Os indecisos da Futurália

Por Henrique Magalhães, João Rodrigues, Sónia Sul e Andreia Melo

 

“Nada é tão fatigante e fútil como a indecisão”. As palavras são do ilustre matemático britânico, Bertrand Russel. Se não o tivesse dito noutra era, Russel poderia ter-se inspirado na Futurália e em março para todos os finalistas do ensino secundário e básico.

 

“A decisão que tomarmos vai influenciar o resto da nossa vida”, diz Sara, estudante do 11º ano, enquanto fita o stand da Escola Superior de Ciências da Saúde. “Sentimos muita pressão na escolha do curso”. Sara é uma das 60 mil visitantes que a Futurália acolhe durante os dias 14, 15, 16 e 17 de março.

 

O constante tremor musical das colunas nos dois pavilhões apressa o já indeciso coração de alguns alunos que, enquanto tentam desligar um ouvido da música, patrocinada pelo festival MUSA de Cascais, ligam o outro para ouvir a resposta a várias perguntas sobre os anos de licenciatura e a empregabilidade dos cursos. “Quanto tempo é o curso, a empregabilidade e as suas saídas profissionais? Estas são normalmente as perguntas que me fazem quando se dirigem aqui ao stand”, conta-nos João Fernandes, aluno da Escola Profissional Agrícola D. Dinis. João afirma que eventos como a Futurália são de máxima importância, pois permitem que alunos de todas as regiões de Portugal conheçam os projetos da escola e o seu método de ensino. No que toca à estratégia de motivação para a inscrição dos alunos nos cursos, a Escola Profissional Agrícola D. Dinis aposta numa vertente mais técnica. “A nossa estratégia é baseada em apresentar algumas técnicas práticas que usamos no dia-a-dia como transplantações, enxertias e algum do material usado no curso de agricultura”.

 

 

A aposta na demonstração técnica e nas atividades lúdicas é comum nos vários stands. “A nossa estratégia é usarmos jogos, como rodar uma roleta para ganhar prémios enquanto explicamos a pessoas que normalmente não conhecem a Escola Digital o que fazemos aqui”, descreve Ana Carvalho, aluna do 2º ano da Escola Digital Profissional de Informática, Fotografia e Multimédia. “Estou no curso de fotografia, por isso, pedem-me mais o que é que dá a nível de empregabilidade. Na minha área é mais difícil porque toda a gente tira fotografias num ápice. Acho que o nosso curso é visto como uma escolha a fazer antes de ir para a faculdade, mas sempre com o intuito de tirar um curso superior mais clássico, digamos.”.

 

Em ambos os pavilhões da FIL, o Exército é, de facto, o que aposta mais numa estratégia visual. Tanques, F-16 e várias filas de estudantes que esperam ansiosamente para saber o que um futuro nas Forças Armadas lhes reserva. “O meu pai era fuzileiro e quero continuar o seu legado”, explica André Fonseca, um dos alunos que espera na fila. O Major do Exército Nuno Mira expõe que as feiras pensadas para os jovens têm um grande valor para as Forças Armadas. “A Futurália, sendo uma feira pensada para os jovens que são o universo de recrutamento que nós temos, o exército abrindo-se desta maneira, mostrando aquilo que é, está, indubitavelmente, a tentar cativar os jovens e permitir que eles tomem conhecimento e contacto com a nossa realidade. Se não tiver acesso à ponta do iceberg, nunca vou olhar para o resto do gelo, basicamente.”

 

Érica Duarte, aluna da Escola Técnica Psicossocial de Lisboa, apercebe-se de que é difícil convencer os estudantes para ingressarem num dos cursos da instituição. “É difícil… convencer pessoas para virem para um curso com esta dimensão mais social”. Érica usa a dramatização para chamar a atenção dos alunos para temas como o bullying e o abuso sexual que diz estarem a ser bastante ignorados. “Acho que há muito preconceito. Não é fácil e nem toda a gente adere ou tem a opinião de defender e não julgar. É complicado”, esclarece.

 

No Stand Press da ESCS, a história é um pouco diferente. De uma forma geral, todos os núcleos representados na Futurália (8ª Colina, E2, ESCS Fm, ESCS Magazine, Game, Bright Lisbon Agency, Número F e NaV) confirmaram uma forte adesão por parte dos alunos de 9º, 10º, 11º e 12º anos que os visitaram. Diogo Ventura, membro do Número F, o núcleo de fotografia da ESCS, sentiu que “as pessoas queriam vir experimentar e saber um pouco mais tanto sobre os núcleos, como sobre a ESCS, descobrindo assim o que a nossa faculdade tem para oferecer”.

 

Com as mãos já a entornar panfletos e sacos com diferentes logos das respetivas instituições educativas, os estudantes forçam os dedos indicador e médio para conseguir agarrar mais um flyer.

 

“Já sabia mais ou menos o que queria, mas ver os cursos de engenharia deu-me mais motivação para estudar e alcançar uma melhor média nos exames nacionais”, diz Gonçalo Leitão, um dos alunos que visita a Futurália, ao dirigir-se para a saída.

 

 

Porém, o espaço da Futurália não é só reservado às escolas. Também a política abre as suas portas por meio dos “jotas”. “Nós estamos na Futurália para estarmos mais perto dos jovens. Muitas vezes o nosso trabalho nas redes sociais não chega. E aqui podemos estar com eles cara-a-cara e mostrarmos o nosso trabalho”, afirma Catarina Marinho, uma das representantes da Juventude Popular, enquanto reforça que a adesão tem sido satisfatória. “Na verdade, tem sido muito fácil, os jovens estão bastante abertos ao tema da política e isto deriva também da presença e intervenção dos jotas no dia-a-dia. A nossa estratégia é pegar em exemplos da vida quotidiana que são necessários melhorar e abrangê-los a nível nacional. E mostrarmos como é que se luta contra esses problemas”. Filipe Silva, da Juventude Comunista, acredita que a Futurália pode ser um campo essencial para o rejuvenescimento do partido. “Sempre houve esse estigma de que o partido comunista português era um partido de velhos. No entanto, quem está dentro do partido tem uma perspetiva diferente. Nota-se que é um partido que tem muitos jovens nas suas fileiras. Mas pronto, é claro que, se não houver juventude, o partido não poderá lançar as suas bases para o futuro”.

 

As portas fecham às 19h e o ambiente acalma. Com o corte da música, o ritmo é ditado pelo zumbido nos ouvidos que passeia com os alunos até saírem da FIL. “Tenho medo do futuro, obviamente, mas quem não arrisca não petisca”, suspira um aluno enquanto se protege do frio que está na rua.

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