Pão: "Se a informação fosse banalizada, caía por terra."

         O dia aparentava ser como qualquer outro no Barreiro. José Serrano saiu de casa, como se fosse uma manhã normal, para comprar o pão para a família. Antes de ir para o serviço, o marinheiro segue o seu caminho para a padaria do costume, que abria assiduamente pelas seis da manhã.

         Ficava a cinco minutos de casa, numa esquina. A senhora que estava ao balcão era uma velha conhecida, vinda da mesma vila do Alentejo. Quando foi avistado, a atendente pareceu surpresa. Questionou o que ainda fazia ali. José mostrou-se confuso, limitou-se a replicar “É um dia normal. Porque não estaria?”

         Quando abriram a padaria, ligaram o rádio. Os ecos de liberdade já não eram meros sussurros, eram ditos com confiança. Meses de secretismo e encontros escondidos culminaram num golpe cuidadoso. O sopro de liberdade trazido por Marcelo Caetano foi essencial para que se começasse a sussurrar a revolução. Estas mensagens, porém, circulavam apenas pelas bocas dos comandos. “Se a informação fosse banalizada, caía por terra.” 

Batalhão reunido na década de setenta

       

“Durante a noite, haviam sido tomados os pontos chave: a tropa e a comunicação social.” À medida que as pessoas compravam o pão, a informação ia-se espalhando.  Ao ouvir o relato da revolução, conteve-se. Não sabia como iria desencadear-se a situação. Fez apenas o caminho de volta. Deixou o pão e um aviso: naquele dia não voltaria para casa, ficaria de prevenção militar, sem permissão para sair do quartel.

      Ao chegar à paragem, onde passava o autocarro militar, já se proferia a notícia. Expectantes, os militares esperavam, “O que é que aconteceu? Como é que vai ser? E se voltar atrás? Já tinham sido feitas tentativas anteriores, e foram abortadas. Só soubemos que houve uma rebelião militar que vinda das caldas a caminho de Lisboa para tomar conta não sei do quê e às tantas aquilo foi malogrado.”

Fotografias de José Serrano Embarcado na década de setenta

Pertencer às forças armadas naquele tempo não era sinónimo de saber. Entre marinheiros estavam informantes do regime: “O pessoal da comunicação recebia e descodificava as mensagens para os comandos, por uma questão de segurança, uma forma de manter o controlo.” Quando se falava algo que fugisse ao aceitável, as pessoas avisavam. “Cuidado que as paredes têm ouvidos. O segredo era a alma do negócio.”

      O autocarro militar fazia várias paragens pelo Barreiro, levando apenas oficiais da marinha, “Começava lá na quinta da lomba, numa ponta do Barreiro e depois ia apanhando o pessoal. Passando pelo Casal do Marco e pela Escola de Fuzileiros.” No caminho, sentia os companheiros expectantes, sem saber o que os esperava.

         Em Lisboa, as lojas que não desempenhassem uma necessidade básica foram obrigadas a fechar. Fecharam-se as escolas. Fizeram-se apelos para que as pessoas permanecessem em casa. “Queriam evitar o movimento de sujeitos, qualquer possível contrarrevolução que pusesse em perigo vidas. Porque a principal intenção era que não houvesse sangue.” Conta que as imagens do Largo do Carmo, repletas de pessoas, eram cidadãos que iam para o trabalho: “Como os trabalhos não abriram, ficou tudo na rua. Lauriando. Pondo-se ao lado da revolução. Compondo o apoio, uma prova de que o povo estava do lado dos revolucionários, mesmo sem saber de nada.”

Fotografia do Largo do Carmo e Imagens do transporte de Marcelo Caetano (Retirado da obra "Guerra Colonial", de Aniceto Afonso e Carlos de Matos Gomes)

Nos dois dias que se seguiram, não voltaram para casa. Até que as coisas acalmaram. O Marcelo Caetano rendeu-se, foi exilado para o Brasil. Todos os comandos de todas as unidades ficaram sobre a alçada da Junta de Salvação Nacional. “O MFA começou a fazer sessões de esclarecimento, para enteirar as pessoas do que se tinha passado no dia seguinte Juntavam o pessoal e falavam sobre o que se estava a passar: o movimento dos capitães tinha derrubado o governo e agora estava a controlar a vida do país até serem feitas eleições livres.”

         As instituições começaram a trabalhar. Foram-se modificando as leis que existiam. Os presos políticos foram libertados. Aos poucos, foi feita a mudança. Lenta, com passos leves e cuidados que evitavam as fintas tentadas à liberdade.

Fotografia de José Serrano em Cabo Verde

Artigo escrito por Mariana Serrano.

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