Regressar. “É um milagre teres passado. Ninguém passa”

Com a pandemia de Covid-19 a alastrar-se pela Europa, muitos foram os estudantes em mobilidade que quiseram voltar para casa. Teresa Oliveira estava em Montenegro e, contra todos os conselhos e probabilidades, decidiu regressar sozinha para Portugal. Esta é a história da viagem a que muitos chamaram “missão impossível”.

Maria Teresa Oliveira é aluna do segundo ano do curso de Arte e Multimédia da Faculdade de Belas Artes, em Lisboa. Decidiu candidatar-se ao programa de mobilidade de estudantes Erasmus quando soube que a faculdade não ia abrir mais cadeiras de fotografia. Sendo essa a sua área de eleição, pensou: “Se não consigo fazer cadeiras de fotografia aqui, vou fazer para fora”.

O programa Erasmus a que se candidatou tinha Montenegro e Bósnia como opções de mobilidade. Optou, então, por ir para a Faculty of Fine Arts da Universidade de Montenegro. No período de esgotamento criativo em que se encontrava, achou que precisava de sair da sua zona de conforto – tanto a nível artístico, como pessoal. Montenegro era o país ideal.

“Estive lá 50 dias”, conta Teresa.

(Fotografias de Montenegro cedidas por Teresa)

 

Começou a sua mobilidade a 5 de fevereiro, mas, com a pandemia a alastrar-se pela Europa, decidiu voltar para Lisboa no dia 18 de março.

 

“O meu maior receio era o de não ter a mesma assistência médica que teria dentro da União Europeia.” Este receio partia daquele que Teresa diz ser o maior obstáculo do país: a comunicação. Em Montenegro fala-se montenegrino, “uma língua que não está no tradutor do Google”, e só os jovens sabem falar inglês. Teresa conta que, por vezes, tinha de usar o tradutor para comunicar em bósnio, a única língua, para além do idioma nacional, que os habitantes conseguiam perceber. Mas esta não foi a única situação em que a comunicação lhe causou entraves.

 

Durante a sua estada de 50 dias, teve de ir ao hospital uma vez. O médico que a avaliou acabou por fazer um diagnóstico errado: “Deu-me antibióticos de que eu não precisava. Não conseguimos comunicar. Esta foi a minha maior razão para voltar. Eu sentia que, se ficasse doente, Montenegro não ia ser seguro para mim.”

 

Montenegro foi o último país da Europa a ser atingido pela Covid-19 e até ao momento da partida de Teresa ainda não tinham sido registados casos de infeção no país. A princípio, ainda pensou em ficar, mas rapidamente mudou de ideias ao ver a velocidade a que a situação se estava a complicar na Europa. O medo instalou-se: “Quando me «caiu a ficha», comecei a chorar convulsivamente e só dizia «tirem-me daqui; quero ir para casa»”.

“Na manhã do dia 18 de março percebi que não estava psicologicamente bem com toda a situação”, continua Teresa. “Liguei aos meus pais e expliquei que me queria ir embora. O meu pai disse «começa a fazer as malas».”

Assim começou o processo de «resgate», como a família gosta de lhe chamar.

Burocracias do «resgate»

Os pais foram essenciais para o seu regresso. O pai começou a procurar voos, mas Montenegro tinha o aeroporto e as fronteiras fechadas. Não havia táxis, barcos ou comboios. Não havia nada.

Depois de algumas tentativas para comprar bilhetes por telefone, o pai acabou por tratar do assunto numa agência de viagens. Conseguiu um voo de ligação entre Dubrovnik e Zagreb às seis horas da manhã do dia 19 de março. Depois, Teresa voaria de Zagreb para Zurique, com partida às nove da manhã. Por fim, apanharia um voo de Zurique para Lisboa, com partida às onze e chegada às duas da tarde. Mas nem tudo correria como planeado.

A 3302,3 quilómetros de distância, Teresa tratava de outras tantas burocracias. Falou com o responsável pelos alunos internacionais na faculdade de acolhimento, o Professor Marko, que lhe recomendou que não regressasse a Portugal. Ainda assim, apesar de ter olhado para a situação como se de uma «missão impossível» se tratasse, o professor afirmou que, no caso de a aluna querer levar a ideia de regresso avante, deveria falar com a Embaixada Portuguesa na Sérvia, em Belgrado.

Teresa começou por enviar um e-mail ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, com uma declaração comprovativa de como era uma estudante portuguesa que desejava voltar para casa. Tentou, depois, ligar para a Embaixada Portuguesa na Sérvia, mas não podia fazê-lo com o seu telemóvel português, uma vez que Montenegro não faz parte do espaço Schengen. Também não o podia fazer com o seu número montenegrino, pois era um número temporário pré-pago que só funcionava para contactos do próprio país. “Acabei por ir à polícia, na cidade onde eu estava, Cetinje. Consegui usar o telefone do posto para ligar para a Embaixada Portuguesa na Sérvia, cuja funcionária disse que tinha de falar com a Embaixada Portuguesa na Croácia.” Acabou por ser o pai a ligar, porque Teresa não podia continuar a fazer chamadas através dos telefones da polícia. Ainda assim, este não seria o último favor concedido pelos agentes.

O pai de Teresa, em conversa com o representante da Embaixada Portuguesa na Croácia, soube que no dia anterior tinha passado um português pela fronteira, graças aos bilhetes de avião que levava na mão. “Depois de saber, pedi ao meu pai que solicitasse à Embaixada Portuguesa na Croácia uma declaração que dissesse que eu era mulher e estudante, que tinha 20 anos e que o meu único objetivo na Croácia seria o de ir para o aeroporto de Dubrovnik para apanhar um voo de ligação para Lisboa.” A Embaixada não faz este tipo de documentos, mas desta vez abriu uma exceção.

A questão agora dizia respeito a como seria possível chegar à fronteira sem transportes disponíveis. Teresa acabou por ligar a uma professora da faculdade local, que prometeu falar com conhecidos dentro do país que estivessem disponíveis para ajudar. Conseguiu o contacto da mulher de um taxista que se dizia disposto a aceitar o serviço de atravessar Montenegro para chegar à fronteira. Assim foi.

A passagem das fronteiras

“Arrumei as minhas coisas todas. Deixei uma mala para trás, um tripé e um instrumento musical. Peguei numa mala de porão e numa mochila e fui para o táxi.”

A princípio, a partida estava marcada para as 22h30, mas passou para as 20h00, uma vez que as fronteiras fechavam à meia-noite. Com aquilo que lhe foi possível guardar e com apenas 20% de bateria no telemóvel, começou a viagem.

Início fronteira de Montenegro com a Croácia – Debeli Brijeg

Chegou à fronteira entre Montenegro e a Croácia por volta das dez e meia. Mostrou o passaporte, os bilhetes de avião e a declaração que tinha pedido à Embaixada Portuguesa na Croácia, estes dois últimos guardados no telemóvel já quase sem bateria.

O polícia da fronteira e o taxista tiveram uma conversa de cerca de dez minutos, em montenegrino. Sem perceber o assunto em discussão, Teresa apenas repetia “I’m a student; I want to go home. I’m portuguese; let me go home, please”, num tom de voz desesperado.

O polícia devolveu os documentos todos e o taxista começou a fazer recuar o carro. Não iam passar a fronteira. Tentou explicar à estudante, de uma maneira muito simpática, o que estava a acontecer, mas não compreendendo montenegrino tornava-se impossível para Teresa perceber a situação.

O taxista decidiu, então, ligar a amigos que pudessem fazer a tradução do que dizia para inglês. O amigo que traduziu a conversa explicou que não era possível passar a fronteira àquela hora, tendo em conta que o voo era só às 6h30 da manhã. Se passasse, teria de ficar de quarentena na Croácia. A única solução era passar a fronteira duas horas antes do voo, às 4h30.

Teresa ainda pensou em ficar as cinco horas em frente à fronteira. No entanto, aquela era uma zona abandonada e mal iluminada. Por outro lado, o taxista tinha de voltar para Cetinje, por isso decidiu tentar encontrar alguém que ficasse com a estudante até as 4h30 e que atravessasse a fronteira com ela. Foram até uma bomba de gasolina a cinco minutos do local onde se encontravam. O taxista abordou um senhor, que, no seguimento da conversa, entrou no táxi. Encaminharam-se de novo para a fronteira.

O taxista saiu do carro. “Wait here”, pediu.

Passados 15 minutos, voltou e disse: “Ok, ok, good, good”.

Começaram a seguir um outro carro que os levou para um lugar também a cinco minutos da fronteira. Espreitando pela janela, via-se que se aproximavam de algumas casas com luzes.

“Ok, here”, disse o taxista no seu inglês atabalhoado.

O senhor do carro da frente saiu. Era um polícia das fronteiras de Montenegro, que, por sorte, falava inglês. Disse à estudante que tinha um anexo e que o podia alugar por 20 euros para essa noite. O polícia comprometeu-se a estar às 4h30 à porta desse anexo. Iam passar a fronteira da Croácia às cinco da manhã – não antes, não depois.

Teresa aceitou, mas, olhando para trás, arrepende-se de não ter ficado com o contacto do polícia: “Acho que foi uma falha minha, até porque, às cinco da manhã, não vi nenhum carro a chegar”.

 O anexo do polícia

O polícia acabou por se atrasar cinco minutos, mas, mal chegou, partiram para a fronteira. “Voltei a dar o passaporte, os documentos e a declaração. Depois, carimbaram-me o passaporte”, recorda Teresa.

A fronteira entre a Croácia e Montenegro tem uma extensão de 25 quilómetros. O polícia tinha dito que levaria Teresa até ao país vizinho, mas, como a Croácia também estava prestes a declarar estado de emergência por causa do novo coronavírus, não havia táxis que levassem depois a estudante ao aeroporto de Dubrovnik. Mais uma vez, a sorte esteve do seu lado. O polícia tinha conseguido um favor de um taxista que os aguardava no extremo croata da estrada da fronteira.

Ao chegar, teve de negociar com o polícia e com o taxista. O quarto tinha custado 20 euros e a viagem até ao aeroporto eram 40. “Acabei por dar uma nota de 50 euros ao polícia e uma nota de 50 euros ao taxista. Ninguém tinha trocos e aquelas eram as minhas duas últimas notas.” Com dois voos ainda por apanhar, Teresa ficava agora sem dinheiro.

Passaporte com carimbo da fronteira “Debeli Brijeg”

Sentou-se no novo táxi, que já tinha um passageiro lá dentro. Ao entrar na Croácia, pôde ativar o número de telemóvel português que tinha num Nokia à parte. O contacto com a família tornou-se mais fácil a partir daqui. Seguiram para o aeroporto, numa estrada de 20 quilómetros sem carros à vista.

“Já era de madrugada, e vi o nascer do sol no aeroporto de Dubrovnik”, recorda Teresa.

Nascer do sol no aeroporto de Dubrovnik

Os voos

Teresa no primeiro voo

Por precaução, Teresa criou uma máscara com a parte de baixo de um biquíni. “Passei o resto da viagem com a etiqueta da Calzedonia a fazer-me comichão no nariz”, conta.

O primeiro voo ligava Dubrovnik a Zurique. Era um avião pequeno da Croatia Airlines com apenas sete passageiros. Depois de uma chamada com o pai, ouviu uma voz masculina: “Vai para Portugal?” Surpreendida com a falta que lhe fazia uma voz portuguesa, respondeu: “Sim. Também vai para Portugal?” “Vou para o Porto”, respondeu o homem.

A situação inesperada deu lugar a uma agradável conversa, através da qual Teresa descobriu que o tal homem, português, com uns prováveis 40 anos, era um polícia das fronteiras da Croácia que voltava para Portugal depois de ter sido dispensado. Nesse voo, Teresa percebeu que ainda não tinha tomado consciência da «missão impossível» que viveu.

“É um milagre teres passado. Ninguém passa”, comentou o polícia das fronteiras.

Aeroporto de Zurique

Quando chegou, estava tudo fechado dentro do aeroporto de Zurique. “Eu já não comia há mais de 24 horas e não dormia há 48 horas”, lembra Teresa. Mais uma vez, as pessoas foram distribuídas pelo avião, agora com destino a Lisboa, e com o devido distanciamento social. Quando o avião descolou, Teresa adormeceu.

Comparação entre a ocupação dos assentos do avião antes e depois de terem entrado todos os passageiros

Teresa acordou passada uma hora. “Olhei pela janela e reparei que a paisagem era muito verde. Parecia a Suíça.”

O comandante comunicou nessa altura que iam regressar a Zurique. Quando ouviu o comunicado, Teresa entrou em pânico, achando que se tinha enganado no avião por culpa do cansaço. Ao aterrar, percebeu que se tratava apenas de uma falha no motor do avião e que bastava trocar para outro e retomar a viagem de regresso a Portugal.

“Descolámos outra vez, para uma viagem de duas horas e meia. Devia chegar a Lisboa às 14h00, mas acabei por chegar às 16h30 do dia 19 de março.”

Ao fundo encontra-se o avião utilizado para reiniciar o regresso a Portugal

A chegada

“Só na chegada a Lisboa, quando vi a Ponte 25 de Abril, é que me permiti chorar.”

Vista para a ponte 25 de Abril à chegada a Lisboa

Teresa relembra a expectativa que levava quando partiu para Montenegro: “Quando vamos de Erasmus pensamos que o nosso regresso a casa vai ser feito com imensa gente à nossa espera e com vontade de nos abraçar.” Quando chegou tinha apenas o pai, de máscara e luvas, à sua espera. Da viagem de carro para casa, Teresa não guarda qualquer memória. Diz que o seu estado era tal que, mal soube que estava em segurança, se deixou levar pelo cansaço e pelo alívio.

O «resgate» pode ter terminado quando Teresa soube que se ia deitar na sua cama, mas, a partir desse momento, começaria um novo desafio: encontrar paz de espírito face àquilo por que passou.

O fim da viagem

Mais tarde, Teresa acabou por descobrir, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, que o governo português não sabia da sua partida em regime de Erasmus, com duração de cinco meses, para Montenegro. “Acho inconcebível que não saibam onde estão os alunos”, refere.

 

Algum tempo depois da sua chegada, Teresa falou com a faculdade e revelou que ainda estava em recuperação e que não se sentia pronta para recomeçar as aulas. Atualmente, já frequenta à distância as cadeiras que tinha escolhido antes de ir para Erasmus e para as quais pediria equivalência. Tendo em conta que teve de começar do zero e que já tinha perdido uma parte substancial da matéria dada, foi fulcral o esforço dos professores para adaptar as suas aulas à chegada tardia da aluna e à sua situação. “Sinto que os professores estão a ser extremamente compreensivos e pacientes com a minha situação e acho que as aulas online estão a fortalecer a sua paciência.”

 

A situação da bolsa de Erasmus ainda está em fase de resolução. Tendo em conta que Teresa recebeu metade da bolsa e, depois, decidiu regressar a Portugal, é necessário saber quais os maiores gastos realizados com o dinheiro que lhe foi concedido. Os voos e os transportes estão a ser negociados como fazendo parte dos gastos da bolsa, mas o restante dinheiro provavelmente terá de ser devolvido.

Artigo escrito por: Carlota Portugal

Fotografias: Teresa Oliveira

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