Política jovem além dos partidos

A Série Juventude traz três reportagens sobre como os jovens se envolvem na política. Desde apartidários, passando pelas juventudes, até aos jovens autarcas que concorrem nestas eleições.

A política não se resume só aos partidos. Adriana Cardoso, Beatriz Farelo e Igor de Jesus são três jovens interessados pelas dinâmicas da governação, mas que, desde cedo, descobriram outras formas de estarem ativos e de participarem na vida pública. 

As novas tecnologias permitem um acesso imediato à informação. A política está, hoje em dia, presente em diversas plataformas, e o debate estende-se a vários pontos do mundo sob a forma de um clique. Através de documentários, de podcasts, da participação em manifestações ou em núcleos estudantis, os jovens estão cada vez mais presentes no centro da política, que não envolve necessariamente partidos. 

Adriana Cardoso tem 21 anos e mora em Coimbra. A política apareceu na sua vida principalmente durante a pandemia. Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, começou a perceber todo o “contexto político e a maneira como a política estava a influenciar as decisões farmacológicas”. Assim, escreveu um texto sobre a hidroxicloroquina, medicamento que Donald Trump defendia ser a cura para a Covid-19, para o jornal Público e viu como a sua palavra podia também contribuir para informar as pessoas. 

Beatriz Farelo, membro da Greve Climática Estudantil e da Rede 8 de Março, encontra no ativismo uma forma de se manter politicamente ativa. Aos 21 anos, licenciada em Ciência Política e Relações Internacionais pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, deseja mudar de área profissional, numa tentativa de se desvincular totalmente da política partidária. No entanto, continuará a ser uma das vozes por detrás de iniciativas coletivas que reúnem associações, sindicatos e cidadãos a título individual. 

Também estudante de Ciência Política, Igor de Jesus começa a questionar-se, aos 23 anos, sobre o porquê de “o mundo funcionar da forma como funciona, o que é que o influencia e como é que o influencia”. Atualmente, com 26 anos, pertence ao núcleo de estudantes de Ciência Política do Instituto de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, mas fora da faculdade não tem nenhuma atividade política, pois acredita que “há muitas [outras] iniciativas cívicas que influenciam a política”.

Igor de Jesus // Fotografia cedida pelo entrevistado.

O começo de uma vida política 

Na adolescência, o interesse pela política era pouco. No entanto, ao conhecer pessoas com interesse nessa área, Igor começou a envolver-se cada vez mais, sendo também esta uma das causas da escolha do curso. 

Beatriz escolheu o curso de Ciência Política e Relações Internacionais porque  já desde os seus 15 anos que se interessava por questões políticas. “Era a sindicalista da família. Era sempre a refilona que queria mais justiça”, confessa ao 8.ª Colina. A política surge cedo na vida da ativista, que acreditava ser possível servir as necessidades de um povo se enveredasse por um caminho político-partidário. No entanto, a profunda insatisfação face aos projetos e dinâmicas partidárias e face à permeabilidade dos indivíduos à corrupção quando postos perante a perspetiva de uma ascensão na carreira afasta-a completamente da militância política. A jovem, que se posiciona no lado esquerdo do espectro político, recorda uma entrevista a Paulo Portas para reforçar a sua ideia. Na entrevista, o vice-primeiro ministro do XX Governo Constitucional aponta o dedo às juventudes partidárias, referindo-se a elas como “escolas do crime”.

Também Adriana é muito crítica em relação àquilo que a rodeia. Sempre viveu em Souselas, no concelho de Coimbra, uma zona operária e fabril, onde existe um instituto com contrato de associação. Este instituto oferecia uma rede de transportes que assegurava a ida das crianças à escola, rede essa financiada pelo próprio instituto e também pelo Estado. A estudante aponta o dedo ao Partido Socialista, que fechou estas escolas, com contrato de associação, mas não confirmou se as crianças que viviam naquela zona tinham acessibilidade para se deslocar até à escola mais próxima. Foi isto que deu o impulso à jovem para ser candidata pela Iniciativa Liberal nas eleições legislativas passadas. Adriana afirma convictamente: “é nestas situações que qualquer pessoa que se  sinta  politizada” tem de se tornar ativa. 

Adriana Cardoso // Fotografia cedida pela entrevistada.

Embora não estejam filiados em nenhum partido, mantêm-se politicamente ativos

A rede social twitter é a preferida da jovem, na medida em que aí se pode expressar: pode dar opiniões, argumentar, contradizer, esclarecer. Para Adriana, “é uma maneira de meteres o dedo naquilo que as pessoas estão a sentir e conseguires pegar no tipo de preocupações que tu tens na tua zona, na tua comunidade”. O envolvimento político também se dá através da escrita de artigos para jornais e da participação em debates e em podcasts. Atualmente, Adriana faz parte do podcast “Eu voto”, criado em janeiro deste ano por Vasco Galhardo, com o objetivo de pôr jovens a responder às questões dos jovens. Devido às eleições autárquicas que se aproximam, novos podcast surgiram desta iniciativa. Adriana faz parte de um deles: “Tripartidos”. É aqui que vários candidatos autárquicos vão ser entrevistados e questionados do ponto de vista das preocupações dos jovem. Adriana relembra a sua ida a um evento da Comissão Europeia, onde colocou uma questão sobre o problema da habitação, uma vez que “70% dos jovens que até aos 24 anos se encontram em situação de pobreza estão nessa situação por causa da habitação”. Ninguém lhe respondeu. “Uma rapariga mais nova fazer uma pergunta deste nível serviu [apenas] para fazer um discurso partidário.”

Para além de fazer parte do núcleo de Ciência Política no ISCSP, Igor é também militante do PSD, mas não está envolvido em nenhum projeto. Filiou-se por interesse académico, para perceber como funcionam as dinâmicas de um partido, e porque se identifica com os ideais do Partido Social Democrata. Depois de acabar a licenciatura pensa continuar a estudar. O jovem admite querer enveredar pela política na sua vida profissional, mas reforça que esta será uma decisão a ser tomada após a conclusão da sua formação académica.

Beatriz Farelo é uma presença assídua em manifestações e conferências marcadas por uma forte adesão. A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas destaca-se, mas foi o Acampamento em Defesa do Barroso que deu um novo sentido à sua luta enquanto ativista pela justiça climática. Porém, Beatriz tece uma feroz crítica aos órgãos de comunicação social presentes na manifestação por publicitarem a empresa por detrás da exploração das minas, aumentando as tensões entre os lesados e a companhia. A ativista encontra um espaço de aprendizagem e de progressão ao marchar com os cidadãos de Covas do Barroso, mobilizados para proteger os recursos hidrológicos da aldeia e do planeta: “Foi muito bonito ver toda a gente junta por esta causa, sem interesses políticos sem ser o de proteger a nossa Terra e proteger a vida na nossa Terra.”

Beatriz Farelo // Fotografia cedida pela entrevistada.

Como tornar a política mais acessível aos jovens

Beatriz alega que uma política de proximidade, sem influência de partidos, poderá apelar a uma mudança generalizada junto das várias comunidades. Deste modo, a exigência de direitos económicos e sociais deve passar por uma ação direta e eficiente, contando com a ajuda da população reunida em manifestações ou por detrás de ações de sensibilização. Também Adriana defende que “política não é só política partidária”. Esta ideia está ainda muito enraizada na sociedade, segundo a jovem, e culpa a geração passada por isso: “As pessoas têm muito esta ideia de que a política atualmente se faz de partidos, que escolhem ter posições, mas não é de todo!” Os jovens estão a mudar essa perspetiva participando politicamente de outras formas e estando cada vez “mais desligados da política partidária”. 

No que toca ao interesse pela política por parte dos jovens, Igor acredita que estes “estão cada vez mais preocupados em compreender a dinâmica da política e das ciências sociais em geral”, e que isto se deve à crescente partilha de conteúdos nas redes sociais. O estudante considera que os portugueses têm tendência para deixar a política de lado, principalmente porque este tema é pouco discutido no seio familiar: “Passa um bocadinho por  introduzir nas escolas ou culturalmente uma educação que promova este tipo de atitudes”.

Adriana considera que qualquer pessoa pode ter um papel ativo na sociedade. A própria considera-se uma influencer cujos conteúdos se focam na política. Na opinião da jovem, são ainda poucos, mas quando existem são criticados “de forma estapafúrdia”, desabafa. Qualquer pessoa pode ser ativa politicamente: pode criar um blogue, como fez a estudante com um grupo de amigos, ou escrever um texto sobre uma situação que acha importante, por exemplo. “Não precisas de muito para criares uma rede social; não precisas de muito para criares um movimento de jovens que se juntam e criam uma página no Instagram para falar sobre tópicos políticos”, explica. 

Adriana sublinha ainda que os movimentos ativistas que têm existido têm por base a participação e iniciativa jovem. Em Portugal destaca exemplos à esquerda, como os movimentos antifascista e antirracistas, e à direita, como o referendo antiaborto. Atualmente existem várias fontes de informação: um ciclo noticioso 24 horas por dia, programas de comentário, fácil acesso a artigos sobre os mais variados temas, programas de rádio, podcasts. “Portanto, se há esta fome, esta tentativa de as pessoas adquirirem conhecimento, chegará a altura de as pessoas perceberem que alguém que quer adquirir conhecimento também se quer envolver.”

A importância do voto nas eleições autárquicas

“Acho que as pessoas têm a sensação de que as eleições autárquicas não têm muita relevância política. Há uma ideia de que o poder central é responsável por toda a condução política, o que não é verdade”, afirma Igor. Assim, não votar nestas eleições não é uma opção para o jovem. Igor considera que as pessoas deviam informar-se melhor sobre qual o partido ou o candidato que mais se aproxima das suas ideias e ir votar, “mesmo que seja um voto em branco”. 

Ao 8.ª Colina, Igor afirma que os candidatos políticos têm como principal objetivo a manutenção do poder ou a luta pelo mesmo: “Uma pessoa pode ter boas intenções, mas essas só vão funcionar se chegar ao poder.” Além disso, “a ideologia, para além de influenciar, desvirtua um bocado o olhar do político” e “atrapalha as medidas que têm de ser tomadas”.

Já Adriana antecipa um futuro com um maior número de jovens envolvidos na política, das mais variadas formas. Vê também pessoas com diferentes formações de base a enveredar por esta área, o que possibilitaria um melhor conhecimento dos problemas e uma maior eficácia na sua resolução. O mais importante, para a universitária, é fazer com que estes jovens, que se formaram em Serviço Social, por exemplo, sintam que têm um papel a desempenhar, e que há possibilidades reais de entrarem na política no futuro; que a política não se faz apenas de pessoas de Ciência Política, de Relações Internacionais, de Direito.

“Votar, vou votar sempre”, diz Beatriz sem hesitar. Apesar de os jovens que a rodeiam serem eleitores assíduos, a ativista mostra-se solidária com a frustração daqueles que não se sentem representados pelos candidatos e respetivos partidos políticos à corrida autárquica. De acordo com a estudante, os jovens portugueses demonstram interesse nas complexas dinâmicas do jogo político, mas a forma como este interesse se reflete nas eleições autárquicas é ainda incerta, dada a imprevisibilidade inerente à utilização das redes sociais, capazes de os radicalizar.

Adriana, Beatriz e Igor não vão deixar de exercer o seu direito de voto no dia 26 de setembro e deixam uma mensagem para os jovens eleitores.

Capa por Joana Melo

Revisto por Daniela Leonardo

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