LIVROS | Os bons malandros

Quando li a Crónica dos Bons Malandros pela primeira vez apercebi-me de que cometera um erro ao escolher lê-lo numa viagem, rodeada de pessoas. Seria impossível controlar as gargalhadas e, em pouco tempo, haveria olhares curiosos na minha direcção. Achei por bem começar por mencionar este aspecto, porque, de facto, a genialidade de escrita de Mário Zambujal junta-se a um sentido de humor muito característico do autor e resulta neste clássico da literatura portuguesa.

Dividido em nove actos, Crónica dos Bons Malandros apresenta-nos uma quadrilha muito peculiar, que decidiu assaltar o Museu Gulbenkian. A peculiaridade desta quadrilha está, claro, nos seus membros: Renato, o Pacífico; Silvino Bitoque; Flávio, o Doutor; Adelaide Magrinha; Arnaldo Figurante; Pedro Justiceiro; e Marlene, também conhecida por Marlene do Renato.

A quadrilha do Renato sempre cometeu crimes pequenos, sempre sem armas — porque Renato não gosta de as usar e pensa que, se as tiver, vai querer usá-las. Quando finalmente arranja o crime que não só os tornará conhecidos como também os tornará ricos, Renato reúne a quadrilha e apresenta-lhes o plano para assaltar o museu da Fundação Gulbenkian, num assalto encomendado por um italiano. Este plano, diz Flávio, permitirá aos elementos do grupo reformarem-se e “viver à grande”.

A primeira reacção do grupo é achar que o assalto é uma ideia de doidos e que entrar no Museu é impossível. No entanto, Renato e o Doutor acabam por conseguir usar o poder argumentativo que têm para convencer os restantes elementos a participar no assalto. Aos poucos, e depois de insinuar que o grupo é cobarde — algo que Renato sabe que o grupo não gosta de ouvir —, todos os elementos começam a mostrar-se interessados em saber como irá funcionar o assalto.

O livro, no entanto, não se centra apenas no assalto propriamente dito. Ao longo dos vários capítulos vamos também ficando a conhecer melhor cada personagem e a forma como chegaram à quadrilha de Renato. Conhecer a história do grupo acaba por ser importante para perceber como funcionam entre si e também para perceber as razões que levam Adelaide Magrinha a desaparecer dias antes do assalto.

Este livro não é a história de um assalto que acaba por terminar de uma forma inesperada. Este livro é a história de um grupo de malandros com um coração maior do que aquele que dizem ter. Publicado originalmente em 1980, Crónica dos Bons Malandros continua a ser, sem dúvida, uma das melhores obras de ficção portuguesas, uma daquelas obras cuja leitura devia ser obrigatória para todos. Afinal, todos temos um pouco de bons malandros.

Texto e Foto: Sofia Costa Lima

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