo leva a que cada pessoa a procure “as suas próprias verdades”, o que pode comprometer a integridade do Jornalismo.

Antes de terminar, reforçou a sua ideia quanto ao modelo de negócio ideal e os exemplos da sua implementação: “Se olharmos para o sucesso das subscrições pagas no Brasil e nos EUA, vemos exemplos de que as coisas podem estar a mudar. E é bom que tenhamos presente que é por aqui que se deve ir”, disse Manuel Carvalho.

(JOÃO MORAIS/8ª COLINA)

Por último, foi a vez do diretor adjunto do Correio da Manhã (CM) intervir no painel. Armando Esteves Pereira abordou a pergunta inicial de maneira diferente, afirmando que o Jornalismo atual não está em crise, mas sim o modelo de negócio. Assim, o Jornalismo nunca irá acabar, pois “sem Jornalismo não há democracia”. Disso já se sabe. É imperativo que o Jornalismo exista para informar o público, que acabará por votar e fazer as suas escolhas, mas numa situação onde a divulgação das fake news é cada vez maior, como é que se combate esse problema? Para o diretor adjunto do CM é simples, “com mais Jornalismo. O Jornalismo de qualidade é o melhor antidoto para as fake news”.

Esteves Pereira terminou a sua intervenção com um exemplo nacional real e preocupante. Este deu a conhecer à audiência o problema de Ferreira do Alentejo onde “já não se vendem jornais”. Algo que na sua ótica, e na de qualquer pessoa minimamente interessada em se informar, “é muito grave”. Para muitos, o uso do papel e a sua impressão parece ser algo já muito datado, mas para Esteves Pereira essa distribuição física de notícias e de informação é fundamental. Este afirmou que “ainda há milhões de pessoas que leem papel e temos de lhes dar esse serviço.”. Olhando para o número de cópias vendidas diariamente do Correio da Manhã, talvez o seu diretor adjunto tenha razão.

Após dois dias de debates onde se levantaram as questões mais pertinentes do Jornalismo, há que esperar para ver os resultados no terreno. O objetivo destes debates só será cumprido se nas redações de todo o país forem postas em prática todas as palavras proferidas. As setes vidas do Jornalismo ainda não se esgotaram.

O 8ª Colina está a acompanhar todos os debates sobre o Futuro do Jornalismo, durante os dias 6 e 7 de abril, no CCB.

Artigo escrito em conjunto por: Diogo Ventura, Gonçalo Taborda e Magda Cruz

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Scroll to Top