Quando a ignorância manda: Como Donald Trump e Jair Bolsonaro lidaram com a pandemia da covid-19

A pandemia da covid-19 foi o tema do ano. Por todo o mundo implementaram-se confinamentos obrigatórios e medidas de redução de risco de contágio. A população viu nos seus líderes o exemplo para o que cada um deveria fazer face à falta de informação e à incerteza em relação ao vírus. Mas nem todos os líderes mundiais souberam dar a importância necessária ao combate à pandemia. Nesta peça, abordamos os exemplos de Donald Trump e Jair Bolsonaro para vermos quais as falhas cometidas nos Estados Unidos da América e no Brasil que facilitaram a escalada destes países ao topo dos gráficos de infeções e mortes por covid-19.

Em ano de eleições nos Estados Unidos da América, a ação de Donald Trump na contenção da pandemia foi tema central nos debates e na campanha da oposição.

Quando apareceram os primeiros casos em território norte-americano, Donald Trump disse que o vírus iria desaparecer como que por milagre, que os órgãos de comunicação social estavam a exagerar a realidade e que, no fundo, tudo não passava de um novo boato dos democratas. Trump ainda não se tinha virado contra a China, e tudo parecia estar sob controlo.

Bastou uns meses para que o discurso mudasse e Trump passasse a culpar a China pela pandemia, desviando as culpas para o outro lado do Oceano Pacífico. Começou a chamar “vírus da China” ao novo coronavírus e espalhou a teoria de que o vírus tinha sido lançado por um laboratório chinês. Aproveitou também para disparar acusações contra a OMS, dizendo que esta organização era “a agência de relações públicas da China” por estar a “desculpar quem cometeu erros tão terríveis”, numa conferência de imprensa onde a BBC News esteve presente.

Descrença na ciência

Os Estados Unidos da América são o país com mais casos de infeção e de óbitos reportados no mundo inteiro.

Donald Trump, que desde cedo menosprezou a pandemia, demorou a tomar medidas para travar a propagação do vírus. Em sua defesa, disse que fechou as fronteiras com a China quando todos lhe diziam para não o fazer e que com isso salvou milhões de vidas norte-americanas. Esta foi repetidamente a resposta-modelo do Presidente. Outro argumento constantemente repetido por Donald Trump é a testagem em massa: Trump defende com unhas e dentes que os EUA só apresentam estes números de casos por fazerem tantos testes. De facto, os EUA estão no topo dos países que realizam mais testes à covid-19 no mundo, mas não se afastam assim tanto de outros países que conseguiram dominar o vírus de uma forma mais efetiva.

Donald Trump descredibilizou inúmeras vezes o Doutor Anthony Fauci, especialista em infeciologia norte-americano, acusando-o de ter cometido erros no início da pandemia. Recusou-se também a usar máscara de proteção individual e a decretar um mandato nacional para tornar o seu uso obrigatório.

Já no Brasil, a 24 de março, no canal de Youtube do Planalto, o Presidente Jair Bolsonaro afirmou: “No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus não precisaria de me preocupar. Nada sentiria, ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha, ou resfriadinho”. A descontração de Bolsonaro em relação à pandemia deu uma falsa sensação de segurança ao povo brasileiro que o segue.

Quatro dias depois, Bolsonaro já dizia que o seu nome era Messias mas que não fazia milagres, quando questionado sobre o recorde de casos então alcançado no território brasileiro (5.385 novos casos em 24h).

“Tenho a responsabilidade de decidir sobre as questões do país de forma ampla, usando a equipa de ministros que escolhi para conduzir os destinos da Nação. Todos devem estar sintonizados comigo“, afirmou Bolsonaro, mais uma vez no canal de Youtube do Planalto, a 8 de abril. Luiz Henrique Mandetta, ministro da Saúde à data, seria demitido a 16 de abril, após divergências com o Presidente quanto à política de isolamento social. Mandetta defendia o isolamento de toda a população, mas Bolsonaro discordava. No dia seguinte, a Agência Pública expôs uma rede de fake news espalhada pela administração de Bolsonaro, cujo intuito era descredibilizar o então ministro da Saúde.

No dia seguinte à demissão de Mandetta, Nelson Teich assumiu as pastas do Ministério da Saúde. Mas também Teich não chegou a aquecer a cadeira. Menos de um mês depois, a 15 de maio, Teich apresentou a sua demissão, após ser contrariado pelo Presidente sobre o uso de hidroxicloroquina em pacientes com sintomas leves e na sugestão da adoção de uma política de isolamento horizontal. A negação e a descrença de Bolsonaro relativamente às recomendações da ciência para as ações de mitigação do vírus resultaram na demissão de dois ministros da Saúde no espaço de um mês.

“Nós temos, neste momento, uma guerra com dois vírus: o coronavírus e o vírus Bolsonaro”, afirmou João Doria, Governador do Estado de São Paulo, numa entrevista à Associated Press, a 15 de abril.

À data, o Brasil já ultrapassou a barreira dos 7 milhões de casos contabilizados e aproxima-se dos 200 mil óbitos.

Avalanche de notícias falsas

A pandemia de desinformação, ou “infodemia”, como a denominou a Organização Mundial de Saúde, lançou curas milagrosas e teorias da conspiração sobre a covid-19. Tanto Bolsonaro como Donald Trump ajudaram a disseminar muitas delas.

Um estudo realizado pela Universidade Cornell em outubro identificou Donald Trump como possivelmente a maior fonte de desinformação sobre a pandemia da covid-19. No estudo foram analisados cerca de 38 milhões de artigos publicados em inglês entre janeiro e maio de 2020; as menções a Trump representam 37,9% do conjunto de fake news sobre a covid-19.

Entre as desinformações com origem no próprio Presidente, contam-se a sugestão de injeção de desinfetante, que acabaria com o vírus “num minuto”; ou o tratamento da doença com a famosa hidroxicloroquina – um  medicamento utilizado para tratar a malária e doenças autoimunes como a artrite reumatoide ou o lúpus -, que já se tinha provado ser ineficaz, e até perigosa, quando administrada em doentes com covid-19.

Um estudo realizado pela FVG – Fundação Getulio Vargas – mostrou que, logo no início da pandemia, os eleitores de Jair Bolsonaro começaram a perder espaço na discussão sobre o coronavírus no Twitter. A participação do grupo de apoio ao Presidente Bolsonaro no debate geral sobre o coronavírus no país passou de 12% para 6,5%. As interações começaram a revelar uma crescente maioria preocupada com as medidas de distanciamento social e higiene, e com os efeitos económicos e sociais que esta pandemia iria trazer para os grupos mais vulneráveis.

Contudo, desde a rápida cura que Israel teria encontrado para o vírus até à vacina de Cuba, o Youtube e o Whatsapp levaram com uma avalanche de teorias da conspiração e notícias falsas sobre a pandemia.

Finalmente, a vacina

Uma das bandeiras da campanha eleitoral de Trump, a vacina, prometida desde o início da crise pandémica, chegaria finalmente ao povo americano.

A pressa era tanta que Trump, no início de dezembro, ameaçou com demissões caso a FDA, a reguladora norte-americana do medicamento, não aprovasse a vacina da Pfizer rapidamente.

Antes, já tinha acusado a FDA de não aprovar a vacina antes de dia 3 de novembro, o dia das eleições norte-americanas, por não ter coragem para o fazer.

Depois de aprovada, e como seria de esperar, Donald Trump tentou puxar para a sua administração os louros da investigação científica.

Com cerca de 300 milhões de doses encomendadas, a operação Warp Speed, há meses anunciada, começou a 14 de dezembro. Esta operação tem como objetivo acelerar a imunização do país e garantir doses a quem quiser, voluntariamente, tomar a vacina.

Bolsonaro, por outro lado, tem vindo a descredibilizar a vacina. Numa entrevista dada ao filho Eduardo Bolsonaro para o seu canal de Youtube, o Presidente levantou suspeitas sobre a pressa e o interesse na distribuição acelerada da vacina: “A pressa da vacina não se justifica. Você mexe com a vida das pessoas. Vai colocar algo em você e o sistema imunológico pode reagir ainda de forma inesperada. (…) É muito suspeita esta pressa [dos governadores de vários Estados] em gastar 20 biliões de reais na vacina.”

No entanto, meses antes, a 8 de abril, Bolsonaro defendeu o uso de hidroxicloroquina no tratamento da covid-19 sem que os testes tivessem sido concluídos: “[O dr. Kalil] disse-me mais: que, mesmo não tendo finalizado o protocolo de testes, ministrou o medicamento agora para não se arrepender no futuro.”

Ilustração de capa: Manuel Frazão / 8ª COLINA

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