Os álbuns de 2020

E, como não podia deixar de ser, vamos aos álbuns que marcaram o atribulado ano[AL1]  de 2020. Em jeito de retrospetiva, pedimos aos nossos redatores que escolhessem alguns dos álbuns que, na sua opinião, marcaram o ano de 2020. Os nossos redatores fizeram ainda melhor: pediram a artistas portugueses que o fizessem também. Contamos com colaborações de Janeiro, ben yosei, João Não e L-ALI.

Thundercat – It is what it is

Escolha de Bernardo Soares, repórter do 8ª Colina.

O mais recente trabalho de Thundercat é um testemunho da capacidade da criação musical como expiação de dor. Com um processo criativo marcado por tumultos na vida íntima do baixista e multi-instrumentalista – o fim de uma relação de longa data, a procura da sobriedade, a morte de Mac Miller, o seu melhor amigo e colaborador frequente –, It Is What It Is é um álbum catártico. Os poemas são, regra geral, melancólicos, e a escrita será o aspeto em que Thundercat demonstra maior progressão. 

Mas a força das letras está mascarada com as  tonalidades de som, produções luminosas que são mais um passo em frente na exploração que o baixista faz da herança histórica do soul, do funk e do jazz.

“A última faixa foi a primeira coisa que [eu e o Flying Lotus] fizemos depois de sabermos do que se passou com o Mac. Foi muito doloroso de escrever. Ficámos a ouvir essa música durante horas, mas de que outra forma é que poderíamos ter transformado essa dor numa coisa bonita?”, disse Thundercat no programa Jimmy Kimmel Live, a 10 de março.

Flying Lotus, produtor e fundador da editora Brain Feeder, é aqui novamente responsável pela curadoria de mais um álbum de Thundercat. Para além de Fly Lo, as participações são escolhidas a dedo: Steve Lacy, Childish Gambino e Ty Dolla $ign representam do melhor que o Rnb e o novo soul nos deu na última década, enquanto Steve Arrington representa os pioneiros desses géneros. Três décadas depois de a crítica dar a fusão como morta, Stephen Lee Burner continua a mostrar que há receitas que são eternas se forem reinventadas.

MIKE – Weight of the world

Escolha de Bernardo Soares, repórter do 8ª Colina.

Para um dos setores mais interessantes do rico cenário do rap atual, MIKE é um dos seus pioneiros e uma das suas estrelas mais brilhantes. Em cima de beats que por muitas vezes ignoram os drums, com samples simultaneamente luminosas e nostálgicas, com flows lentos e letras densas, rappers como MIKE, Mavi e Pink Siifu enriquecem cada vez mais este subgénero do rap, que pega em influências mais ou menos claras como MF DOOM para criar algo de verdadeiramente inovador.

Weight Of The World é mais um exemplo de tudo aquilo que faz com que MIKE seja grande. Apesar de ser um rapper que pugna por letras intimistas, que servem como expiação de dor, o seu último trabalho é uma experiência redobradamente [sinónimo de íntima]. A maioria dos instrumentais é de sua autoria – camuflado por dj blackpower – e o único rapper com quem partilha o palco é Earl Sweatshirt, o homem que elevou a bandeira do movimento dos [sLums] desde a coletânea Some Rap Songs. Há uma exceção notável: o instrumental da música get rich quick scheme conta com uma sample de sopro hipnótica, e surge pela mão de keiyaA, cantora que tem em Forever, Ya Girl outro candidato a álbum do ano. Num álbum em que a escrita é mais direta do que habitualmente, MIKE chama para si todo o protagonismo, e para quem oiça o álbum é normal sentir que qualquer outro rapper só viria competir pela medalha de prata.

Em entrevista com Sideshow, MIKE explicou o título do álbum, que surgiu de uma necessidade de sinceridade com o mundo que o rodeia – uma necessidade de exteriorizar sentimentos, emoções e expectativas. Em Weight of the World, o rapper nova-iorquino cumpre aquilo que se propôs fazer.

Fiona Apple - Fetch The Bolt Cutters

Escolha de João Pedro Morais, repórter do 8ª Colina

Oito anos depois do complexo The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do, Fiona Apple quebrou o silêncio musical. E a verdade é que voltou em grande.

O quinto álbum da artista nova iorquina é um enorme empreendimento musical e lírico. Há espaço para os gritos, para os sussurros, para as piadas e até para uma espécie de golfinho muito agudo na primeira faixa, “I want you to love me.

Fetch the Bolt Cutters é a confirmação de que a vida não é linear. Mostra-nos emoções fortes desde “I want you to love me” até à despedida, “On I go”. Fiona canta-nos a sua vida, as suas polémicas, os seus amores e desamores, e vinca muitas das suas posições. Apple opta por uma perspetiva de superação e libertação. A terceira música, que dá nome ao álbum, é isso mesmo: Fiona Apple quer ser livre.

I grew up in the shoes they told me I could fill
Shoes that were not made for running up that hill
And I need to run up that hill
I need to run up that hill, I will, I will, I will, I will, I will
Fetch the bolt cutters, I've been in here too long
Fetch the bolt cutters, whatever happens, whatever happens

Apesar do universo paralelo em que vive Fiona, ao longo destas 13 faixas percebemos que ela é uma pessoa real, com todos os defeitos que isso pode compreender. Não se resigna, emancipa-se. Não se cala (e ainda bem!).

Taylor Swift - Folklore

Escolha de Mariana Serrano, repórter do 8ª Colina

Folklore, de Taylor Swift, é um álbum inesperado, nascido da pausa que a pandemia lhe trouxe. Normalmente, o período que decorre entre o lançamento dos álbuns de Taylor Swifté é de quatro anos, mas Folklore surge pouco mais de um ano depois do lançamento de Lover. A cantora afirmou que, desta vez, preferiu não esperar pela “hora perfeita”, uma vez que o momento que vivemos mostra que nada é garantido. Mas as surpresas não ficaram por aí.

Taylor Swift acrescenta ao pop novas saídas musicais à sua discografia: countryrock alternativo, indie folk e folktronica. As músicas do álbum são como uma brisa calma, mas que inova relativamente ao que era esperado da cantautora. Não há neste trabalho o contraste dos ritmos mais agitados; os sons leves transportam-nos de faixa para faixa, e Taylor deixa o seu papel de narradora de experiências e assume o papel de contadora de histórias imaginadas: cria situações, personagens e uma envolvente que nos leva a um universo à parte.

A ausência de uma perspetiva mais pessoal não torna a escrita distante: entramos numa atmosfera de “sonhos, fantasias, medos e reflexões”, como refere a autora no anúncio do lançamento. E não engana ninguém. Há aqui espaço para tudo: para questionar desamores em “the 1”, para criticar a sociedade e o machismo em “the last great dynasty”, para nos sentimos deliciados com as metáforas de “exile”, e para entrarmos na pele de James em “betty”. Estes momentos perfazem apenas dezassete minutos da hora de viagens que o álbum nos oferece.

Há que destacar também o cuidado no design: o álbum tem oito capas alternativas, sempre a preto e branco, e os vinis surgem em cores variadas. Cada versão recebe um título associado à foto onde a artista é representada. Com uma semelhança: todos os títulos remetem para a ideia da floresta.

Folklore traz o esperado a cada novo álbum: uma nova faceta da autora, com histórias que nos chegam e garantem a imersão.

Circles - Mac Miller

Escolha de Joana Nunes, repórter do 8ª Colina.

Circles, o sexto álbum de estúdio do rapper e cantor americano Mac Miller, foi lançado no dia 17 de janeiro de 2020, pela REMember Music e pela Warner Record. O álbum estava a ser trabalhado por Mac Miller antes da sua morte, em setembro de 2018. A produção foi concluída por Jon Brion. O álbum foi apoiado por dois singles: “Good News e “Blue World. Circles estreou-se no terceiro lugar na lista Billboard 200 nos Estados Unidos.

O talento de Mac Miller já é conhecido, mas a profundidade das músicas do álbum Circles é surpreendente. Todas as músicas criadas são um desabafo do artista e muitas pessoas identificam-se com o seu olhar atento e cru sobre a vida e sobre a morte, sobre o presente e sobre o futuro, sobre dúvidas e medos.

Mac Miller é genuíno nas suas letras e a escrita das suas emoções é como uma poesia perfeita que nos atinge diretamente e alimenta o nosso pensamento. O álbum irá deixar uma energia que não se apaga, uma voz reconfortante, a ideia de que um amigo escreveu as letras das músicas para nós.

Quem ouvir as músicas pela primeira vez poderá achar que vai sempre o momento ideal para as conhecer. São músicas intemporais, no sentido em que nos próximos anos continuarão a existir pessoas a rever-se nestas letras e na essência do rapper.

Brent Fayaz – Fuck The World

Escolha de Bernardo Soares, repórter do 8ª Colina.

No seu mais recente trabalho em nome próprio, Brent Faiyaz continua a aprimorar aquilo que desde o início o definiu como artista: o alcance e a sensualidade da voz, que fazem dele o herdeiro mais próximo de D’Angelo; a maneira como emprega a voz como elemento de destaque mas simultaneamente concede aos instrumentais o espaço que estes exigem; as letras que exploram o desejo e o ego. Continua tudo cá, cada vez melhor. E, no que diz respeito ao trabalho lírico de Brent Faiyaz, saliente-se Let Me Know, onde Faiyaz vai para lá da sua zona de conforto e aborda a experiência afro-americana num país onde o racismo se infiltra a todos os cantos da sociedade.

Há uma componente hipnótica em muitas das faixas que compõem FTW. Em “Clouded, “Rehab (Winter in Paris)” ou “Bluffin”, Brent Faiyaz joga com instrumentais atmosféricos, mas minimais, explorando o range notável da própria voz. Num espaço tão saturado como é o RnB dos últimos cinco anos, o ex-integrante dos Sonder destaca-se com facilidade. À conversa com a Rolling Stone[1], o cantor referiu a importância que dá a cativar um ouvinte do início ao fim de uma música, em todas as barras. A progressão gradual na estrutura da maior parte das faixas do novo álbum revela essa preocupação.

Numa era em que as plataformas de streaming tornaram os álbuns cada vez maiores, a meia hora de FTW passa a correr. Desde os tempos como voz dos Sonder que a chegada de Brent Faiyaz ao mainstream era uma questão de tempo, e a reação gerada por FTW mostra que deve ter sido este o projeto a abrir-lhe essa porta.

Tristany – MEIA RIBA KALXA

Escolha de Bernardo Soares, repórter do 8ª Colina.

Quantos artistas podem contar com duas participações de Chullage no álbum de estreia?

O melhor elogio que se pode fazer a Meia Riba Kalxa é que não parece um projeto de estreia. Ao longo da experiência do álbum, depreende-se o grau de ambição subjacente a este trabalho. A maioria das faixas estende-se para lá da marca dos cinco minutos, progredindo entre ambiências diferentes, com uma estrutura muito consciente, planeada. Veja-se a transformação que Rapepaz atravessa no terceiro dos seus cinco minutos e meios de duração: as várias influências de Tristany são reveladas de uma forma fluida, e essa variedade é marca da geração que cresceu na internet.

No início e no fim de muitas das faixas, o álbum é colorido por trechos curtos constituídos por conversas do quotidiano, gravadas com o telemóvel, muitas delas nos transportes. Em paralelo com os textos, estes trechos ajudam a desenvolver o universo pessoal e sónico da Linha de Sintra que moldou Meia Riba Kalxa.

Apesar de ser o seu primeiro projeto, Meia Riba Kalxa foi construído ao longo dos últimos cinco anos, e esse tempo de maturação é notório. O próprio complemento visual do álbum revela essa sobriedade: para além dos videoclipes, Meia Riba Kalxa desdobra-se numa minissérie e num conjunto de versões acústicas ao vivo.   

A circunspeção de Tristany deu frutos. Primeiro, foi a crítica a desfazer-se em elogios, desde o Rimas e Batidas ao Observador. Depois, foi o público, apesar de todas as barreiras que este ano atípico impôs à música ao vivo. O Lux Frágil e o Teatro São Luís já testemunharam ao vivo: Tristany tem tudo para dar certo.

Pedimos opinião à Troublemaker Records, fábrica de artistas como PHOEBE, Odete, Herlander, ness e Killian. Por lá, é unânime: “Para nós foi uma escolha fácil. Assim que ouvimos o Meia Riba Kalxa, do Tristany, sabíamos que estávamos perante um álbum incrível. Desde a relevância social à sonoridade do disco, é uma belíssima ode à viagem de comboio da Linha de Sintra”.

Freddie Gibbs & The Alchemist – Alfredo

Escolha de Bernardo Soares, repórter do 8ª Colina.

Alfredo serve como celebração da carreira de dois veteranos que estão a envelhecer como um bom vinho. Depois de dois estrondosos projetos de colaboração com Madlib, Freddie Gibbs aparece aqui ao lado de The Alchemist, um dos produtores mais consistentes – e, simultaneamente, mais prolíficos – da história do rap americano.

Alfredo chega menos de dois anos volvidos de Fetti, o trabalho a seis mãos de Freddie Gibbs, The Alchemist e também Curren$y. Apesar de Curren$y ser perpetuamente desvalorizado e de ter um histórico de trabalho fortíssimo com o tio Alchemist, Alfredo é um trabalho ainda mais consistente. Ao açambarcar os holofotes, a química de Gibbs com The Alchemist sai reforçada.

 As features são dos MCs mais impressionantes do panorama americano: Benny The Butcher e Conway The Machine, dois dos rapazes da Griselda e gente que sempre encaixou bem na produção de The Alchemist; Rick Ross, que sempre brilhou em instrumentais como o de Scottie Beam, e Tyler, que de vez em quando escolhe relembrar o mundo que só não é tido como um dos melhores rappers (no sentido estrito da palavra) por desinteresse.

Um álbum tão bom que nem os Grammys o conseguiram ignorar.

bladee - 333

Escolha de Ben Yosei, músico: 

Adoro o Bladee desde todo o fenómeno sadboys de 2013, e este foi um dos artistas mais importantes para mim no meu crescimento, tanto artístico, na componente instrumental, como pessoal. A música dele acompanha-me no meu percurso existencial quase como se a cada release ele estivesse consciente do meu caminho, ou pelo menos a atravessar um percurso de vida semelhante ao meu. É também um artista que se reinventa a cada disco que lança, desde os invernos cavernosos e os futurismos glaciais de “gluee” e de “eversince” até à distopia satânica de “working on dying” e de “red light”, passando pelo escapismo consumista de “icedancer”. 

Nos últimos dois lançamentos, Bladee tem mostrado um apreço quase religioso pela espiritualidade intrapessoal e pela caracterização de uma força maior de amor e compaixão. Se “exeter” foi o primeiro passo nessa direção, “333” é o lugar em que Bladee assenta e consolida estes valores artisticamente. Neste disco, ele soa completamente rejuvenescido, lúcido e mais em contacto com a sua essência do que nunca. 

Bladee concretiza também proezas musicais das quais nunca o julguei capaz: “Reality Surf” soa a uma colaboração inesperada entre Pierre Bourne e Thom Yorke; “Innocent of all things” e “It girl” são duas das canções pop mais contagiantes que carrego na memória recente; “Don’t worry”, num mundo idílico – um mundo com mais cor, mais magia –, seria o maior êxito do verão que jamais aconteceu.

Em suma, encontramos Bladee a fazer música mágica, repleta de cor, brilho, emoção e ressonância. Este disco soa a magia. É como ver um amigo crescer.

 

Dua Lipa - Future Nostalgia

Escolha de João Não, músico:

Em 2020 muita da música mais recente passou-me ao lado. Tenho aproveitado para estar mais focado do que nunca na minha própria criação musical, o que me fechou ainda mais aos lançamentos à minha volta. Por isso, o álbum que escolho é um álbum que, para mim, é leve e curto e que me acompanhou em vários momentos deste ano.

E o álbum é Future Nostalgia, de Dua Lipa. Pensei em parar e fazer uma escolha mais arrojada, mas por vezes a escolha mais óbvia pode ser a mais acertada. E, neste caso, este é um dos álbuns mais ouvidos e comentados da atualidade, de uma artista que acredito estar a lutar pelo pódio pop.

Este álbum cabe satisfatoriamente neste ano: traz-nos o futuro enquanto nos leva a passear a ritmos do passado; diverte-nos enquanto também pressiona algumas feridas ainda muito abertas (sendo o caso mais óbvio “Boys Will Be Boys”, em que a cantora britânica nos faz refletir sobre a expressão que dá título à faixa); e chegou-nos breve mas manteve-se em constante evolução, com vários remixes e outros lançamentos nos meses seguintes.

Em conclusão, Future Nostalgia é um projeto que promete sucesso desde a primeira audição, mas que não parece que se vá deixar datar. E é a minha escolha porque se manteve presente e relevante nos meus fones de ouvido, com uma cadência dançável e uma consciência cantável.

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