Os dias são apenas números

O tempo corre muito mais devagar num lar de idosos. Os relógios são antigos e estão parados, os calendários são mortais e inúteis. As fotografias decoram cabeceiras para servirem memórias de um passado mais feliz.

Casa de Repouso de Santa Madalena, Alhandra, 2016 (Francisco Morais)
Casa de Repouso de Santa Madalena, Alhandra, 2016 (Francisco Morais)
Casa de Repouso de Santa Madalena, Alhandra, 2016 (Francisco Morais)
Casa de Repouso de Santa Madalena, Alhandra, 2016 (Francisco Morais)

A rádio faz companhia. O Mirante informa sobre as obras que estão prometidas, os casos flagrantes da atualidade e o número de infectados do concelho. Alguns dos idosos deste lar estão informados e percebem o que se passa lá fora, ainda que estejam impedidos de sair para um passeio desde que chegaram os primeiros casos de infeção a Portugal. Talvez a maioria não faça ideia do que tem preocupado o mundo nos últimos meses. Agora os dias são números, a rotina repete-se.
Uns viram-se para a televisão, outros para a conversa, outros para a sesta, quase todos para a religião. O padre já lá não vai. Ainda assim, é uma das forças que traz a estas pessoas alguma esperança de regresso à normalidade.

Se antes da Covid-19 havia espaço na rotina para atividades de ginástica, animação, passeios, sessões de leitura com convidados de instituições do concelho, (…), agora isso deixou de ser uma possibilidade. O ambiente fechou-se em si mesmo para um ciclo de dias que parece não ter fim.

Número de óbitos por faixa etária e por género (Jornal "Público")

O país fechou-se em casa, esteve 6 semanas em estado de emergência, a Covid-19 fez quase 1800 vitimas mortais e afundou a economia. Muita coisa mudou desde que o primeiro caso apareceu em Portugal.

De uma hora para a outra, os lares de idosos foram obrigados a fechar-se sobre si próprios, sem que outra alternativa restasse. Na verdade, é nos lares que residem os mais vulneráveis à pandemia da Covid-19 que vivemos atualmente. Os números não paravam de aumentar: quase 4 em cada 10 pessoas que morreram por Covid-19 em Portugal eram idosos que viviam em lares. Mais de 85% do número total de óbitos por Covid-19 registou-se em idades acima dos 70 anos, representando uma enorme ameaça a esta faixa etária.

Em Vila Franca de Xira, até ao início de Maio, já se tinham registado surtos em três instituições de freguesias do concelho, resultando em mais de uma dezena de vítimas mortais. Na Casa de Repouso de Sta. Madalena, em Alhandra, todos os cuidados são poucos.

A vida de Maria Fernanda passa todos os dias do ano por este lar. As datas festivas, como a véspera de Natal, são ali passadas. A resposta a quem lhe porque se atrasa para o jantar é “Estava com a outra família”. Isto é assim desde 1994, data da fundação desta casa.

É-lhe confiada a vida de 23 pessoas. Nunca teve tantas responsabilidades como agora, em tempo de pandemia. Atarefada, fala comigo enquanto distribui os medicamentos do almoço e a sobremesa.

“Betaserc, Pravastina, Hyabak — para o Armindo está tudo.” Pelos intervalos, dá-me conta da preocupação que tem tido com os residentes: “basta uma pessoa ficar infectada que passa o “bicho” a toda a gente, não pode ser!” . Tem andado uma pilha de nervos desde que tudo isto começou. A idade não perdoa — tem 76 anos e muitas responsabilidades: quatro filhos, cinco netos, uma vida que já foi de vários empregos em simultâneo, muitos turnos enquanto enfermeira e o marido internado no lar com um quadro clínico complicado. Para complicar, fez uma rotura de esforço na rótula e agora anda entre hospitais e exames.

A enfermeira Maria Fernanda, à esquerda, com duas residentes da Casa de Repouso de Sta. Madalena (Fotografia retirada da página de facebook da Casa de Repouso de Sta. Madalena)
Casa de Repouso de Santa Madalena, Alhandra, 2016 (Francisco Morais)
A desinfeção e os cuidados de higiene em plena pandemia. Paulo Morais na Casa de Repouso de Santa Madalena, em Alhandra. 5 de maio de 2020. (João Pedro Morais)

Paulo Morais veio em 2010 apoiar a mãe, dona da casa, com as burocracias e o trabalho de escritório, fazendo uma “perninha” na animação do lar e no desenvolvimento de atividades para os idosos. Acabou por tirar o curso de gerontologia.

Neste momento, têm 23 residentes. A casa é relativamente grande: tem espaços comuns amplos e um terraço agradável que convida a passar o fim de tarde. Paulo conta que a gestão dos trabalhores se manteve a mesma: as 24 horas do dia dividem-se em três turnos para as nove auxiliares (de momento, todas mulheres) e a direção, composta por três elementos, desdobra-se no tempo que for necessário para ajudar. Algumas instituições optaram por fechar a equipa de trabalho dentro dos lares, mas na casa de repouso de Sta. Madalena isso não aconteceu. “Tem corrido bem”, assume.

É ele que vai buscar e levar as funcionárias a casa para evitar que usem os transportes públicos. Para além dos cuidados com a higiene pessoal e a desinfeção constante, é necessário informar as famílias de que a situação envolve extremos cuidados.

 

A desinfeção e os cuidados de higiene em plena pandemia. Paulo Morais na Casa de Repouso de Santa Madalena, em Alhandra. 5 de maio de 2020. (João Pedro Morais)

Em termos financeiros também não tem sido fácil: assim que a pandemia chegou a Portugal, fecharam completamente a entrada de novos residentes no lar. Dessa forma, guardaram um quarto espaçoso para contigência, caso fosse necessário. Economicamente faz muita diferença: em 25 vagas, apenas 23 estão ocupadas e isso representa menos 15% da receita mensal. Somando-lhe, mas, na verdade, subtraindo as mensalidades de alguns utentes que não pagam há vários meses, sobra uma conta complicada. Por enquanto, estão a conseguir sobreviver.

A “patroa”, como lhe chama Paulo Morais, já foi ao cofre pessoal para suprimir estes valores em falta. Têm tido muito mais despesas em relação ao que seria normal: todo o equipamento que tem sido adquirido com urgência (máscaras, desinfectantes, produtos de limpeza), tem representado custos muito elevados e inesperados. “O valor unitário está muito mais caro, tem de ser comprado em grande quantidade e está muito dificil de encontrar”.

No dia 5 de maio, um técnico de laboratório encaminhado pela Câmara Municipal de Vila Franca de Xira veio fazer testes para o despiste da Covid-19. Foram feitos testes a 35 pessoas: 23 utentes e 12 trabalhadores. “É intrusivo e desconfortável, dá a sensação que a zaragatoa chega ao cérebro.”, conta Maria Fernanda. Os resultados chegaram uma semana depois, comunicados via e-mail pela vereadora do pelouro da saúde. Todos os testes estavam negativos, pelo que não foi necessária a sua repetição.

“Hoje estarmos todos negativos não significa que amanhã também estaremos. Uma eventual infecção de um residente resultará de uma infecção de um dos trabalhadores, e isso é uma responsabilidade enorme. Somos uma casa de quase 40 famílias e não queremos fechar com qualquer tipo de emergência, como aconteceu em alguns lares a poucos quilómetros daqui”, conta-nos Paulo Morais. Mantiveram-se os cuidados, as desinfeções, a higiene.

Desde março que estes idosos estão confinados ao lar e sem receber visitas. Para contornar esta questão, as tecnologias têm ajudado a matar as saudades: priveligiou-se o contacto por chamada ou videochamada. Ainda assim, os residentes mostram-se desanimados, perguntam pela família. Eles não vêem as lojas fechadas, as ruas vazias. Muitos não percebem o que se passa.

Chamadas de vídeo entre os residentes do lar e os familiares (Fotografias retiradas da página de Facebook da Casa de Repouso de Sta. Madalena)

Os danos causados pela pandemia vão além de um possível surto neste lar. Os responsáveis desta casa de repouso temem que os processos demenciais e as situações cognitivas de alguns utentes se possam agravar.

As visitas aos lares de idosos voltaram a ser permitidas a partir de dia 18 de maio, mas com muitas regras. No entanto, na Casa de Repouso de Sta. Madalena, foi estabelecido um protocolo que determinou que as visitas só iam ser permitidas a partir de junho — com horas marcadas, sem contacto físico entre o idoso e o visitante, sem cruzamento entre visitantes, com obrigatoriedade do uso de máscara e com a devida desinfeção do calçado e das mãos.

Os primeiros sinais têm sido positivos e nota-se um novo ânimo na cara de alguns residentes. Também começaram os passeios de alguns idosos com mobilidade menos reduzida: passeios de poucos minutos, acompanhados por um auxiliar e obrigatoriamente “mascarados”.

Cá fora, o mundo mudou: a escola passou a telescola, o trabalho a teletrabalho. A economia parou. As praias têm semáforos. Lá dentro, o túnel já foi mais escuro, mas os dias ainda são todos iguais.

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