Qual o futuro das touradas?

(António Cotrim/LUSA)

A tauromaquia tem feito parte da identidade de Vila Franca de Xira desde há muito tempo. Em todas as festas da cidade celebra-se este animal nas ruas, através das esperas de touros, e nas corridas de touros da praça Palha Blanco, construída em 1901. Mas Vila Franca de Xira tem sido também palco de acesas discussões em volta do tema da tauromaquia. Os movimentos anti-taurinos têm-se mostrado mais ativos nos últimos anos, levando a que o debate sobre esta prática se intensifique. Em 2018, discutiu-se na Assembleia da República a própria existência das touradas, o IVA que lhes é imposto, e se esta é ou não uma questão de civilização. Estivemos à conversa com Adélia Gominho, eleita municipal do partido PAN na Assembleia Municipal de Vila Franca de Xira, e Luís Capucha, presidente da Associação de Tertúlias Tauromáquicas de Portugal, para saber quais as hipóteses de futuro que a tauromaquia tem pela frente.

1- Porque é que as pessoas continuam a ir às touradas?

Adélia Gominho: A tauromaquia é uma atividade enraizada em algumas regiões de Portugal. Nunca foi uma atividade aceite e disseminada por todo o país de forma igual. Eu acho que vai haver cada vez mais incentivos à participação das pessoas nestas atividades consoante o decréscimo do número de espetadores. É um reflexo natural de quem vê o seu negócio a ser ameaçado. Até porque eu não considero a tourada como um espetáculo cultural, é uma tradição. É cultural no sentido amplo do termo, faz parte da sociedade, mas não no sentido restrito. Para mim a cultura é algo que deve servir para o nosso pensamento crítico e para nos melhorar enquanto pessoas, e não considero que maltratar animais para espetáculo se enquadre nesse contexto. Basicamente, é algo que vejo que está a morrer, apesar de fazer muito ruído. Maior até do que aquilo que realmente representa para a sociedade atual. 

Adélia Gominho mostra-se contra a tourada.

Luís Capucha: O touro tem uma carga simbólica muito forte. Ele representa valores que são queridos às pessoas como a bravura, a força, a potência e a capacidade genesíaca. Acabou por ganhar um sentido de entrega à luta e de paixão que torna este animal muito especial para as regiões onde permanecem os rituais taurinos. Existem, por outro lado, os valores de solidariedade e de coragem que as pessoas representam ao enfrentar o perigo e ao superar o medo. Tudo isso são princípios que dão corpo a esta cultura e a esta maneira de ser e estar na vida. É uma festa com uma carga simbólica muito potente porque trata das coisas fundamentais em torno da vida e da morte, do prazer e da alegria. As pessoas vivem estes espetáculos de forma particularmente intensa e emotiva, e penso que é por causa dessa emoção que elas gostam dos touros.

Luís Capucha é um grande apreciador da cultura tauromáquica. (Cláudia Silva/8º COLINA)

2- Tendo em conta as críticas feitas a esta prática, as touradas com velcro poderiam ser uma boa solução para realidade portuguesa?

Adélia Gominho: Não existem as touradas com velcro nem na Califórnia nem no Canadá como erradamente se diz. As touradas são proibidas nesses países. O que existe é uma recriação; uma demonstração etnográfica daquilo que é uma corrida de touros em Portugal. Daí a utilização do velcro. Além disso, não me parece que quem viva do negócio de criar touros de lide possa ver aí o futuro. Porque os touros são criados e planeados especificamente para serem utilizados em corridas de touros. O negócio não passa em andar sempre com o mesmo touro de praça em praça.

Pessoalmente, não vejo o sofrimento animal ou a utilização de animais em espetáculos apenas na perspetiva do sangue ou pelo facto de estes estarem na praça. O sofrimento começa no momento em que estão a ser transportados e no momento da embolação, quando os cornos são cerrados. Essa é, curiosamente, uma parte a que os espetadores não assistem. Assim como não assistem àquilo que precede uma corrida ou a todo o processo, por vezes demorado, que decorre desde que o animal é ferido até ao momento em que é abatido. A colocação do velcro apenas impede que haja sangue. Mas o sofrimento não é apenas sangue.

A tourada com velcro foi uma proposta apresentada pelo PS para que o espetáculo não implicasse sangue. (António Cotrim/LUSA)

Luís Capucha: Há contestação à tauromaquia desde que há tauromaquia. Já houve em Portugal momentos em que a tauromaquia esteve proibida. A diferença nos dias de hoje relaciona-se com algo que transcende a tauromaquia. Deu-se uma transformação na relação entre os grupos mais importantes da população, que detêm um grande poder de propaganda, e os animais. E esta transformação reflete-se também na tauromaquia. A ideia de que os animais são iguais a nós é uma ideia insustentável. Porque se os animais fossem iguais a nós isso quereria dizer que nós teríamos de descer ao nível dos animais porque eles não podem subir ao nível da inteligência, linguagem e cultura dos humanos.

Creio que o velcro, se fosse introduzido, o que fazia era acabar depressa com a corrida de touros. Porque uma tourada implica que o animal esteja na posse de todas as suas qualidades. E sendo um animal produzido e selecionado para a luta, só se revela totalmente quando sente que está numa batalha de vida ou de morte. Se o touro andasse com velcro andaria toda a corrida num estado a que nós chamamos levantado e nunca chegaria a perceber onde é que estava metido. Tentaria agredir, mas sem perceber bem que essa agressão teria um retorno e, portanto, a festa perderia o sentido. O espetáculo perderia a sua essência.

É certo que o sangue existe. As sensibilidades modernas mudaram muito: estão mais exacerbadas e a visão do sangue choca alguns. As pessoas ficam atordoadas com as imagens violentas e sangrentas que veem na televisão, e depois têm dificuldade em entender outras imagens que não têm a mesma violência porque são devidamente enquadradas e ritualizadas. Na corrida de touros há um ritual que dá sentido a tudo o que se passa e é esse conjunto como ritual que tem de ser visto e não cada uma das suas peças separadamente.

3- Acredita que as touradas serão proibidas em Portugal?

Adélia Gominho: Sem dúvida. Se não fizéssemos nada, se a sociedade fechasse os olhos, acabaria por si só. Tal como os números mostram, esta atividade está em declínio e mais cedo ou mais tarde o negócio não se conseguirá manter. Obviamente que facilitaria imenso, até por uma questão de ética, acabar com os subsídios públicos de apoio à tauromaquia, sejam eles diretos ou indiretos. Desde logo, há fundos europeus para a agricultura e para a produção de gado que não distinguem qual o destino que deve ter esse gado. A maior parte do gado presente nas ganadarias é para alimentação, portanto, os subsídios são entregues na mesma. Aliás, a esse propósito, o Parlamento Europeu já manifestou que esta prática está incorreta e que tem de ser alterada.

A maior parte dos portugueses não sabia, até há poucos meses, que os toureiros que trabalham em nome individual, ou seja, com os chamados recibos verdes, não pagam IVA, ao contrário de um médico veterinário ou de um professor de explicações. O IVA descer para 6% também ajuda. E a maior ajuda de todas é o subsídio dos municípios. Aqui em Vila Franca de Xira, segundo os dados do executivo, aplicam-se 270 mil euros na promoção e apoio à atividade tauromáquica. Não há 270 mil euros todos os anos para apoiar outras atividades culturais. Existem apoios, mas a desproporção em relação às touradas é enorme.

Em termos de legislação, o PAN já apresentou várias propostas. Mas é importante dizer que, mesmo quando a legislação não é aprovada, há sempre um ponto positivo a tirar: o debate público que se provoca e que acaba sempre por informar mais umas centenas ou uns milhares de pessoas daquilo que realmente se passa.

Se existiriam consequências? Antes caçava-se a baleia nos Açores e, quando se deixou de caçar, as pessoas reconverteram-se e passaram a fazer outras coisas. O desemprego para mim é uma falsa questão, há dados oficiais que indicam que cada ganadaria tem em média três empregados a tempo inteiro, e o gado bravo de lide é uma percentagem pequena no meio do número total de animais na ganadaria, portanto, os empregados terão de trabalhar à mesma. Os emboladores, por exemplo, também não conseguem subsistir todo o ano só a cerrar os cornos dos touros seis ou dez vezes por ano, eles têm outras profissões. Até os forcados são amadores, têm outras ocupações. Dará cabo deste negócio, mas não vai contribuir para um aumento significativo do desemprego. No entanto, é normal que quem continua a basear a sua identidade em algo que está para acabar se sinta esvaziado, e perca o sentimento de pertença à comunidade. Mas é uma falácia dizer que alguma comunidade só pode subsistir à volta da tauromaquia. Aliás, em Barcelona, por exemplo, as touradas foram proibidas e não aconteceu nada. Nem tumultos sociais, nem nada fraturante. Nada.

Portugal é um país com uma forte tradição tauromáquica, mas esta poderá estar em vias de extinção. (Juan Carlos Cardenas/EPA)

Luís Capucha: Isso nunca se sabe. Pode haver uma conjuntura política que leve a que alguns partidos se distraiam e deixem passar uma lei dessas. Mas seria desastroso. Eu penso que não vai acontecer. As sucessivas votações que têm havido para acabar com a tauromaquia têm sido chumbadas pela esmagadora maioria dos deputados. Creio que é isso que vai continuar a acontecer. Se não, criar-se-á uma situação muito complicada e os responsáveis teriam de assumir as consequências, porque iriam gerar-se conflitos nas regiões com tradições tauromáquicas. As pessoas vão defender aquilo que é seu e aquilo a que acham que têm direito.

Existiram também consequências ao nível económico, ainda são uns quantos empregos que se perdem. É uma atividade que gere receitas para o Estado. Mas, sinceramente, já vi setores económicos mais importantes a serem destruídos sem grande problema. Do ponto de vista ecológico também seria muito mau, talvez até pior do que do ponto de vista económico, porque a ganadaria brava neste momento é uma importante reserva ecológica. Mas eu acho que o maior impacto seria a nível simbólico e cultural. Como foi o caso de Barrancos onde as pessoas disseram que para acabar com a sua tourada tinham de acabar com elas. “Barrancos resiste”, foi o que se disse. E Barrancos resistiu porque é algo faz parte da essência daquele povo.

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