Projetos de uma Quarentena

2020 foi um ano marcante, mas nem sempre pelas melhores razões. O primeiro caso de COVID-19 em Portugal foi registado a 2 de março e, nesse mesmo mês, todo o país entrou em estado de emergência. Com o encerramento de várias instituições, enfrentámos um dos mais difíceis desafios das nossas vidas: a quarentena.

Foram uns longos três meses, mas ficar parado não era solução. Por isso, muitos criaram alternativas para tentar tornar esta fase um pouco mais fácil de ultrapassar. Desde a cultura ao desporto, passando também pela solidariedade, ficam aqui alguns dos projetos desenvolvidos naqueles que foram, possivelmente, os meses mais marcantes e atípicos das nossas vidas.

Estamos em Direto

Bright Minded

Porque não criar o meu próprio talk-show? Foi o que pensou Miley Cyrus, que, afastada dos palcos, como tantos outros, não quis ficar afastada também dos ecrãs dos seus seguidores.

De segunda a sexta, às 18h30 (fuso horário de Portugal), em direto do seu Instagram, a cantora trazia-nos conversas informais com convidados das mais diversas áreas. Demi Lovato, Selena Gomez, Anitta, Elton John, Billy Ray Cyrus, Jimmy Fallon e Ellen DeGeneres foram algumas das celebridades que passaram pelo “Bright Minded”.

Quem trabalha diretamente na linha da frente não foi esquecido e teve direito a uma edição especial de episódios, com o título “#HighlightingHeroes. O objetivo, como o nome indica, era destacar aqueles que são os verdadeiros heróis: médicos, fundadores de instituições, ativistas, entre outros. Estes aceitaram o desafio e juntaram-se a Miley Cyrus para falar sobre o impacto económico e social causado pela pandemia da COVID-19, sobre o acesso à saúde, sobre a adaptação à situação pandémica ou até sobre a autoestima.

O talk-show chegou a várias partes do mundo e tocou no coração de muitos que precisavam de uma companhia. Como a própria disse, o objetivo era ajudar as pessoas a manterem-se “acesas” nos tempos sombrios em que vivíamos. Conseguiu isso e deixou todos os que a acompanhavam com o genérico na cabeça.

Como é que o bicho mexe?

No nosso país, os diretos nas redes sociais também foram um sucesso, especialmente os tão famosos diretos diários de Bruno Nogueira “Como É Que o Bicho Mexe?”.

Durante dois meses, o humorista fez diretos para o seu Instagram, das 23h00 à 1h00, com vários convidados. Ver Inês Aires Pereira a interpretar “Frozen”, João Manzarra com um corte de cabelo radical, Albano Jerónimo dentro de uma banheira, ou outros convidados, como Beatriz Gosta, João Quadros e Nuno Lopes, passou a ser a desculpa perfeita para nos deitarmos depois da uma hora da manhã.

Costuma-se dizer que o Natal é todos os dias. Porém, para o “Bicho” e para as 170 mil pessoas que a ele assistiam, o Natal foi no dia 15 de maio, ou seja, no último dia do direto. E, aí, Bruno pediu aos seus espetadores para colocarem luzes de Natal nas suas janelas. Com Nuno Markl ao volante, os dois andaram por Lisboa em busca de luzes e acabaram em grande, no Coliseu.

Ainda no caminho, Bruno Nogueira falou com todos os convidados que fizeram parte desta “família”, como o próprio lhe chama, inclusive com Cristiano Ronaldo. Já no Coliseu, “Como É Que o Bicho Mexe?” deu-nos a oportunidade de assistir a um momento inesquecível. Primeiro, vimos Salvador Sobral a cantar na casa de banho e, depois, Nélson Évora guiou-nos até ao palco do Coliseu. Aí, foi cantada uma música de Tony de Matos, acompanhada por Filipe Melo ao piano.

Assim, o que começou por ser apenas um entretém para Bruno Nogueira acabou por se tornar num espetáculo para todos aqueles que a ele assistiam.

Cultura no Sofá


Festival Eu Fico em Casa

Por falar em Coliseu, na quarentena, as saudades de um bom concerto começaram a apertar. Logo no mês de março, vários artistas e editoras discográficas juntaram-se e deram vida ao “Festival Eu Fico em Casa”. Um festival que tinha como objetivo oferecer, durante seis dias, concertos para todos aqueles que quisessem ouvir os maiores nomes da música portuguesa, sem ter de sair do sofá.

Ana Moura, Boss AC, António Zambujo, April Ivy, Tiago Nacarato, Chico da Tina, Fernando Daniel e Bispo foram alguns dos 77 artistas que fizeram parte das 40 horas de música do festival. Cada concerto tinha uma duração de 20 a 30 minutos e era transmitido em direto no Instagram pessoal de cada artista, ou no Instagram do próprio festival. De 17 a 22 de março, das 17h às 23h, deixámos de ter razão para nos sentirmos aborrecidos e passámos a ter um horário especial para ouvir e descobrir o melhor que a música portuguesa tem para nos dar.

Mesmo sem concertos, o Instagram do “Festival Eu Fico em Casa” continua ativo. Lá, temos acesso a entrevistas e sugestões de artistas, músicas e álbuns para vermos e ouvirmos, sempre que quisermos.

One World: Together at home

A Global Citizen e a Organização Mundial de Saúde (OMS) juntaram-se e tiveram mais uma iniciativa – o concerto solidário “Together at Home”. Com a curadoria da cantora Lady Gaga, o objetivo passou por angariar fundos para apoiar os profissionais de saúde que lutavam na linha da frente contra a doença provocada pelo novo coronavírus e sensibilizar as pessoas para manter o distanciamento social.

O concerto foi transmitido no dia 18 de março de 2020, em estações televisivas e plataformas online, e contou com atuações de vários artistas, tais como Stevie Wonder, Paul McCartney, Elton John, The Rolling Stones, Jennifer Lopez, Shawn Mendes ou Billie Eilish. Para além das atuações, figuras como Oprah Winfrey, Michelle Obama, António Guterres, Bill Gates e Lupita Nyong’o marcaram também presença no evento.

Antes da transmissão televisiva, esta iniciativa contou ainda com um pré-concerto de seis horas, transmitido apenas online, no qual pudemos assistir a várias presenças e atuações: por exemplo, de Adam Lambert, Charlie Puth, Niall Horan, Lewis Hamilton e Lili Reinhart.

O “Together at Home” conseguiu angariar quase 120 milhões de euros. Com cerca de 270 milhões de pessoas a assistir, bateu recordes no que diz respeito aos espetadores.

Play on Fest

“Coachella”, “Rock in Rio”, “Lollapalooza”, “Bonnaroo” e “Primavera Sound” são alguns dos maiores festivais a que os amantes de música gostariam de ir. No entanto, a pandemia afastou-os desse desejo. Com o festival “Play on Fest”, que, ao contrário dos outros projetos, não foi transmitido em direto, tivemos a oportunidade de estar um pouco mais perto de sentir como é assistir aos maiores festivais do mundo, em apenas três dias.

A partir das 17 horas do dia 24 de abril, e até ao dia 26, tivemos a oportunidade de assistir no Youtube aos concertos de 65 artistas que atuaram no palco de um dos maiores festivais do mundo. Entre eles estavam nomes como Bruno Mars, Ed Sheeran, David Guetta, Slipknot, Coldplay, Green Day, Panic! At The Disco e Wiz Khalifa. O festival foi organizado pela Warner Music Group e todo o lucro obtido reverteu para a OMS.

Teatro Aberto em Casa

Sentarmo-nos confortavelmente numa sala de teatro também deixou de fazer parte dos nossos planos. Para não deixar a audiência perder a conexão com estes espetáculos, o Teatro Aberto, em Lisboa, lançou a iniciativa “Teatro Aberto em Casa”. A ideia consistia na transmissão online de peças que tinham sido gravadas quando estavam presencialmente em cena. Todos os dias, de 19 de março a 29 de abril, uma das seis peças encenadas por João Lourenço era transmitida às 21 horas, no site da companhia.

Podemos ver este projeto como uma iniciativa inovadora que foi uma grande ajuda para todos aqueles que gostam de ir ao teatro. No entanto, não devemos deixar que ela nos faça esquecer que, como a própria companhia escreveu, “O Teatro acontece ao vivo. Os registos não são teatro. São um abraço da equipa do Teatro Aberto aos nossos espectadores que estão em casa”.

Um Por Todos, Todos Por Um

SOS Vizinho

Com o vírus ao virar da esquina, sair de casa tornou-se um desafio para todos, especialmente para aqueles que se enquadram nos grupos de risco.

Foi a pensar nisto que nasceu o “SOS Vizinho”: um projeto nacional composto por voluntários que saiam das suas casas para levar bens essenciais a pessoas que, sem eles, teriam de arriscar a sua saúde para ter acesso a coisas simples e essenciais ao seu dia-a-dia.

Como a necessidade de ajudar estas pessoas era muito grande, foi preciso arranjar uma solução rápida. Assim, o “SOS Vizinho” foi criado de maneira remota, tendo sido lançado em apenas 48 horas. Fosse para pedir ajuda, ou para ajudar, tudo o que bastava era fazer a inscrição através do site ou da linha telefónica do projeto. Havia, ainda, uma grande preocupação em dar uma resposta o mais rápida e eficaz possível.

A esta rede de distribuição juntaram-se mais de 3 mil voluntários dos vários concelhos de Portugal, mostrando que, mesmo numa situação mais complicada e atípica, podemos sempre ajudar o próximo.

Acalma.Online

A COVID-19 prejudicou várias vertentes da nossa vida. A saúde mental não foi exceção.

O “Acalma.Online” foi um projeto nacional que procurou dar apoio psicológico, através de uma plataforma online, de forma gratuita. O objetivo principal era ajudar as pessoas a lidar com os desafios que a pandemia trouxe e diminuir o impacto psicológico que esta poderia vir a ter. Para isto, o projeto contou com cerca de 100 psicólogos voluntários.

A plataforma “Acalma.Online” terminou a sua atividade no final do mês de julho. No entanto, foi deixado um apelo para que a intervenção ao nível da saúde mental continue, independentemente do contexto em que estejamos a viver. Como a própria organização deixou escrito no seu site, “A saúde mental é um pilar do bem-estar e da qualidade de vida de todos nós”.

Põe-te a mexer

Ginásio Online

A prática desportiva fazia parte do dia-a-dia de muitos. Contudo, com o encerramento dos ginásios e o cancelamento dos treinos de todas as modalidades, manter a forma tornou-se um desafio ainda maior.

O “Ginásio Online” foi uma plataforma criada para fazer chegar a toda a gente uma grande quantidade de aulas, planos de treino e exercícios para fazer quando, onde e ao ritmo que quiser. O primeiro ginásio totalmente online também lhe dá acesso a receitas e dicas de nutrição, para que todos possam manter uma alimentação equilibrada.

Se continua sem ir ao ginásio ou praticar atividade física, o “Ginásio Online” continua ativo e é uma ótima opção para quem não tem tempo ou ainda não se sente seguro.

Eu Danço em Casa

Quem não gosta de dar um passinho de dança? Cifrão, bailarino e coreógrafo português, com a ideia de mostrar como o exercício físico é importante, mesmo estando em casa, quis pôr todos a dançar com o movimento “Eu Danço em Casa”.

A convenção consistiu na transmissão em direto, no Instagram de Cifrão, de aulas de dança dos mais variados estilos, com os melhores bailarinos, coreógrafos e grupos de dança portugueses. De 21 de março a 5 de abril, das 17h às 18h, Joana Lima, Vadim, André Madeira, Renato Nobre e Ana Cardoso foram alguns dos bailarinos que nos ensinaram a dançar kizomba, chachacha, hiphop, house, kuduro e muitos outros estilos.

 

Apesar de os três meses de quarentena terem sido uma altura complicada para todos, conseguimos retirar desta experiência algumas coisas boas.

A correria constante do nosso dia-a-dia, em situações normais, deixou de existir, e o tempo passou a ser muito – por vezes até demais. Tudo aquilo que não conseguíamos fazer antes, por não haver tempo, passou a ser mais fácil de concretizar.

Os vários projetos que surgiram nesta altura foram uma grande ajuda para todos aqueles que estavam habituados a dias mais agitados. Tivemos de nos adaptar e tentar tirar o máximo proveito do facto de estarmos em casa. Então, estas iniciativas foram, de facto, uma maneira simples e prática de nos dar aquilo que parecia impossível termos.

Ilustração de capa: Carina Rita

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