Os filmes de 2020

Este foi um ano atípico, com repercussões em todos os domínios. A 7.ª arte não foi exceção. A pandemia trouxe consigo uma realidade nunca vista: adiaram-se gravações, cancelaram-se filmes e as salas de cinema tiveram de fechar portas. Com o mundo dentro de casa, os espectadores seguiram as estreias de séries e filmes através de plataformas de streaming e on-demand, como a Netflix e a HBO.

Dia 1 de junho, alguns cinemas em Portugal voltaram a abrir portas. Dependentes do circuito internacional de estreias de cinema, indústria parada pela pandemia, viram-se obrigados a exibir filmes que estrearam meses antes. 

Em entrevista ao 8ª Colina, Hugo Viegas, cinéfilo, conta-nos quais foram, para si, os melhores cinco filmes deste ano. 

Hugo Viegas tem 27 anos, é arquiteto pela Universidade de Évora e nos seus tempos livres utiliza as redes sociais para escrever curtas críticas sobre os filmes a que vai assistindo ao longo do ano. Durante a sua infância fugia à monotonia da vida real ao refugiar-se nos clássicos da Disney. Com o tempo, o seu interesse foi evoluindo – surgiu o gosto pelos filmes de Hollywood, e depois por outros filmes estrangeiros, italianos, alemães, entre outros. Apesar de ter uma preferência pelo thriller, Hugo inclui diversos géneros no seu top cinco.

Tenet: “Nolan ao quadrado”

Em agosto chegou a estreia esperada de Tenet, de Christopher Nolan, realizador de títulos como Inception (2010), Interstellar (2014) ou Dunkirk (2017). “Foi um filme que veio na altura certa. Apesar de, infelizmente, não ter feito o dinheiro que se esperava, deu, de certa forma, para segurar o cinema”, considera Hugo. 

Tenet voltou a atrair espectadores às salas de cinema. O filme de ficção científica conta a história de um agente (interpretado por John David Washington) que trabalha para uma organização de espionagem internacional numa missão desafiante: impedir o começo da terceira Guerra Mundial.

À primeira vista este pode parecer um filme de viagens no tempo. Para Hugo, este é sobre a inversão do tempo, característica essa que o torna a mais complexa obra do realizador britânico. “É Nolan ao quadrado. Ele vai buscar conceitos que já foram utilizados, mas vira-os completamente de pernas para o ar. Já assistimos a filmes de viagens no tempo em que uma personagem entra na máquina e volta atrás no tempo, ou vai para a frente. Desaparece de um sítio e aparece num outro. Neste caso, ele fá-lo de uma forma que te faz pensar que aquilo podia ser real. Se podemos inverter a entropia dos objetos, então talvez possamos inverter a dos humanos”, explica Hugo.  

Hugo, grande fã do trabalho de Nolan desde Batman Begins (2005), considera-o um dos melhores realizadores da atualidade por ter a ambição de trazer a cada filme que produz o “espetáculo do cinema, ou seja, o mínimo uso de efeitos especiais”, refere.

Este filme não escapa ainda a uma característica forte do realizador: a de contar as histórias de forma não linear e de recorrer a quebra-cabeças. “O filme, tal como o nome, é um palíndromo. Lê-se igual de trás para a frente. É esta forma de pensar característica de Nolan que o torna diferente de todos”, afirma Hugo.

Retrato da Rapariga em Chamas: “uma pintura ao vivo”

Hugo escolhe Retrato da Rapariga em Chamas, um filme que chegou às salas de cinema portuguesas em fevereiro e que é completamente diferente do blockbuster anterior, para ocupar a segunda posição no seu top.

O drama francês de Céline Sciamma recua até à segunda metade do século XVIII para refletir sobre a homossexualidade antes da conquista da emancipação feminina em França. As vidas das duas personagens principais, Marianne (Noémie Merlant), jovem pintora, e Héloise (Adèle Haenel), cruzam-se quando a família da última a envolve num matrimónio arranjado com um nobre italiano. Secretamente, a artista é contratada como dama de companhia, mas na verdade o seu trabalho será pintar um retrato de Héloise às escondidas, que servirá para o futuro noivo a conhecer. Marianne passa os dias a observar a modelo e as noites a pintar. Dia após dia, até ao casamento, a pintora e a modelo aproximam-se.

“Hoje em dia existe um grande mediatismo em torno da comunidade LGBT. Este filme é a versão feminina do Call Me By Your Name (2017). Não analiso os filmes nesse sentido porque não gosto de ser político. É, acima de tudo, uma história de amor bonita, da qual gostei bastante”, explica Hugo Viegas.

Este filme ganhou o prémio de “Melhor Argumento” na 72.ª edição do Festival de Cannes. Hugo tem um grande fascínio não só pela história como também pela fotografia do filme – a sua preferida do ano. “As próprias cores do filme fazem com que pareça que este se passa mesmo nesse século, como se estivesses a ver uma pintura ao vivo. Foi a sensação que me deu quando o vi”, lembra Hugo. 

Possessor: “uma ficção científica alucinante”

Em novembro chegou às plataformas digitais a segunda longa-metragem de terror do realizador e argumentista canadiano Brandon Cronenberg, filho de um “grande génio do cinema”, nas palavras de Hugo Viegas. “Esta é a herança dos Cronenberg. Digamos que está entregue e em boas mãos”, acrescenta. 

Estamos num futuro alternativo no qual a tecnologia se consegue apoderar de um novo hospedeiro: o cérebro humano. “É uma ficção científica alucinante – diria ainda mind boggling – sobre assassinos que conseguem entrar na mente de outras pessoas e cometer o crime como se fossem essa pessoa, ou seja, tendo assim um álibi”, explica.

Ao seguir a vida da personagem principal, Tasya Vos, uma das agentes que trabalham na organização secreta que utiliza essa tecnologia para implantar a consciência dos “possessores” no corpo de civis involuntários, este filme explora a questão da vigilância cibernética e da identidade pessoal. “Além de a personagem principal ser uma assassina fria, mostra um pouco o seu lado emocional e o perder do mesmo para se tornar melhor naquilo que faz”, refere Hugo Viegas. 

Hugo considera-o um filme “muito bem construído, com uma história muito bem contada” e com uma “fotografia que nos agarra”. Porém, reconhece que este pode não ser o filme de eleição para os espectadores que apreciem finais felizes: “É um filme um pouco niilista. Talvez não seja indicado para pessoas que gostam sempre de um final muito positivo”. 

“Da 5 Bloods – Irmãos de Armas”: a memória afro-americana do Vietname

Mais do que um filme de guerra ao estilo antigo, “Da 5 Bloods” retrata os sacrifícios dos veteranos afro-americanos no campo de batalha e a sua integração depois da guerra, o racismo intrínseco na sociedade americana e a diferenciação entre classes. “Julgo que, naquele tempo, quase 30% dos soldados enviados para o Vietname eram de raça negra. Foram lutar numa guerra que não era a deles por direitos que nunca chegaram a ter”, lembra Hugo.

O filme da Netflix narra a história de um grupo de quatro ex-combatentes que regressa ao sudeste asiático para “escavar” o passado. “Vivem com aquele fantasma do Vietname – de um amigo que morreu a combater e de um tesouro que esconderam. Descobrir o tesouro é a premissa do filme – é quase uma metáfora para aquilo que os Estados Unidos da América lhes devem em termos de direitos”, explica.

Os flashbacks das cenas de combate destes cinco veteranos contrastam com as do tempo atual – são introduzidas com um formato de documentário, como se tivessem sido gravadas mesmo há quase 50 anos. Mas Spike Lee fá-lo de forma diferente ao manter os mesmo atores do passado no presente.

O realizador e argumentista do filme não falhou, mais uma vez, no uso de uma das suas características fortes:  a construção do diálogo. “O diálogo está excelente. Spike Lee pega sempre em expressões muito utilizadas na comunidade negra nos EUA, mesmo da sua comunidade ou da sua família, o que torna o diálogo muito real”.  

O Dilema das Redes Sociais: um controlo oculto

Este documentário, realizado por Jeff Orlowski, chegou à Netflix em setembro e abriu uma nova discussão sobre as consequências associadas ao crescente uso das tecnologias e à dependência das redes sociais. Desde a falta de compreensão dos utilizadores sobre o modo como essas plataformas manipulam de maneira oculta a forma de pensar, agir e viver da sociedade até à desinformação que lhes está associada, O Dilema das Redes Sociais explora o porquê de estas ferramentas serem uma ameaça existencial para a humanidade. “A maneira como este documentário aborda aquela obsessão por humanizar, de certa forma, a inteligência artificial, ou seja, representar de forma humana a inteligência artificial, e dizer o que é que esta está a tentar fazer mexe muito connosco. É assustador”, comenta Hugo.

O filme denuncia as práticas das grandes plataformas, como o Google, o Facebook, o Instagram, o Twitter ou o Pinterest, com base em entrevistas realizadas a antigos funcionários destas empresas tecnológicas que, ao serem confrontados com questões éticas nos seus trabalhos, se decidiram afastar delas. “Isso já foi feito noutros documentários, mas não nesta escala”, afirma Hugo. 

O Dilema das Redes Sociais alerta ainda para alguns efeitos nefastos do uso desmedido das redes sociais, como o controlo dos consumidores por algoritmos, a compra de dados dos utilizadores, a menor interação social na vida real e o desenvolvimento de patologias psicológicas. Hugo revela que não tem por hábito incluir um documentário na sua lista do ano, uma vez que normalmente estreiam filmes que merecem maior destaque, mas este marcou-o: “Espero que quem assista ao filme pense bem sobre isso. Cada vez mais as pessoas têm de ter cuidado e pensar muito bem sobre o tempo que dedicam às redes sociais. Parece uma distopia. Daí o documentário ser comparado a um episódio de Black Mirror, mas a diferença é que é verdade”, conclui. 

O filme português de 2020: a escolha da redação

Listen: uma luta baseada em factos reais

O 8ª Colina destaca ainda um filme português premiado que ganhou grande reconhecimento internacionalmente, tornando-se num dos mais vistos nas salas portuguesas em 2020: Listen.  

Ana Rocha de Sousa a receber um dos prémios no Festival de Veneza - EPA

A primeira longa-metragem de ficção da realizadora Ana Rocha de Sousa, baseada numa história real, segue a vida de uma família portuguesa emigrada em Londres, no Reino Unido. Esta passa por dificuldades económicas, estando em risco de perder a guarda dos três filhos por suspeitas de maus-tratos. Perante a ação dos serviços sociais e judiciais britânicos, e face a uma possível adoção forçada, os pais, Bela e Jota, esforçam-se por provar que são capazes de cuidar dos menores, antes que o processo seja irreversível.

O filme, de produção luso-britânica, foi rodado nos arredores da capital inglesa. Do elenco fazem parte atores portugueses e ingleses, como Lúcia Moniz, Ruben Garcia e Sophia Myles.

Depois de ter obtido seis prémios no Festival de Veneza, em setembro, onde foi exibido pela primeira vez, o filme estreou em Portugal a 22 de outubro, chegando ao topo da lista dos filmes portugueses mais vistos este ano. Segundo dados do Instituto do Cinema e Audiovisual, só no primeiro fim de semana de estreia, Listen foi visto por cerca de 9.500 espectadores e arrecadou cerca de 54.600 euros de receita bruta de bilheteira 

Ao receber o prémio “Leão de Futuro – Luigi De Laurentiis”, distinção atribuída à melhor primeira obra a concurso, na gala de prémios em Veneza, Ana Rocha de Sousa discursou, emocionada, sobre a importância de se contarem histórias relacionadas com as questões sociais retratadas. “A coisa mais importante é a mensagem que estamos a tentar divulgar. Este filme não é apenas sobre exprimir-me enquanto realizadora, é sobre proteger quem precisa de proteção. Este filme é dedicado a todas essas famílias que passam por momentos muito difíceis e esta dor imensa”, referiu. 

Mas o reconhecimento de Listen não se ficou apenas pelo grande festival italiano: o filme foi também escolhido pela Academia Portuguesa do Cinema (APC) como candidato à categoria de “Melhor Filme Internacional” na 93.ª edição dos Óscares, agendada para abril de 2021. Porém, dois meses após a sua seleção, o filme português foi desclassificado pelo International Feature Film Executive Comittee da Academy of Motion Picture Arts and Sciences (AMPAS) por não cumprir um dos critérios de elegibilidade: pelo menos 50% do filme teria de ser falado em língua não-inglesa, condição que Listen não cumpre. Para além da língua inglesa, no filme são usados o português e a língua gestual. 

Face à divulgação da nota oficial da APC sobre a decisão da academia norte-americana, rapidamente se geraram reações nas redes sociais. “Atendendo ao facto de que o filme justifica o recurso à língua inglesa por retratar a história de um casal imigrante português em Londres, e que uma parte considerável do mesmo tem diálogos em português e em língua gestual, o filme foi pré-selecionado pelo comité de seleção e acabou por ser o mais votado pelos membros da APC. Sabíamos que a aceitação do filme enquanto candidato de Portugal dependeria da flexibilidade do comité internacional da AMPAS e estávamos confiantes de que o contexto particular desta candidatura justificaria a sua aceitação, mas no final isso acabou por não acontecer”, lamentou Paulo Trancoso, Presidente da APC. 

Em entrevista à RTP, Ana Rocha de Sousa afirmou que vai contestar a desqualificação: “O que é mais importante? É contabilizarmos matematicamente a língua falada num filme ou é a causa que esse filme verdadeiramente expõe e dá a conhecer? É que neste caso, ainda por cima, a língua é forçosamente aquela. Eu não sei se ainda consigo ter tempo de mudar esta regra, mas não vou ficar quieta. Sou de causas, sou uma lutadora pela justiça e acho tudo isto inacreditável.”

Após a exclusão, e existindo a possibilidade de submeter um novo candidato nacional, a APC procedeu a uma segunda votação. O selecionado foi Vitalina Varela, de Pedro Costa, que conta a história de uma mulher cabo-verdiana que regressa a Portugal depois do falecimento do seu marido. Apesar de contestar a decisão da AMPAS, Ana Rocha de Sousa apoia o novo candidato e felicitou-o com uma mensagem de esperança, no seu perfil do Instagram: “Que seja o ano de Portugal brilhar em força nesse épico 25 de Abril de 2021. Estou em paz porque a vida sabe sempre o que faz. Que seja neste 2021 que trazemos a estatueta para casa. Boa sorte ao Pedro Costa. Força, Portugal”. […]

Ilustração e montagem de Joana Melo

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