Paradoxo. “A música faz-se contra o sistema”

Os Paradoxo são Afonso Matos, Eduardo Silva, Hugo Gonçalves, Guilherme Proença e João Barata, nomes em ascensão no panorama musical português contemporâneo. O jardim do Príncipe Real recebeu-nos e foi palco de uma entrevista que explorou a musicalidade dentro de cada um.

O começo

Apesar de andarem na mesma escola desde o quinto ano e de se cruzarem nas aulas e nos corredores, foram os seus gostos musicais, com forte influência de Pearl Jam, que juntaram Eduardo, Hugo e Afonso. Sentados um ao lado do outro, Eduardo e Afonso começaram a falar de música, e aquela banda de rock alternativo foi um interesse que descobriram ter em comum. Com a ideia de começar a tocar, foram falar com Hugo, que já tocava guitarra. “O Hugo ficou com medo; disse que não sabia tocar assim tão bem”, contam, “mas acabou por aceitar”. A partir daí foram juntando pessoas, enquanto outras iam saindo. Os que ficaram tornaram-se, então, a estrutura oficial da banda. Criou-se a unidade Paradoxo.

Concerto no Museu Nacional de Arte Antiga. (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

Pink Floyd foi o arranque. “Ficávamos no carro a ouvir álbuns do início ao fim, a noite inteira”, revelam. O mesmo se passou com Zeca Afonso e com o seu o álbum Galinhas do Mato. As noitadas passadas a ouvir música portuguesa foi o que os fez pensar que fazia sentido cantarem na sua própria língua.

Os nomes das bandas são sempre um aspeto intrigante, e os Paradoxo não fogem à regra. Quando o gravador passa para as mãos de Hugo, chega a justificação para a denominação dada à banda: “Era uma figura de estilo de que nós gostávamos muito na altura.” Eduardo acrescenta: “Mas soa bem. É o que costuma ser o nome das bandas, o que soa bem, não é?”

A identidade

No panorama musical, os Paradoxo associam-se ao rock alternativo português, mas o vocalista, Eduardo, sublinha que a banda “tem tantas influências que acaba por não se resumir somente a esse estilo.”

Eduardo Silva, vocalista e guitarrista. (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

Todo o grupo mostra que o importante é marcar a diferença e possuir características que o distingam das restantes bandas do mesmo género em Portugal. Em simultâneo, Hugo e Eduardo destacam a sua performance como aquilo que os faz sobressair. “Somos completamente malucos e gostamos de fazer coisas diferentes; ambicionamos sempre sair da bolha em que Portugal está musicalmente. Como todas as bandas se dão bem e como somos todos amigos, acabamos por ir parar ao mesmo saco.”

Música, como te formas?

A batida é a primeira a surgir; daí nasce a letra. Ambas surgem de jams e da junção das ideias que cada elemento do grupo tem no momento. Depois, no ensaio, sai a unidade das ideias todas. Porém, mesmo admitindo fazer todos parte da criação das letras, assumem que o guitarrista, Hugo, “é o poeta”.

Hugo Gonçalves, guitarrista. (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

O gravador é atirado para o outro lado da mesa e Hugo responde às acusações que lhe são feitas. Concorda: “Podemos dizer que sim. Inspiro-me em Arthur Rimbaud e no racionalismo de Kant. Gosto de falar de temas como a libertinagem e a vida boémia.”

As letras, que facilmente suscitam diferentes interpretações, são uma das virtudes da banda. “Escrevemos uma ideia, que acaba por transmitir uma coisa totalmente diferente. É uma ideia aberta, abstrata e metafórica, para todos os leitores e ouvintes.”

Uma letra abstrata tem sempre uma génese. O baterista, Afonso, ao receber o gravador atirado da outra ponta da mesa, explica, em tom de escárnio, a origem criativa da banda: “À segunda-feira tomamos LSD, à terça cocaína e à quarta ácidos. Mas tudo com moderação. Essencialmente é a cerveja e a erva.”

Também os videoclips têm um cunho pessoal ligado à natureza, que, tal como a ligação entre os elementos da banda, se explica pelas suas origens. “Somos de Sintra e a nossa casa sempre foi a natureza. Nunca foram estes ares da cidade.” A resposta é de Eduardo, mas todos apoiam com um riso cúmplice. “O nosso local especial e favorito sempre foi a Serra, que acabou por entranhar a natureza na nossa forma de expressão, tornando-se naquilo que nós queremos mostrar a quem nos ouve: que a natureza é a nossa fonte de inspiração.”

É nesses ares de “campo” que mais gostam de dar os seus concertos. O Passarão é um festival de música realizado em casa de Afonso, o baterista, onde, para além da própria banda, atuam muitas outras. É este o lugar de eleição dos Paradoxo. “Sentimo-nos sempre mais à vontade porque é o nosso lar. É como estar de pantufas”, explica o vocalista, que de imediato é interpelado pelo poeta Hugo: “é onde impingimos a nossa identidade e imagem.”

Apesar de atuar em casa ser especialmente confortável, já são vários os concertos que os Paradoxo deram fora dela. O sonho, dentro de Portugal, é atuar no Paredes de Coura, festival ao qual já vão há alguns anos e onde têm por hábito fazer jams com outros artistas que vão conhecendo por lá.

Guilherme Proença, baixista. (CARLOTA PORTUGAL/ 8ª COLINA)

Quem está por dentro sabe

Como banda, e como unidade, a opinião é unânime no que toca às oportunidades que lhe são dadas nas plataformas musicais. Afonso é o primeiro a falar “Em Portugal falta disponibilidade para acolher bandas novas. Há muitos espaços para concertos, mas nem todas as bandas chegam lá facilmente. Ainda não há uma consciência de que é bom e é importante ter bandas a cantar em português, a falar dos seus problemas e dos da sociedade, a contar as suas aventuras e a manifestar as suas virtudes. Isso não chega aos espaços. Mantém-se a valorização das bandas portuguesas que cantam em inglês.”

Afonso Matos, baterista. (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

A problemática da falta de apoio não passa pela escassez de iniciativa, vontade ou dedicação de quem o procura. Esse problema reside na dificuldade em fazer uma ou mais vozes serem reconhecidas em qualquer lado e por qualquer pessoa.

O gravador volta a ser atirado para as mãos do vocalista. “Há cada vez mais bandas portuguesas que querem vingar, mas Portugal ainda não chegou ao ponto de Seattle e Los Angeles, onde toda a gente toca em todo o lado e toda a gente toca com toda a gente. há tanta sede de tocar, tanto sítio onde o fazer, mas também tanta burocracia pela qual se tem de passar…

Mas, como Afonso faz questão de dizer, “a música faz-se contra o sistema”, e por isso, com mais ou menos burocracia, o próximo álbum irá ser gravado no verão e lançado depois disso. Paradoxo é aquilo que a banda afirma que virá a ser este disco: “Tradicional, mas ao mesmo tempo muito experimental.”

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